Geddel: sem papas na língua

Thiago Lavado

Já passava da 1h da manhã de um dia qualquer de maio quando tocou o telefone do então deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ). Quem ligava era o ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) retirando um convite para que Maia fosse o líder do governo na Câmara dos deputados. O convite havia surgido primeiramente como parte das pressões que o Centrão havia feito após o impeachment de Dilma Rousseff. Por articulações internas do PMDB, Maia havia virado carta fora do baralho (mais tarde, assumiu a presidência da Câmara). Avisá-lo no meio da madrugada era o tipo de trabalho sujo que Geddel desempenhava com gosto. E que revela sua importância para o governo.

Amigo do presidente Michel Temer há mais 30 anos, ele pediu demissão na manhã desta sexta-feira com uma carta de demissão sofrida – como costumam ser as cartas de demissão. “Avolumaram-se as críticas sobre mim. Em Salvador, vejo o sofrimento dos meus familiares. Quem me conhece sabe ser esse o limite da dor que suporto. É hora de sair”.

É um final surpreendente para uma crise que começou há exatamente uma semana, mas que ganhou contornos de thriller de ação nas últimas 24 horas. Caso fosse qualquer outro político, Geddel teria sido demitido pelo presidente Michel Temer há dias. As acusações contra ele são de utilizar o cargo para fazer pressão pela liberação de um empreendimento vetado pelo Iphan, o Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em Salvador. Geddel foi acusado pelo ex-ministro da Cultura Marcelo Calero, e admitiu que o procurou para falar sobre a obra. Com a revelação de que as conversas foram gravadas, e que Temer também estava implicado, a situação ficou insustentável.

Baiano, Geddel fez carreira política no estado ao lado do irmão, Lúcio Vieira Lima, atual deputado federal pelo PMDB. Ambos foram inspirados a entrar na política pelo pai, o ex-deputado Afrísio Vieira Lima, que morreu em janeiro deste ano. Na Bahia, a família era aliada do ex-governador e ex-senador Antônio Carlos Magalhães. Geddel foi muito próximo do filho de ACM, Luís Eduardo Magalhães, morto em 1998.

Com o pai deputado, Geddel cresceu e estudou em Brasília, no Colégio Marista, um dos mais tradicionais da cidade. Lá, foi colega do falecido cantor e compositor Renato Russo, seu desafeto. Segundo Russo, Geddel “era insuportável”. Aos 31 anos, voltou à Bahia. Elegeu-se deputado federal pelo PMDB em 1990 — posto que ocupou por 5 mandatos consecutivos até 2011. É dessa data que vem sua aliança com o atual presidente. Em 1995, Geddel atuou na campanha de Temer para a presidência do partido.

Em 2007, Geddel rompeu com o “carlismo”, movimento dos partidários de ACM na Bahia. À época, se aproximou do PT, quando se tornou ministro da Integração Nacional do segundo governo Lula. Enquanto na pasta, foi acusado de destinar a maior parte dos recursos para seu estado natal. Não foi a última vez que Geddel mudou de lado. Mais recentemente, foi acusado pela senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) em entrevista à VEJA de ter ido para debaixo da saia de Aécio Neves (PSDB-MG) quando da segunda eleição de Dilma Rousseff. De fato, seu último cargo de indicação no governo petista foi a vice-presidência de pessoa jurídica da Caixa Econômica Federal, de onde foi demitido, após publicar em uma rede social uma mensagem em que pedia que Dilma publicasse sua exoneração do cargo de presidente.

Em 2010, Geddel foi derrotado por Jacques Wagner para o governo da Bahia. Em 2014, perdeu a disputa ao Senado numa campanha em que ficou famoso pelo bordão DilMel – Dilma e Geddel. O tempo passa rápido…

Da Parati à Cherokee  

Esta semana, Geddel chorou em sua defesa a deputados. Também não é fato inédito: em 1994 quando se envolveu no escândalo dos Anões do Orçamento, Geddel chorou copiosamente na CPI. O esquema dos Anões do Orçamento foi um dos primeiros grandes escândalos do Brasil redemocratizado, quando cerca de 37 parlamentares foram acusados de desviar mais de 100 milhões de reais dos cofres públicos, com esquemas de propina, para favorecer governadores, ministros, senadores e deputados. Foram chamados “anões” porque a maioria dos deputados envolvidos era de pouca relevância (e estatura) no cenário político brasileiro.

Desde o escândalo, Geddel cresceu em relevância política, e em patrimônio. Uma reportagem da Folha de S. Paulo de 1994 que ele era dono de 120 hectares na Bahia, de uma Parati 1989 e de um título do Iate Clube da Bahia. Vinte anos depois, quando disputou sua última eleição, declarou à justiça eleitoral um patrimônio de 5,9 milhões de reais, divididos em 12 propriedades rurais pela Bahia, além de uma Pajero e uma Grand Cherokee. Se o apartamento comprado na planta, que é o pivô do atual escândalo, for somado, o patrimônio já chega a 8,5 milhões de reais.

Se as propriedades forem atualizadas para valores de mercado atuais, a conta sobe (bem) mais. Sem falar nos rendimentos acima do teto constitucional: o baiano recebia salário de 33.763 reais como ministro e 20.354 como deputado aposentado. Enquanto o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, se dispôs a devolver os vencimento acima do teto, na semana passada, Geddel falou que seu rendimento tem amparo legal, e que não abriria mão dele.

O baiano é conhecido pelo temperamento explosivo e poucas papas na língua. Por conta disso, coleciona inimigos. ACM o chamava de “proxeneta” nos anos 90. O ex-presidente Itamar Franco o chamou de “Percevejo de Gabinete” em 2002. O empresário Lúcio Funaro, em interceptação feita pela Lava-Jato, disse que Geddel tinha uma “boca de jacaré” para receber propina e era um “carneirinho” para trabalhar..

Mais recentemente, aqueles que tentaram discutir com ele na rede social Twitter viram de perto o jeitão Geddel de ser: não foram poucas as vezes em que ele recorreu à mãe do interlocutor como resposta. Até quando o ator José de Abreu o provocou dizendo que iria para a cadeia, a resposta do ex-ministro foi “só se for para visitar a sua mãe”.

Com a carta de demissão entregue nesta sexta-feira, o governo perde um de seus principais articuladores, e o ex-ministro perde o foro privilegiado – pode ser investigado pela Procuradoria-Geral da República. A internet já havia perdido seus bons modos há algumas semanas, quando Geddel fechou sua conta no Twitter.

Quem será o próximo?

Geddel é o sexto ministro do governo Temer a deixar o cargo num intervalo de seis meses. O primeiro foi Romero Jucá, ex-ministro do Planejamento e um dos principais articuladores do impeachment de Dilma Rousseff no Congresso, que caiu em maio. Jucá apareceu nas conversas gravadas por Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, pedindo um “pacto” para “estancar”a Lava-Jato.

Uma semana depois, Fabiano Silveira, ex-ministro da Transparência, caiu ao também ser gravado por Machado sugerindo estratégias de defesa ao presidente do Senado, Renan Calheiros, na Lava-Jato. Em junho, Machado fez a terceira vítima: Henrique Alves pediu demissão do ministério do Turismo ao ser citado como beneficiário de propina. Em setembro, Fábio Medina Osório foi demitido da advocacia-geral da União e acusou o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, de lhe passar orientações para ficar fora da Lava-Jato. Depois, foi a vez de Marcelo Calero pedir demissão da Cultura.

Quem será o próximo? Candidatos não faltam. O titular da Justiça, Alexandre de Moraes, já esteve diversas vezes na berlinda porque o Planalto discorda de sua forma de gestão centralizadora e por polêmicas como a operação Métis da Polícia Federal, que prendeu policias legislativos. Eliseu Padilha, da Casa Civil, é alvto de uma ação de improbidade por ter mantido uma funcionária fantasma em seu gabinete quando era deputado federado.

Contra o ministro da Educação, Mendonça Filho, há um pedido de investigação em aberto nas mãos do Supremo – ele é suspeito de ter recebido da empreiteira UTC 100.000 reais provenientes de propina. Sarney Filho, do Meio Ambiente, foi relacionado em uma planilha de doações feita também por Sérgio Machado. José Serra, das Relações Exteriores, foi citado nas negociações da empreiteira OAS como receptor de doações ilegais.

Além deles, um grupo de ministros apareceu numa lista de doações da Odebrecht divulgada em fevereiro: Bruno Araújo, das Cidades; Raul Jungman, da Defesa; Osmar Terra, do Desenvolvimento Social e Agrário; Ricardo Barros, da Saúde, além do secretário do Programa de Parcerias de Investimentos, Moreira Franco. Ainda não se sabe quem deles recebeu doações legais ou ilegais. A lista de suspeitos (e de problemas para o governo) pode crescer com a confirmação do acordo de delação da empreiteira, que deve ser finalizado semana que vem e envolver mais de 130 políticos do governo e da oposição.