Apoiar Maduro é erro de avaliação da esquerda, diz Jean Wyllys

O deputado do PSOL diz que a postura de apoiar o “inimigo dos meus inimigos” é simplista e atenta para o número de mortos e presos políticos no país vizinho

Brasília O deputado Jean Wyllys, do PSOL, passou a ser alvo de ataques de setores da esquerda depois que contrariou a postura de seu partido ao criticar publicamente o regime de Nicolás Maduro, presidente da Venezuela. A crítica foi à polêmica assembleia constituinte convocada por Maduro para o último final de semana. No Brasil, partidos tradicionais da esquerda, como PT e o próprio PSOL, saíram em defesa do presidente venezuelano, contestado por governos ao redor do mundo, entre eles o brasileiro.

Wyllys diz que a postura de apoiar o “inimigo dos meus inimigos” é simplista e atenta para o número de mortos e presos políticos no país vizinho. Em entrevista a EXAME, afirmou que faz parte de uma “esquerda moderna”, que defende os direitos humanos seja na Venezuela ou nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, critica o governo Temer, que, segundo ele, “não tem moral” para tratar de assuntos como este.

Os partidos de esquerda em geral estão apoiando o regime de Maduro e o senhor tem uma posição diferente. Por quê?

Que bom que você usou a expressão “esquerda em geral”, porque dentro dos partidos de esquerda não há um consenso. Embora, majoritariamente o PC do B e o PT tomaram uma postura de apoiar o governo Maduro, há muitas tensões internas. O PSOL também não é diferente: há uma tensão interna dentro do partido e durante um tempo eu fui voz isolada. Hoje outros setores e correntes do partido já se alinham, como o Movimento da Esquerda Socialista e a Insurgência. A minha posição é diferente porque não sou de uma esquerda tradicional, digamos assim. Eu me coloco como uma esquerda do século 21, que tem que conciliar a defesa da justiça e da igualdade social com a defesa das liberdades individuais, dos direitos civis. Portanto questões identitárias são importantes nesse sentido.

O senhor acha que há espaço para negociar com um governo como o de Maduro?

Não há espaço nenhum. Pelo contrário. Os partidos deveriam neste momento aproveitar a oportunidade e serem mais democratas, no melhor sentido da palavra: defender a democracia. E é óbvio que a democracia na Venezuela está sendo esgaçada há algum tempo. Não há o que negociar com um governo que mantém mais de 3.000 pessoas presas, um governo que já fez mais três centenas de mortes. Mas não vou ser cego: a oposição ao governo Maduro mistura tudo, desde a ultra-direita, que já se envolveu em tentativas de golpe num momento que a Venezuela estava bem, até setores da esquerda, liberais, neoliberais. É uma oposição muito diversa que não podemos transformar num bloco monolítico. Considerando tudo isso, creio que é de responsabilidade de qualquer pessoa de esquerda, comprometida com os valores democráticos e com as liberdades individuais, não negociar com a Venezuela e denunciar que há em curso, sim, uma ditadura civil-militar, que utiliza grupos paramilitares e até as Forças Armadas.

Como o senhor vê a postura do governo brasileiro em relação à Venezuela, neste momento?

Hipócrita, óbvio. A última pessoa que tem moral para falar de Venezuela é [Michel] Temer, um golpista, alguém que traiu o partido com o qual tinha coligação, que se aliou a outro partido para implementar um programa de governo que havia sido derrotado quatro vezes nas urnas. Um governo que está caindo de podre, envolvido em esquemas de corrupção, que abriu um balcão a céu aberto para comprar deputados. Os últimos parlamentares que têm moral para falar sobre a Venezuela são os da base do governo Temer. Quem tem moral para falar da Venezuela sou eu, que sou um homem de esquerda, que defende os valores democráticos e os direitos humanos aqui, na China, nos Estados Unidos, no Iraque, em qualquer lugar. Direito humano é direito humano.

Depois de seu posicionamento sobre a Venezuela as redes sociais bombaram de críticas da direita e da esquerda. Como o senhor vê isso?

Eu estou tão acostumado. Desde o meu primeiro mês de mandato eu sou alvo de críticas. As pessoas costumam criticar quem é honesto e quem é coerente. Eu tenho coerência. Para mim, a invasão dos Estados Unidos ao Iraque é uma violação dos direitos humanos, a partir de uma premissa falsa, que é a ideia de que o país teria armas de destruição em massa. Também considero os quase 1 milhão de encarcerados dos Estados Unidos, a maioria afrodescendentes e latinoamericanos, uma violação de direitos humanos. Considero da mesma maneira o que aconteceu em Pedrinhas, por exemplo. O meu compromisso é com esse valor, que considero um direito atávico de qualquer pessoa humana em qualquer parte do mundo. No século 21, uma esquerda de verdade tem que estar comprometida com o combate à fome, à desigualdade social, à equidade de gênero, aos direitos ambientais, aos direitos civis e às liberdades individuais. Se não for isso, não é uma esquerda do século 21.

O PT se posicionou com apoio ao regime de Maduro. O senhor acha que isso pode ser uma indicação de que o partido se posicionará mais à esquerda em 2018?

Não. Creio que é falta de avaliação mesmo. É aquela máxima de que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. A esquerda brasileira, boa parte dela ao menos, ainda é pautada por ideias anti-capitalistas, anti-americana e por uma prioridade à luta de classes. Não estou dizendo que ela não tenha que ser isto. Digamos que eu seja menos anti-capitalista do que boa parte dessa esquerda — o que não quer dizer que eu seja capitalista. Sou um socialista que acredita nas liberdades individuais, portanto não considero as experiências que aconteceram na Europa, por exemplo, como experiências socialistas. O que aconteceu na Rússia foi uma ditadura, sobretudo sob o regime de Stalin. Cuba também tem questões memoráveis e louváveis, como a erradicação da fome e acesso à saúde e educação, mas tem fatores comprometedores, como a questão da liberdade. Quando estive em Israel também fui alvo de críticas, fui quase linchado, sobretudo pela dita esquerda brasileira, que é também antissemita com a desculpa de que está tecendo críticas ao governo Netanyahu, que é um governo criticável, colonialista e que tem violado direitos na Palestina. Mas há uma distinção entre o povo judeu e o povo israelense. Se fossemos confundir povo com governo, já pensou sermos confundidos com o governo de Michel Temer?

Comentários

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  1. Pedro Evandro Montini

    Como que Exame dá espaço pra esse ser que não foi eleito pelo povo??