Filme de terror torna Dilma refém em meio a recuo de aliados

Se a presidente achou difícil impor medidas de austeridade no primeiro semestre deste ano, talvez ela tenha algumas surpresas desagradáveis no próximo

Brasília – Se a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, achou que foi difícil impor medidas de austeridade no primeiro semestre deste ano, talvez ela tenha algumas surpresas desagradáveis no segundo semestre.

Ela perdeu o apoio do presidente do Senado, Renan Calheiros, e do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, pois há cada vez mais insatisfação com a recessão e os legisladores estão sendo investigados por corrupção.

Calheiros, que comparou a situação no Brasil a um filme de terror sem fim, e Cunha estão pressionando por inquéritos sobre supostas irregularidades em instituições federais e adiaram a votação de projetos essenciais que visam arrecadar receita.

Embora o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), o maior da coligação governante, não tenha seguido o exemplo de Cunha e abandonado o governo, muitos de seus legisladores querem se distanciar do mal-afamado plano impopular de ajuste de Dilma, disse o analista político Gabriel Petrus.

Congresistas podem tornar-se mais dissidentes à medida que os procuradores intensificarem os inquéritos sobre mais 50 políticos acusados de corrupção.

“Muitos legisladores estão pensando em salvar a própria pele em vez da economia, então haverá ainda mais votos de protesto”, disse Petrus, que trabalha na empresa de consultoria empresarial Barral M Jorge em Brasília, em entrevista por telefone. “O risco de retroceder com alguns dos avanços obtidos até agora aumentou de forma substancial”.

Medidas da austeridade

A crise política se intensificou no dia 17 de julho, quando Cunha definiu-se como membro da oposição e pediu que seu partido, o PMDB, saísse da coligação governante.

Ele decidiu sair depois de ter sido acusado por um informante de receber propinas em troca de um contrato com a empresa de petróleo controlada pelo Estado, a Petrobras.

Ele negou irregularidades e disse que as acusações são parte de uma campanha do governo para enfraquecê-lo.

Como líder do partido de Cunha, o vice-presidente Michel Temer agora tem um papel muito mais relevante para garantir apoio a Dilma, de acordo com Marcos Troyjo, que dá aulas e é um dos diretores de um fórum sobre mercados emergentes na Universidade Columbia em Nova York.

O ministro da Economia Joaquim Levy disse diversas vezes que o Congresso deve atuar rapidamente para aprovar o plano de austeridade do governo a fim de evitar o rebaixamento do grau de investimento soberano. O Moody’s Investors Service deu uma perspectiva negativa ao Brasil no ano passado.

Os legisladores entraram em recesso na semana passada sem terem votado um projeto que arrecadaria receita ao criar incentivos para que os brasileiros paguem um imposto e repatriem dinheiro.

O Senado adiou a votação de uma proposta para elevar os impostos sobre as vendas corporativas.

Cunha e Calheiros também poderiam levar o Congresso a derrubar vetos presidenciais de “bombas fiscais”, como emendas que reforçam as pensões e aumentam os salários dos servidores do Judiciário, escreveu o Eurasia Group em uma nota de pesquisa da semana passada.

O governo de Dilma está trabalhando para melhorar as relações com o Congresso e considera normais as críticas de um aliado, disse Eliseu Padilha, ministro da Aviação Civil e integrante do PMDB, na segunda-feira.

Quietinho

A assessoria de imprensa da Presidência não respondeu ao pedido de mais comentários sobre o assunto.

Embora o PMDB acabaria se separando do Partido dos Trabalhadores (PT) de Dilma para lançar seu próprio candidato a presidente em 2018, ele vai ficar quietinho por enquanto e deixar que ela seja responsabilizada pela recessão, disse Troyjo, de Columbia.

O indiciamento de Cunha poderia desgastar o poder dele e fortalecer Dilma, disse Troyjo.

Entre os políticos investigados por corrupção estão Calheiros, do PMDB, e alguns membros do PT.

Os deputados federais do PMDB se reunirão no início de agosto para discutir sua posição na coligação, disse Danilo Forte, vice-líder do partido na Câmara. As manifestações contra o governo marcadas para o dia 16 de agosto vão servir de guia, disse ele.

“O partido só sairá do governo se o povo for para a rua”, disse Forte.