Freixo (PSOL): estou confiante no 2º turno

Camila Almeida

O historiador Marcelo Freixo (PSOL), conhecido por sua atuação na defesa dos direitos humanos e por ter presidido a CPI das Milícias no Rio de Janeiro, foi, em 2014, o deputado estadual mais votado do Brasil. Em 2012, foi o segundo candidato a prefeito mais votado na cidade, com 914.000 votos, 28% do eleitorado. Quatro anos depois, tenta novamente disputar a prefeitura. Aparece em segundo lugar, em empate técnico com outros quatro candidatos, reunindo 10% das intenções de voto. O líder é Marcelo Crivella (PRB), com 31%. Em entrevista a EXAME Hoje, Freixo falou sobre educação, a nova legislação de financiamento de campanhas e o legado das Olimpíadas.

O senhor tem dito que educação é sua prioridade. Qual a maior necessidade do Rio de Janeiro nesse setor?
Não há nenhuma cidade no mundo que desconsidere a educação como prioridade para que se alcance uma outra perspectiva de desenvolvimento. Temos desde o problema da creche, com 40.000 vagas a menos, até um problema muito grave que é a distorção série-idade, quando um aluno fica com mais idade do que a média de alunos daquela turma. Do 1º ao 5º ano, é de 13% essa distorção. Mas, na faixa do 6º ao 9º ano, 33% dos alunos estão em distorção. É aí que a gente perde o nosso jovem, é aí que a escola deixa de ser representativa para esse jovem. A gente precisa fazer uma mudança pedagógica muito profunda no Rio. Isso passa por um plano de cargos e salários para professores e funcionários, e passa por mais autonomia pedagógica, com os professores podendo, a partir dos interesses do seu território, montar uma escola que faça mais sentido para o seu aluno e para o contexto social em que ele está inserido.

No contexto nacional, há uma discussão muito grande em relação ao projeto da Escola sem Partido. Por que o senhor acredita que a autonomia do professor é importante?
Ninguém propõe uma escola com partido, mas uma escola com pensamento crítico, com possibilidade de o aluno refletir e ter acesso a diferentes opiniões. Essa é uma das propostas mais absurdas que eu já vi, e políticas de controle à escola foram muito comuns em países totalitários. Esse projeto prevê a criminalização de educadores. É uma aberração. Vou te dar um exemplo muito concreto. Aqui no Rio de Janeiro, a escola que teve a melhor nota no Ideb foi a Escola Municipal Friedenreich, ao lado do Maracanãzinho. Essa escola foi ameaçada de demolição [no final de 2012, foi anunciado que a escola daria lugar a um estacionamento, como parte do pacote de obras para a Copa do Mundo. Após intensa mobilização dos estudantes e da comunidade, o governador Sérgio Cabral desistiu da demolição, em agosto de 2013]. Em função dessa ameaça, a escola se envolveu muito. Professores, pais, alunos e funcionários acabaram se aproximando e debatendo qual deve ser o papel da escola. Quanto mais a escola se humaniza e participa da realidade social, melhor o rendimento do aluno.

É consenso no Rio que o projeto de Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) está em colapso e precisa ser revisto. Qual deve ser o papel da gestão municipal na segurança pública?
Esse processo de falência da UPP vem trazendo, progressivamente, uma violência crescente por causa de disputa de território entre facções ou mesmo pelo conflito entre o tráfico e a polícia. O poder municipal é fundamental. O poder municipal tem uma capacidade grande de monitoramento e de um funcionalismo público muito atuante. É importante que a prefeitura, em parceria com o Instituto de Segurança Pública, faça o mapeamento da violência e crie sua própria inteligência, a partir de uma leitura personalizada dos bairros. A partir daí, é possível atuar em prevenção. Uma parcela muito grande dos homicídios acontecem por motivos fúteis, por conflitos banais. É preciso saber como essa criminalidade começa para pensar no que tem faltado. Em um bairro, pode ser necessária uma presença maior da polícia militar, no outro, a construção de uma praça pública onde as pessoas possam circular mais. É preciso fazer uma leitura mais inteligente do que torna o Rio uma cidade insegura.

As Olimpíadas e as Paralimpíadas foram um sucesso como evento. O que deve ser feito para aproveitar mais esse potencial que foi construído?
Eu acho que foi uma grande oportunidade perdida para o Rio de Janeiro. Que a Olimpíada ia acontecer bem, ninguém duvidava. Como aconteceu a Copa do Mundo, a Eco 92, a vinda do Papa… o Rio nunca teve problema na organização dos megaeventos. O problema é o quanto se gasta e o que fica. Esse é o grande debate desde os Jogos Panamericanos. Metade das nossas escolas não têm quadra poliesportiva. O metrô e o BRT não estão integrados em termos tarifários. Não temos moradia no centro da cidade, na zona portuária, como previsto no Estatuto da Cidade. Áreas que foram bastante exploradas não ganharam muito para o depois das Olimpíadas.

O PSOL ainda é muito inexperiente no poder executivo. Essa inexperiência atrapalha? Qual a estratégia para conseguir conquistar cargos no executivo?
Entre não ter experiência e ter a experiência do PMDB na prefeitura, eu prefiro não ter. Tanto no Rio de Janeiro quanto nas outras cidades. O PSOL é um partido muito recente e que tem crescido muito, especialmente no Rio de Janeiro. Nós já temos a segunda maior bancada de vereadores, uma boa bancada de deputados estaduais. O PSOL no Rio de Janeiro é maior que o PSDB. É um partido que vem crescendo bastante e de forma consistente, programática. Hoje, o PSOL tem chance de ganhar a prefeitura do Rio de Janeiro, de Porto Alegre, Cuiabá, Belém, Sorocaba, Friburgo… cidades importantes. Sinal de que está crescendo dentro de um processo planejado e coerente com o que prega. Acho que crescer assim é melhor do que crescer de forma desordenada, fora do seu próprio tempo, e depois não conseguir governar.

Como seria sua governabilidade num cenário em que o partido ainda tem pouco apoio na Câmara?
Eu acho que essa governabilidade a qualquer preço carrega um gosto amargo. Essa é a lógica que nos deu o presidente Michel Temer – não acho que isso nos traz boas recordações. Eu acho que a lógica de governabilidade precisa apresentar uma nova realidade política. Eu vou poder montar um secretariado que vai ser o melhor que o Rio de Janeiro já teve, porque eu não preciso barganhar cargos com partidos que me apoiaram. Eu posso convidar os melhores nomes. Isso é um avanço para a política muito grande. Além disso, eu vou ter um diálogo republicano com todos os partidos. Queremos criar um gabinete virtual onde a gente possa se comunicar com os moradores dos bairros através de aplicativo de celular, buscando opinião, informando sobre as coisas que estão acontecendo, fazendo com que os conselhos presenciais aconteçam nos bairros. Isso ajuda a mudar a relação com a Câmara de Vereadores.

Seus eleitores criticaram muito o fato de, na sua campanha de 2012, um dos financiadores ter sido a Victor Hugo Demolições, que atuou na remoção da Vila Autódromo [antes na região do Parque Olímpico]. O que justifica a associação com essa empresa?  E como vocês estão construindo a campanha este ano em que, pela primeira vez, é proibido o financiamento privado?
Primeiro, é importante colocar todos os fatos no seu tempo certo. A doação da Victor Hugo Demolidora foi em 2012, quando ainda não existia demolição de Vila Autódromo. Ninguém tem bola de cristal. Eles doaram a um vereador do PSOL e, através dele, chegaram a mim e doaram, e também a uma vereadora da Baixada Fluminense. A mais ninguém. Não houve qualquer interferência deles em qualquer procedimento meu. O que tem é a minha atuação frente à Vila Autódromo, minhas votações, meus pronunciamentos. Em 2014, quando ainda não existia lei sobre financiamento de empresas, nós fizemos uma campanha sem nenhuma doação de empresa no Rio de Janeiro. Só o PSOL fez isso. Foi quando eu fui eleito o deputado mais votado do Brasil. 

Mas como vocês estão fazendo para angariar fundos? Muitos candidatos têm sentido dificuldades.
Nós fizemos uma arrecadação coletiva. Criamos uma plataforma para as pessoas doarem pela internet. São mais de 5.000 doadores – é o maior número de doadores em uma campanha na história do Brasil. Mais do que a Dilma teve para a presidência da República. Isso nos deixa muito felizes. É uma média de quase 600.000 reais arrecadados pela internet, numa média de 86 reais por doador. É uma campanha muito participativa, que envolve vários setores da sociedade.

O senhor se pronunciou contra o impeachment e contra a forma como foi feita a denúncia contra o ex-presidente Lula, pelo MPF. No Rio de Janeiro, Dilma e Lula declararam apoio a Jandira Feghali (PCdoB). A falta de apoio nacional de partidos de esquerda tem feito falta?
Não. Na verdade, o meu posicionamento em relação ao que aconteceu com Lula é apenas uma questão de coerência de quem acompanha o debate, todo o processo da justiça criminal, e é contra a seletividade. Não me pronunciei para ter o apoio de ninguém, não terei e não estou preocupado com isso. Nosso pensamento em relação ao PT é bastante diferente e por isso não estamos juntos, inclusive. Não participamos do governo Eduardo Paes, em nenhum momento cogitamos apoiar o Pedro Paulo, então, temos diferenças muito grandes. Meu posicionamento em relação ao golpe não é uma defesa ao governo, à Dilma ou Lula, mas uma defesa à democracia. Eu tenho uma aliança com o PCB, com o Levante Popular, com a Brigada Popular, com o Movimento Sem Teto, com o Movimento Sem Terra. Uma ampla aliança com movimentos de esquerda do Rio de Janeiro, que está nas ruas e nas redes. Não à toa estamos em segundo nas pesquisas.

O senhor já afirmou que vai rever as isenções de impostos às empresas de ônibus. Como vai ser a sua relação com o setor privado?
A gente que ser relacionar bem com a iniciativa privada. O problema da relação do público com o privado é quando não tem transparência e quando não tem fundamentalmente o interesse público muito claro. Eu pretendo ter uma conversa muito profunda e ampla com os donos de bares e restaurantes, que representam o setor da economia que mais emprega jovens no Rio. Quero estimular a criação de polos gastronômicas onde a gente mais precisa empregar mão-de-obra jovem. Essa é uma parceria que me interessa. Eu não posso é fazer uma parceria onde só o interesse privado se beneficia.

O senhor declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio de 5.000 reais, que tem sido questionado. Por que seu patrimônio não cresceu?
Primeiro, eu não sou ladrão. Segundo, não foi uma prioridade nas minhas finanças. Para deixar mais contundente, meu salário é de 15.800 reais líquido, um excelente salário, bem maior do que o da maioria das pessoas do Rio de Janeiro. Eu moro no bairro da Glória, pago cerca de 3.000 de aluguel, condomínio, tenho um filho numa universidade privada, tenho pai e mãe que são funcionários públicos aposentados, pago o aluguel e cuido da saúde deles. Eu acho que isso deveria ser prioridade para mim. Melhor do que ter carro, bicicleta, moto, tênis, sei lá o que se acha que é importante na vida, mas enfim, eu acho que é importante cuidar deles e não me preocupo em gastar com outras coisas. Esses gastos comprometem uma parte considerável do meu orçamento, mas vivo muito bem e feliz, diga-se de passagem.

Confiante de que vai para o segundo turno?
Bastante. Falta um pouco mais de 10 dias e, até agora, mesmo tendo apenas 11 segundo de televisão, duas inserções, e o Pedro Paulo com 30, de três minutos cada. É muito desigual e cruel e, mesmo assim, a gente está na disputa, com uma campanha lícita, em todos os territórios e com muita gente envolvida.