Grande problema virá após Olimpíadas, diz pesquisador do COI

Plano para salvar reta final da Olimpíada pode ser bem-sucedido. O problema é o que virá depois, afirma Lamartine da Costa em entrevista exclusiva à EXAME.com

São Paulo – A crise financeira que atinge o Rio de Janeiro aponta para um problema ainda mais sério do que ter tudo pronto para o início da Olimpíada 2016 no próximo dia 5 de agosto. Sem dinheiro em caixa, o Rio terá condições de impedir que as instalações feitas especialmente para os Jogos virem verdadeiros elefantes brancos?

A resposta, contudo, ainda não é clara. Mas se nada for feito,  o Parque Olimpíco pode se transformar em um verdadeiro “monumento de nossa ineficiência”.

É o que afirma Lamartine da Costa, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador do Comitê Olímpico Internacional (COI), em entrevista exclusiva a EXAME.com.

Mas não são só problemas que sobrarão como legado das Olimpíadas. Na visão dele, as soluções de mobilidade instaladas na cidade  podem se tornar um bom exemplo das vantagens dos megaeventos para os locais que os abrigam.

O Rio também deve entrar para a história das Olimpíadas como a última edição dependente de um orçamento e obras megalomaníacas. A partir de 2020, a meta do COI é instalar Jogos mais baratos e que se adaptem à realidade local. “Essa história de ter grande evento para organizar a cidade, o Rio de Janeiro é o último”, diz Lamartine.

Confira trechos da entrevista que ele concedeu a EXAME.com por telefone. 

EXAME.com: Um dos principais legados de uma Olimpíada para uma cidade é a projeção de sua imagem para o mundo. Mas tudo indica que os Jogos podem virar um ótimo cartão postal de nosso problemas …

Lamartine da Costa: Realmente a imagem que vai ser transmitida para fora é essa. Mas há uma coisa que é preciso considerar: problema não é novidade, é uma constante nos Jogos Olímpicos desde seu nascedouro, quando era um período de trégua em momentos de guerra na Grécia.

A novidade agora reside apenas em um detalhe: é a primeira vez que as Olimpíadas vão transcorrer em um país em crise econômica.

O que acontece é que as cidades que se candidatam para sediar as Olimpíadas, em geral, fazem isso quando o país vai muito bem e há recursos. Foi o que aconteceu com o Brasil e com o Rio de Janeiro. Estávamos bem em 2009. O resultado foi sediar os Jogos. Mas as circunstâncias mudaram e nós entramos em um problema.

A crise afetou muito no processo de deixar tudo pronto para o evento?

Não tanto porque 60% das obras já estavam feitas quando a crise começou. O problema agora é porque ainda há o término das instalações.

Os argumentos do governo do Rio para decretar calamidade pública se sustentam?

O governo está correto em tentar uma solução. Se você não faz os Jogos Olímpicos, o prejuízo é total. Você já chegou a um nível de investimento que não dava para voltar atrás. Isso é válido também com relação aos patrocinadores e o próprio COI. Como eles vão voltar atrás? Não podem. Não tem como. Não estou aqui discutindo se é válido ou não fazer essa história aí de calamidade pública. Ter uma solução é válido. O meio que está sendo utilizado é que é discutível.

Se a Agenda Olímpica 2020 [que prevê Jogos mais sustentáveis e baratos] já estivesse em vigor, o Rio-2016 seria diferente? Como?

Logo de cara, dividiria com São Paulo. Repare que Tóquio, que é a próxima sede dos Jogos Olímpicos, é uma área metropolitana que tem 16 cidades e 42 milhões de habitantes. Em área, o Rio de Janeiro e São Paulo seriam qualquer coisa semelhante.

A Agenda 2020 está mudando o sentido das Olimpíadas. Não é racional do ponto de vista de sustentabilidade você concentrar tudo em um só lugar porque o custo aumenta muito e torna esse evento gigante. Agora, se você espalha, o custo diminui e a gestão é melhor. É o caso de Tóquio e de todos os futuros Jogos Olímpicos. Vamos ter até países olímpicos. Os países do Golfo estão pensando seriamente em serem candidatos juntos dentro de 10 ou 20 anos.

Quais os outros conceitos desse novo modelo para as futuras sedes?

Não teremos mais Jogos Olímpicos gigantes no mundo. Esse é o último. A proposta é não criar novas instalações, mas sim fazer uso das antigas. Uma das recomendações é de que as Olimpíadas se adaptem às cidades e não o contrário, como é agora.

Aquelas que quiserem se envolver com megaevento que se planejem, se aperfeiçoem e se apresentem, mas já organizadas. Essa história de ter grande evento para organizar a cidade, o Rio de Janeiro é o último. Não vai acontecer mais.

Já que não deu para adotar esse modelo sustentável antes dos Jogos, o que fazer para que todo investimento gasto seja revertido para a população? Como evitar que as obras das Olimpíadas virem elefantes brancos?

Esse é o grande problema. A festa vai ser muito boa. Mas lá para o dia 18 de setembro, depois que acaba, é que nós vamos cair na real. Temos um problema como os Jogos Olímpicos e teremos outro grande problema depois.

Daqueles equipamentos do Parque Olímpico, tem um ou outro que está preparado para uma adaptação para outros propósitos, mas a maioria não. Não há como se sustentar isso. Ou derruba tudo – e não é nenhum absurdo porque Londres fez o mesmo com algumas instalações – ou faz algumas adaptações que têm custos adicionais.

Não é uma solução fácil. Senão aquilo vai ficar como um monumento à nossa ineficiência.

Há sempre a comparação com Barcelona, na Espanha, que sediou os Jogos de 1992. Como repetir o sucesso do legado de lá aqui?

As construções de Barcelona não foram tão grandes como as daqui. Lá, a preferência foi a mudança da cidade. 

Em termos de mobilidade urbana, a grande demonstração de bons efeitos em megaeventos será o Rio de Janeiro. Isso não será um problema depois de 19 de setembro. Ao contrário, é uma solução. O Rio de Janeiro tem coisas muito boas, que vão servir de exemplo, e coisas ruins, que vão ficar pesando na nossa culpa durante muito tempo.

Qual será o saldo?

Do ponto de vista acadêmico, conclui-se que o saldo positivo sempre ganha. É inestimável o impacto do Rio de Janeiro ter se renovado. A cidade não se mexia há 30 anos. De repente, tudo muda. Isso é um impacto intangível. 

Foi o que aconteceu com Barcelona. O impacto na cidade espanhola não está ligado aos investimentos que eles fizeram e sim no que veio depois como imagem. Barcelona era o 12º principal destino de turistas da Europa, hoje é a terceira.

Voltando à primeira questão: esses problemas internos colocam em risco esse potencial de projeção para o município?

Alguma coisa negativa fica. Um país que está com doenças como a zika, um país que tem problemas políticos como os nossos, um país que está em crise financeira, realmente, afasta muitos turistas. Deve ter algum impacto negativo para diminuir os benefícios do megaevento. Em que proporções eu não sei dizer.