Henrique Meirelles: ocupar Secretaria em São Paulo não é retrocesso

Após aceitar convite para a Secretaria da Fazenda e Planejamento em SP, ex-ministro da Fazenda fala sobre desafios do novo cargo, Paulo Guedes e Bolsonaro

O ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, vai começar o ano de maneira bem diferente do que gostaria. Após concorrer para a presidência pelo MDB e receber cerca de 1,3 milhão de votos, ficando na sétima posição, ele aceitou o convite do governador de São Paulo eleito, João Dória (PSDB-SP), para ocupar uma supersecretaria da Fazenda no Estado.

Meirelles não enxerga o desafio como um retrocesso, após ocupar cargos como o ministério da Fazenda e a presidência do Banco Central. “O importante é a contribuição que uma pessoa pode fazer pelo Brasil e São Paulo pode ser um motor importante do crescimento do país”, diz ele.

Na entrevista a seguir, Meirelles fala sobre os desafios na nova função, analisa o trabalho do próximo ministro da Economia, Paulo Guedes, e diz como enxerga o futuro do governo de Jair Bolsonaro.

Como o sr. se vê saindo de uma candidatura presidencial para assumir o cargo de secretário de um Estado?

O importante é a contribuição que uma pessoa pode fazer pelo Brasil. São Paulo pode ser um motor importante de crescimento do país. O Estado perdeu o espaço na economia brasileira nos últimos anos, em função de programas específicos de outras regiões. Porém, São Paulo tem como atrair novamente parte desses investimentos. Temos uma infraestrutura logística boa e mão de obra qualificada. E ainda existem outras oportunidades, como no setor de tecnologia. As fintechs, por exemplo, estão crescendo. Há muito espaço para São Paulo se tornar um centro de desenvolvimento para esse tipo de empresa ainda maior do que já é. E o cargo tem uma função extremamente relevante, que vai juntar diversas secretarias. Isso dá condições de adicionar muito valor à função.

Mas após ocupar o cargo de ministro da Fazenda, a opção por ser secretário não poderia ser vista como um retrocesso na carreira?

Durante a campanha, eu falava que poderia não ganhar o voto dos brasileiros, mas queria ganhar o respeito. Isso aconteceu. Foi uma campanha que levou uma mensagem. Essa era a minha finalidade. Quando eu saí do BankBoston decidi retribuir ao Brasil tudo o que ele me deu, como a educação pública. Por isso, aceitei ser presidente do Banco Central, depois ministro e, agora, a secretaria no governo de São Paulo.

O senhor solicitou algum tipo de carta branca para aceitar o cargo?

Sim. Autonomia total.

Quais são os seus objetivos para o Estado, pensando em 2022? São Paulo não tem tantos problemas financeiros como o Governo Federal.

A meta é trazer desenvolvimento e ganho de salário e renda para a população. Não adianta você equilibrar o orçamento somente com cortes de gastos. Tem que fazer investimento em segurança, educação e saúde. O próprio resultado da educação em São Paulo não tem sido positivo nos últimos anos, segundo os testes de desempenho. Logo, precisamos equipar o Estado para servir a sua população com mais qualidade. Isso funciona andando em conjunto com o crescimento econômico da própria região. O estado pode crescer mais. Há espaço para ser mais relevante não só em tamanho, mas também em taxa de crescimento. Além de desenvolver e atrair novas indústrias.

O senhor pensa em fazer reformas em São Paulo?

Sim, mas ainda é muito cedo para detalhar. Estou apenas começando o trabalho.

O senhor passou pela transição de sair da iniciativa privada e já entrar em um cargo relevante na gestão pública. O próximo ministro da Economia, Paulo Guedes, está enfrentando o mesmo. Qual é a principal diferença entre ser um presidente de uma empresa e um gestor público?

As negociações são bem diferentes, até mesmo dentro da esfera pública. Um presidente do Banco Central é diferente de um ministro da Fazenda, por exemplo. O ministro tem um poder muito grande, mas que demanda muita negociação, especialmente com o Congresso. São tipos de poder diferente.

Houve algum choque de realidade ao assumir o ministério da Fazenda?

Eu estava ao lado dos ministros quando era presidente do BC. Então, tinha a perfeita noção dos trabalhos de cada um. Acompanhei todas as negociações e conversas com o Congresso. Isso me ajudou na hora de assumir o ministério no início do governo Temer. Aceitei o desafio sabendo que teria que aprovar reformas importantes, como o teto de gastos, para manter a confiança do mercado em alta.

Essa confiança é algo que o atual governo, especialmente a equipe econômica, também está recebendo do mercado. Como aproveitar e manter isso?

A retomada da confiança é um crédito que você tem na hora em que assume. Mas é necessário entregar o resultado. Vai depender das aprovações da medida. No meu caso, quando assumi, teve até um tempo maior de confiança pois o governo começou como interino. Em agosto, apresentamos a PEC do teto de gastos e logo depois aprovamos. Isso foi importantíssimo para a confiança subir e demos motivos para isso. O novo governo também terá que aprovar as suas reformas.

No caso do governo Bolsonaro, essa confiança passa pela reforma da Previdência sendo aprovada de maneira rápida?

Não há dúvida. O teto de gastos consegue se manter de pé sem a reforma por até três anos. Depois disso, não. O problema vai ficar insustentável.

Se a reforma não for aprovada em 2019, a confiança do mercado vai reduzir muito?

Dependerá muito do crescimento. Há muitos enganos quando se fala sobre a evolução da economia no ano que vem. Se deixarmos de lado a formação de expectativas da economia, estamos com um crescimento contratado. O país está crescendo. Se não fossem as eleições e a greve dos caminhoneiros, O Brasil poderia estar crescendo 3% neste ano. Mas existe o fenômeno da confiança. Caso a confiança caia, pode trazer problemas para o futuro do governo.

Qual é a sua visão sobre o novo superministério da Economia? Pode funcionar? O senhor fará algo parecido no governo de São Paulo, afinal juntou as secretarias de Planejamento e de Gestão à pasta da Fazenda.

É algo positivo, mas vai depender da competência e da vontade da equipe. O ministro depende da equipe para fazer todas as discussões com os diferentes agentes do mercado. E a equipe do Paulo Guedes está boa, com nomes competentes com quem eu trabalhei no ministério.

Na sua opinião, Paulo Guedes terá muitas dificuldades por assumir um cargo tão político quanto o de ministro da Fazenda vindo diretamente da iniciativa privada?

Ele vai ter um período de aprendizado. Vai depender do apoio da coordenação política do governo, das lideranças no Congresso e, com isso, pode funcionar. É preciso dar tempo de experiência na cadeira. É possível que ele dê certo. Mas vai depender da eficácia da equipe como um todo.

O senhor pensa em disputar cargos eletivos no futuro?

Em princípio, não trabalho olhando os meus objetivos futuros. Pensando no que eu iria fazer depois. Sempre foi assim, desde a época da iniciativa privada. As decisões são tomadas depois. Então, está em aberto.