Freixo: Cunha deixou de ser útil

Marcelo Freixo é um dos deputados estaduais com maior projeção nacional. Dissidente do PT, hoje é um crítico contumaz da forma de fazer política do partido e de seus aliados – como foi até pouco tempo o PMDB. Desde 2006 no PSOL, conquistou 28% dos votos para a prefeitura, em 2012, e foi o deputado mais votado no estado do Rio, em 2014. Agora, mira novamente as eleições municipais, em outubro. A EXAME, ele condenou a política de alianças erradas que o PT promoveu e a permissividade do poder público na relação com as empreiteiras. Sobre a decisão do STF de afastar Eduardo Cunha do mandato na Câmara, foi taxativo: “espero que seja réu até o fim e a sociedade se sinta um pouco mais segura em relação aos políticos”.

Como o senhor enxerga a decisão de Teori Zavascki de afastar o deputado Eduardo Cunha da presidência da Câmara?
A sensação é a mesma do conjunto da sociedade: demorou muito. Imaginar um réu com acusações desse peso seguir comandando a Câmara faz pensar que isso só aconteceu porque ele era útil. Agora, deixou de ser útil. Espero que seu afastamento não iniba as outras investigações que se tem que fazer para que possa responder a tudo que fez. O Eduardo Cunha é o mesmo desde os tempos do Collor. Tinha relações com o PC Farias, na antiga Telerj. Passou por todos os governos com as mesmas práticas e as usou não só para se eleger como para eleger aliados para trabalhar no Parlamento dessa forma aviltante à democracia. Espero que seja réu até o fim e a sociedade se sinta um pouco mais segura em relação aos políticos.

Como a decisão de afastá-lo da presidência da Câmara afeta o quadro geral da política nacional?
Se dependermos desse tipo de gente para fazer política no Congresso Nacional, estamos muito mal. Agora, o governo do Michel Temer não tem qualquer legitimidade. É um governo feito em golpe. Se alguém, em algum momento, acreditou que esse governo fosse para combater algum modelo de corrupção está evidente que não é isso. Há pessoas investigadas na Lava-Jato com indicação para ser próximos ministros. Há uma ação grande entre esses aliados: a ressurreição de Roberto Jefferson e de Paulinho da Força, além de ministros que eram do governo anterior, investigados na Lava-Jato. Seu plano, a “Ponte para o Futuro”, prevê coisas muitos graves, como a revisão das demarcações de terras indígenas para beneficiar o latifúndio e a não-garantia do mínimo constitucional para educação e saúde.

Qual o papel do PSOL nesse contexto político?
O PSOL tem uma posição clara. Nossa bancada é pequena, com cinco deputados, e fomos categoricamente contrários ao impeachment. Mantivemos a coerência na defesa da democracia. Agora, continuaremos questionando o governo Temer, que não é legítimo. Ele não tem condições de exercer a presidência da República. Não só por um programa absolutamente retrógrado, mas porque não foi eleito para isso e a denúncia que paira sobre Dilma também foi cometida por ele. Se houver a decisão pelo impeachment no Senado, sem dúvida, o mais correto seria um processo de novas eleições.

O PSOL cresceu 24% no número de filiados no último ano. Qual o planejamento para as eleições municipais deste ano?
O PSOL vem crescendo a cada eleição. Exatamente porque não vem repetindo determinados erros muito comuns na nossa política de alianças em troca de cargos e de tempo de televisão (no horário eleitoral). O PSOL cresceu muito em vários lugares do Brasil. Para essa eleição, temos chance concreta de vitória em Belém, em Porto Alegre e Rio de Janeiro. Isso também passa por uma ampliação da bancada de vereadores. Não só em grandes cidades, como em municípios menores.

Como crescer e ganhar peso no universo político sem fazer alianças pragmáticas?
Não há nenhuma necessidade dessas alianças. A gente pode ou não ganhar a eleição. O que não podemos é perder princípios. Não há nenhuma necessidade de fazer as alianças tradicionais e desfazer tudo o que fizemos até hoje. Não vamos fazer alianças para ganhar mais tempo de TV e distribuir cargos. Esse erro comum que é origem de boa parte da corrupção política que vemos não será feito. É possível disputar as eleições com chances sem abrir mão de princípios.

O senhor é um dos maiores críticos aos governos do PMDB no estado do Rio e na prefeitura. Nesta quarta-feira, o prefeito Eduardo Paes passou a ser investigado no Supremo. O ciclo do PMDB acabou no Rio?
Acredito que sim. Eu e a maioria da população. Esse é o pior momento de Eduardo Paes, com o menor nível de avaliação nos seus oito anos de gestão. Exatamente no momento de sua sucessão. O seu candidato até agora também tem sua rejeição própria além de herdar a rejeição de Paes. O PMDB, mesmo com o uso da máquina, terá muita dificuldade nesse processo eleitoral no Rio. Será uma eleição muito pulverizada, com muitos candidatos, e imprevisível no que pode acontecer. Mais do que um acidente, o que aconteceu com a ciclovia Tim Maia revela as relações nefastas entre empreiteiras e poder público. É preciso repensar a gestão pública e o papel da prefeitura do Rio. A sociedade está entendendo isso.

Como o senhor avalia o legado olímpico?
Hoje não tem clima nenhum para a Olimpíada. O Rio de Janeiro está falido, o salário dos servidores está atrasado, os aposentados quase não receberam, Maracanã, Engenhão, o Célio de Barros [centro de formação de Atletismo], o Julio Delamare [centro de esportes aquáticos] também. Não tivemos qualquer legado positivo na Copa do Mundo e no Pan-Americano. A população fica muito desconfiada que qualquer processo olímpico traga benefício real. É uma pena, a gente quer que aconteça da melhor maneira possível, é um evento bonito, internacional.

As UPPs foram uma das maiores bandeiras do governo PMDB no Rio. O senhor combateu o avanço das milícias. O que deu errado na segurança pública do Rio?
O modelo está completamente falido, especialmente por problemas de origem e de concepção. Em nenhum momento se fez uma nova polícia ou se investiu na formação de uma nova polícia. O programa atendeu uma lógica eleitoral. É uma pena porque a lógica de policiamento comunitário é muito importante e deu certo em vários lugares do mundo. No Rio, foi usada irresponsavelmente para fins eleitorais.

(Luciano Pádua)