Jantar que desaparece ajuda Dilma a ganhar entre mais pobres

Mesmo com recessão, petista está ganhando apoio para a reeleição dizendo aos eleitores de baixa renda que as coisas podem piorar ainda mais com Marina

Rio de Janeiro – A economia do Brasil está em recessão, a inflação está acima da meta, a confiança do consumidor é a mais baixa desde 2009 – e Dilma Rousseff está ganhando apoio para a reeleição dizendo aos eleitores que as coisas podem piorar.

Em um anúncio na TV que a campanha da presidente começou a transmitir no dia 9 de setembro, uma voz grave diz que a proposta da candidata de oposição Marina Silva para um Banco Central independente daria à instituição controle sobre seus empregos e salários.

Uma família faz caretas enquanto seu jantar desaparece da mesa.

Este é apenas um exemplo da artilharia do Partido dos Trabalhadores, que reduziu a vantagem de Marina nas pesquisas de duas semanas atrás e tornou a corrida eleitoral imprevisível.

Os anúncios recordam às dezenas de milhões de eleitores tirados da pobreza pelos programas sociais que eles ainda podem voltar à condição anterior.

Se as famílias que recebem R$ 1.448 (US$ 612) ou menos concederem a Dilma o mesmo apoio que o grupo equivalente deu em 2010, ela deverá vencer a eleição, segundo Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha.

“Essa tentativa de mostrar Marina como uma ameaça às conquistas deve prevalecer até o fim da campanha para manter os eleitores fiéis, para fazer com que votem na Dilma”, disse Paulino, por telefone, de São Paulo.

“A publicidade do PT precisa convencer esse grupo de que a mudança mais segura é manter a Dilma”.

As pesquisas indicam que os anúncios ajudaram Dilma a diminuir a diferença.

Uma pesquisa com 3.010 pessoas divulgada no dia 16 de setembro pelo Ibope Inteligência mostrou Dilma três pontos porcentuais atrás de Marina em um provável segundo turno, depois de Marina ter liderado por nove pontos em uma pesquisa divulgada no dia 27 de agosto.

A pesquisa teve uma margem de erro de dois pontos porcentuais para mais ou para menos. O senador Aécio Neves está em terceiro lugar, com 19 por cento no primeiro turno.

Apoio de Dilma

O apoio de Dilma entre os que recebem R$ 1.448 ou menos subiu de 40 por cento para 47 por cento no período, enquanto o de Marina caiu de 39 por cento para 37 por cento.

Dilma tinha 56 por cento de apoio desse grupo na pesquisa final antes da eleição de 2010. Dezesseis por cento continuam indecisos, votarão em branco, anularão seu voto ou não responderam à pesquisa.

Além de argumentar que a independência plena para a autoridade monetária “daria aos banqueiros um grande poder de tomada de decisão sobre sua vida e sua família”, a campanha de Dilma tem tentado levantar dúvidas a respeito de Marina dizendo que ela não tem experiência, que cortaria os programas sociais e que poderia privatizar a Petrobras.

Crianças atordoadas

Outro anúncio diz que Marina reduziria a importância da produção de petróleo de campos no fundo do mar, o que poderia significar R$ 1,3 trilhão a menos em royalties destinados à saúde e à educação.

Crianças atordoadas em torno da mesa de uma biblioteca veem as páginas de um livro ficarem brancas enquanto o narrador diz que elas estão perdendo uma oportunidade única de desenvolvimento. “É isso que você quer para o futuro do Brasil?”, pergunta ele.

A pobreza e a infância rural de Marina são semelhantes à do antecessor e mentor de Dilma, Luiz Inácio Lula da Silva. Depois que as críticas começaram, ela invocou a declaração “a esperança venceu o medo” de Lula quando ele triunfou após sofrer ataques em 2002.

“Todos os dias há uma publicidade dizendo uma mentira, dizendo que eu farei um caminhão de coisas terríveis para os brasileiros”, disse Marina, em uma sessão de perguntas e respostas no Facebook, no dia 17 de setembro. “Eles não têm limites”.

A campanha de Marina preferiu não comentar a respeito de sua estratégia e da de Dilma.

A campanha de Dilma da semana passada conquistou Noelma Perino Pereira, 35, que limpa o chão do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, desde que se mudou da Bahia para uma favela próxima.

“Eu estava mais inclinada pela Marina, mas depois eu disse, tem que ser a Dilma”, disse Noelma, que recebe cerca de R$ 700 por mês e está grávida de seu segundo filho.

“Eu acho que ela é melhor, ela fez um serviço muito bom pelos pobres. A Marina até agora é só promessa”.