Governo Bolsonaro não pensa em medidas autoritárias, diz Heleno na Câmara

Ministro do GSI chamou golpe de 1964 de "contrarrevolução"; sobre fala do AI-5 de Eduardo, disse que não iria repudiar "porque ele já repudiou"

O ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência general Augusto Heleno, afirmou nesta quarta-feira, 6, que o governo do presidente Jair Bolsonaro não tem qualquer tipo de intenção de adotar medidas autoritárias ou que tenham relação com uma ditadura.

“Essas angústias quanto a regime ditatorial, autoritarismo, exorbitâncias em termos de condução do governo brasileiro posso garantir que, em relação ao militares das três forças, à minha geração e as que me sucederam, as nossas gerações estão completamente vacinadas contra qualquer sintoma de ditadura ou essas coisas que ficam assustando as pessoas e muitas vezes é bandeira para quem não tem o que inventar”, disse logo ao iniciar sua primeira fala em uma audiência pública na Câmara dos Deputados.

“Não passa na cabeça do governo Jair Bolsonaro qualquer possibilidade de se adotar medidas que possam encaminhar de maneira mais longínqua possível, mas isso não está na cabeça do governo e de nenhum dos integrantes do governo e das Forças Armadas. Não temos vocação para esse tipo de atitude”, completou.

Heleno participa como convidado de audiência pública realizada pela comissão de Integração Nacional, Desenvolvimento Regional e da Amazônia sobre o monitoramento dos movimentos sociais, em especial dos povos indígenas. O convite já havia sido feito ao ministro antes das declarações que ele deu na semana passada ao jornal O Estado de S. Paulo em defesa do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que sugeriu a necessidade de “um novo AI-5” para conter uma possível “radicalização” da esquerda no País.

“Em nenhum momento eu falei a favor do AI-5 ou que ele poderia ser utilizado. Já afirmei em outras ocasiões que o AI-5 foi editado em uma conjuntura completamente diferente da atual”, disse. O ministro ressaltou que a Constituição de 1988 possui instrumentos que asseguram a ordem e a estabilidade social para momentos de crise.

 

Bate boca

O general bateu boca com a deputada Sâmia Bonfim (PSOL-SP) durante a audiência pública na Câmara. Ele afirmou que a ditadura militar brasileira foi uma contrarrevolução que evitou que o País virasse uma “grande Cuba” e que a anistia “levou uma terrorista à Presidência da República”.

“Há duas visões da História do Brasil. Para mim, não foi golpe, foi contrarrevolução. Se não houvesse contrarrevolução, hoje seríamos Cuba. A sua posição é a posição que a esquerda adotou. Essa radicalização política não interessa a ninguém”, disse ao responder à deputada. Sâmia também insistiu para que o ministro se posicionasse claramente contra as declarações feitas por Eduardo Bolsonaro.

Na comissão, Sâmia lembrou os casos de tortura na ditadura e disse que Heleno, ao não condenar veementemente a ideia de um novo AI-5, “flerta com a possibilidade” de algo semelhante ser feito novamente.

“O senhor até agora não teve a oportunidade de repudiar a declaração [de Eduardo Bolsonaro]”, disse. “Eu não vou repudiar, porque ele já repudiou. Ele disse que falou uma coisa que não é o que ele pensa. Não vou falar mais nada”, disse. Diante da insistência da deputada, Heleno retrucou: “A senhora vai me torturar porque eu não quero falar?”

O ministro afirmou ainda que a anistia realizada após a ditadura militar “levou uma terrorista à Presidência da República e a vários cargos importantíssimos da República. Isso é questão de visão, de lado”, disse fazendo referência à ex-presidente Dilma Rousseff, que foi presa e torturada durante a ditadura militar. Ela integrou a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), que deu origem

Convocação

Por causa de suas declarações, a oposição chegou a protocolar cinco pedidos de convocação do ministro, mas eles ainda não foram analisados. Na entrevista, Heleno também comparou a dificuldade para emplacar uma regra como o AI-5 ao ritmo lento que tramita no Congresso o pacote anticrime de Sergio Moro. Em resposta, Maia tachou Heleno de “auxiliar do radicalismo de Olavo”, numa referência ao “guru” do bolsonarismo Olavo de Carvalho.

Em conversas reservadas ontem, Maia afirmou que a convocação de Heleno serviria como um recado ao governo e aos filhos do presidente Jair Bolsonaro de que o Parlamento não ignorar os ataques. Na última semana, Bolsonaro postou um vídeo no qual partidos aparecem como hienas.

Em relação a Olavo, Heleno repetiu o que havia afirmado em entrevista ao Estado publicada hoje de que não é “capaz de identificar” o escritor. “É uma referência que não faz o menor sentido”, disse.

Durante a audiência, o deputado Ivan Valente (Psol-SP) disse ao ministro que as suas declarações sobre AI-5 demonstravam apoio ao expediente que foi usado no momento mais duro da ditadura militar. Valente disse também que, embora Heleno tenha dito não ter concordado com a ideia, o presidente Jair Bolsonaro “declara diuturnamente que não teve ditadura no Brasil”. Isso deixa qualquer pessoa dizendo que Bolsonaro não tem afeição pela democracia”, afirmou.

Heleno também disse que o governo Bolsonaro “defende a legalidade e o respeito às instituições”. “Qualquer crise tem que ser resolvida somente com instrumentos constitucionais”, afirmou.