Hotelaria

Algumas cidades têm infraestrutura suficiente para o evento, mas outras precisam acertar as medidas para evitar superlotação e "elefantes brancos"

São Paulo – Enquanto preocupações com estádios e transportes tiram o sono dos responsáveis por organizar a Copa do Mundo no Brasil em 2014, especialistas de outros setores dizem estar a poucos passos da situação ideal para fazer bonito durante o torneio. Um dos exemplos é o da rede hoteleira. Ela “não será problema em 2014”, disse, ao site EXAME, o ministro do Turismo, Luiz Barretto. Opiniões à parte, os fatos apontam cidades bem resolvidas nesta área, como São Paulo e Rio de Janeiro. Em contrapartida, outros municípios oferecem dois grandes riscos que precisam ser evitados: a superlotação, e a criação de vagas que, depois do Mundial, se tornarão ociosas pela falta de demanda.

Em grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, nas contas da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), são necessários, no mínimo, 40 mil quartos em hotéis para 2014. São Paulo conta desde já com esta quantidade. Na capital fluminense, há atualmente 27 mil quartos, mas o número deve crescer nos próximos anos. “Mais de cinco mil quartos estão sendo construídos ou reformados no Rio. O reparo em grandes hotéis como o Meridien e o Glória estão na fase final, e há previsão de grandes empreendimentos na Barra da Tijuca”, afirma o presidente da ABIH, Álvaro Bezerra de Mello.

Para incentivar a expansão da rede em todo o país, o Ministério do Turismo anunciou, em fevereiro deste ano, o lançamento da “Pró Copa”. Trata-se de uma linha de financiamentos do BNDES específica para o setor. Inicialmente, estavam previstos um bilhão de reais para a construção ou a reforma de hotéis. Porém, de acordo com o ministro Luiz Barreto, as empresas receberam bem a ideia, e será necessário aumentar este valor.

“Se todos os projetos em análise ou em fase de negociação forem confirmados, já teremos 973 milhões de reais comprometidos em financiamentos. Estou conversando com o BNDES para estender a linha, e há simpatia do banco para isso”, disse Barreto. Segundo o ministro, outros 11 bilhões de reais compõem uma carteira de investimentos de grandes bandeiras de hotéis nacionais e internacionais que pretendem ampliar seus negócios por todo o país.
 


Enquanto São Paulo, Rio e outras cidades, como Salvador, que tem cerca de 30 mil quartos, estão praticamente prontas para a Copa, outras sedes ainda têm uma situação delicada. É o caso de Belo Horizonte. Os números da ABIH mostram que a capital mineira, que deveria ter uma oferta próxima da do Rio de Janeiro, está bem abaixo do ideal, com aproximadamente nove mil quartos. “Belo Horizonte é a cidade com as maiores complicações”, diz Álvaro Bezerra de Mello. Cuiabá, com 3,5 mil quartos, também precisa de mais investimentos no setor.

Os problemas em Minas Gerais serão resolvidos a tempo, segundo o ministro Luiz Barreto. Ele afirma que a prefeitura de Belo Horizonte aprovou a expansão da área permitida para a construção de hotéis para uma extensão três vezes maior que a atual. Porém, nos casos de Manaus e Cuiabá, a solução terá que ser diferente. Como não há espaço para novos hotéis nestas cidades, será preciso distribuir bem os jogos do torneio.

“Não tem cabimento Cuiabá ter a mesma disponibilidade de hotéis de São Paulo e do Rio”, diz Luiz Barretto. Ele afirma que, por isso, a cidade deverá sediar uma etapa menor da Copa. “Temos que trabalhar de olho na sustentabilidade. O Mundial não pode ser o único ingrediente para expandir ou investir em hotéis.” A mesma linha é seguida por Bezerra de Mello, da ABIH: “em todos os mundiais, deixam para as cidades grandes os jogos de Brasil, Itália, Alemanha e outras grandes seleções. Com esta organização, grande parte do problema já é resolvida.”

Outro recurso útil serão os municípios no entorno das sedes. “Temos que pensar além das 12 cidades principais. Ao todo, trabalhamos com 65 destinos”, enumera o ministro. Destes, fazem parte as cidades litorâneas e Campos do Jordão, em São Paulo; Búzios, Angra dos Reis, Petrópolis, e Parati, no Rio de Janeiro; as cidades históricas de Minas Gerais; Gramado, Canela e Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul; e Florianópolis, em Santa Catarina.
 


Elefantes Brancos

Enquanto Cuiabá é assombrada pela hipótese de superlotação, cidades como Curitiba oferecem uma ameaça no sentido oposto. A cidade opera com um número relativamente pequeno de quartos (nove mil). Apesar disso, segundo Bezerra de Mello, a rede hoteleira local usa, em média, apenas 50% de sua capacidade total ao longo do ano. Manaus, com seus 8,3 mil quartos, apresenta o mesmo problema.

Durante os 30 dias de Copa do Mundo, segundo o Ministério do Turismo, haverá um aporte de 600 mil turistas estrangeiros em território nacional. Outros cinco milhões de brasileiros também circularão pelas sedes. Temporariamente, cidades com baixa demanda no setor de hotelaria enfrentarão um forte movimento. Pensando nesta realidade, Barretto afirma que é preciso haver foco no planejamento. “Não podemos pensar só nos 30 dias de Copa, tem que haver sustentabilidade econômica”, diz.

“É preciso projetar de forma precisa, porque, do contrário, haverá elefantes brancos. Porém, acima de tudo, sou otimista. Apesar de algumas inadequações no setor, a economia brasileira está crescendo. A projeção é de que o Brasil crescerá a taxas em torno de 7%. O turismo vai crescer 12%. Se o país fizer a lição de casa, este cenário permitirá que deixemos um excelente legado pós-copa, principalmente em infraestrutura hoteleira”, conclui o ministro.

Confira a atual situação da rede hoteleira nas principais cidades brasileiras:

Município Quartos em hotéis
Rio de Janeiro* 27 mil
São Paulo* 40 mil
Florianópolis 26,2 mil
Salvador* 30 mil
Curitiba* 9 mil
Belo Horizonte* 9 mil
Recife* 12,5 mil
Belém 7 mil
Campo Grande 3,5 mil
Rio Branco 1,2 mil
Manaus* 8,3 mil
Goiânia 12,5 mil
Brasília* 11 mil
Porto Alegre* 14 mil
Fortaleza* não informado
Natal* 13,1 mil
Maceió 7 mil
Cuiabá* 3,5 mil
Fonte: ABIH | Elaboração: EXAME.com | * Cidades-sede