Governo julgava desnecessária atuação do Exército em praias, diz ministro

Manchas de óleo já atingiram cerca de 200 praias nordestinas, de acordo com dados do Ibama

O governo do presidente Jair Bolsonaro não considerava necessária a entrada de homens do Exército nos trabalhos de limpeza das praias do Nordeste atingidas por manchas de petróleo, até que o produto começou a aparecer em maior quantidade e em mais localidades, disse o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, nesta terça-feira.

Em coletiva de imprensa ao lado do governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), em Recife, o ministro disse que a Marinha vinha atuando desde o início da tragédia ambiental, mas que o governo só entendeu necessário empregar o Exército quando as manchas se tornaram maiores.

“Nós não julgávamos ser necessário empregar o Exército. Quando precisou, nós empregamos o Exército. Quando as manchas saíram de Salvador, recrudesceu, chegaram em Pernambuco nesses dias, aí sim”, disse Azevedo e Silva, que discordou da avaliação de que o governo federal demorou a responder à catástrofe.

“Desde o início de setembro a Marinha está debruçada nisso com o efetivo possível, com os navios possíveis, com a parte técnica possível fazendo uma investigação em relação a isso, atuando em relação a isso”, disse ele.

Em seguida, destacou o ministro, foi lançado o Plano Nacional de Contingência, “que está sendo seguido”.

“É lógico que no início de setembro, o aparecimento das manchas era pequeno, mas no início de outubro elas aumentaram, e providências estão sendo tomadas”, afirmou.

As manchas de óleo já atingiram cerca de 200 praias nordestinas, de acordo com dados do Ibama.

Esses resíduos estão sendo armazenadas e podem ter como destinação fabricantes de cimento que podem reutilizar esse material.

O emprego de entre 4 mil a 5 mil homens da 10ª Brigada de Infantaria Motorizada nos trabalhos de limpeza foi anunciado na véspera pelo presidente em exercício Hamilton Mourão.

Bolsonaro está em viagem ao Japão, onde participou nesta terça da entronização do novo imperador do país Naruhito.

O ministro da Defesa garantiu que Bolsonaro tem acompanhado os trabalhos de limpeza, assim como os esforços de investigação, que ainda não foram capazes de determinar a origem do petróleo que tem aparecido nas praias nordestinas.

“A autorização de empregar o Exército se possível fosse, se fosse necessário, foi dele (Bolsonaro), ratificada pelo presidente (em exercício) Mourão ontem. Então ele tem acompanhado, tem me passado mensagens sempre. Ele acompanha, me perguntou se o Exército já estava sendo empregado hoje. Hoje cinco da manhã significa cinco da tarde lá (no Japão)”, disse o ministro.

Navio irregular

O comandante da Marinha, Ilques Barbosa, disse hoje (22) que o governo está concentrando as investigações sobre as causas da mancha de óleo nas praias do Nordeste em 30 navios de dez países diferentes. Mas, para ele, a maior probabilidade é que o vazamento partiu de um navio irregular, chamado de dark ship. “Nós saímos de mil navios, para 30 navios”, disse, após reunião com o presidente em exercício, Hamilton Mourão, no Palácio do Planalto.

O almirante explicou, entretanto, que as pesquisas se regeneram com novos dados a todo momento e que nenhuma possibilidade foi descartada, mas que os esforços estão concentrados nessa linha de investigação. “O mais provável é de um dark ship ou um navio que teve um incidente e, infelizmente, não progrediu a informação como deveria”, disse, explicando que, por convenção internacional, todo incidente de navegação deve ser informado pelo comandante responsável.

De acordo com Barbosa, empresas e instituições estrangeiras e 11 autoridades marítimas estão apoiando o Brasil nas investigações. “É um tema que envolve agressão à nossa pátria e como é da nossa tradição, nós vamos encontrar”, disse. “Não posso assegurar se é breve ou longa [o tempo de investigação, mas vamos continuar até onde necessário”, ressaltou.

Um dark ship é um navio que tem seus dados informados às autoridades, mas, em função de qualquer restrição, de embargo que acontece, ele tem uma carga que não pode ser comercializada. Então, segundo o comandante, ele busca vias de comunicação marítimas que não são tão frequentadas, procura se evadir das marinhas de guerra e não alimenta seus sistemas de identificação. “Ele procura as sombras. E essa navegação às sombras produz essa dificuldade de detecção”, explicou.

A quantidade de óleo que já chegou à costa brasileira é muito menor, de acordo com Ilques, do que a capacidade dos navios investigados, em torno de 300 mil toneladas. Até esta segunda-feira (21), foram recolhidas 900 toneladas de resíduos de óleo cru nas praias do Nordeste.

Para Ilques Barbosa, também é muito pouco provável que o vazamento tenha acontecido em uma transferência de óleo em alto mar. “A transferência é uma atividade marinheira de extremo risco. Isso, fazer em mar aberto, onde o mar pode estar em situação adversa, ou pode ficar em situação adversa ao longo do trabalho, não é uma atividade que os armadores, proprietários de navios, recomendariam. Não seria uma atitude de comandante responsável, muito menos dos armadores”, explicou.

O almirante reforçou que o petróleo encontrado nas praias no Nordeste não tem origem nas bacias brasileiras e que não houve incidente nas plataformas, terminais ou navios da Petrobras. “O que se sabe pelos cientistas, é que o petróleo é de origem venezuelana. Não quer dizer, que houve em algum momento, e não houve isso, envolvimento de qualquer setor responsável, tanto privado quanto público, da Venezuela nesse assunto”, disse.

O trabalho de investigação da Marinha conta também com o apoio da Polícia Federal. Além disso, outros órgão estão atuando na limpeza das praias, como as equipes do Ministério do Meio Ambiente e das Forças Armadas, além de secretarias estaduais e municipais e voluntários.