Para Fernando Schüler, Governo Bolsonaro é de “baixo consenso”

Para o cientista político do Insper, a mudança do tradicional governo de coalizão traz desafios, mas reafirma proposta de campanha chancelada nas urnas

São Paulo – O cientista político Fernando Schüler, pesquisador da escola de negócios Insper, busca analisar o início do governo Bolsonaro com mais racionalidade do que com sentimentalismos. Para ele, é perfeitamente natural que esse governo apresentasse problemas no início.

Mas isso não acontece por conta da inexperiência do presidente Jair Bolsonaro e sim por ele tentar governar de maneira diferente dos seus antecessores.

“Ele cumpriu o que prometeu, que é a repactuação do sistema de coalizão. Mas ele ainda não encontrou uma fórmula de fazer isso. Ninguém tem essa fórmula”, diz Schüler.

E isso pode trazer problemas para o futuro do presidente. Segundo o cientista político, por ser um governo de baixo consenso, Bolsonaro terá dificuldades de implementar a sua agenda frente ao Congresso, que começa a ter um protagonismo maior.

Mesmo com as crises causadas pelas postagens do presidente nas redes sociais, Schüler acredita que o presidente não parará de utilizar as redes sociais – e ele não teria motivo para isso.

“Os tuítes combativos mobilizam a sua base. Se ele fosse mais moderado, ele seria o Michel Temer, não o Bolsonaro que foi eleito” diz.

O cientista político será um dos participantes do Fórum Veja e EXAME – 100 dias de governo, no próximo dia 15. Confira, a seguir, a sua entrevista:

Como o senhor analisa o início do governo Bolsonaro?

É um início previsível. Mas o primeiro ponto a se falar é a completa fraude do argumento de que havia risco democrático. Houve uma legião de pessoas defendendo algo que claramente não existe. Nenhuma instituição foi ameaçada e não há risco a direitos fundamentais.

Essa defesa mostrou uma enorme irresponsabilidade do mundo intelectual. Você pode discordar, gostar ou odiar o governo, mas não existe esse problema.

Mas como o senhor enxerga a articulação desse governo?

Esse é um governo de baixo consenso e com três blocos formados. O grupo econômico, em torno do ministro Paulo Guedes, tem toda uma coerência em cima da escolha e das políticas adotadas. Outro é o dos conservadores, que é o mais difuso, menos articulado e que traz mais problemas ao governo.

Essa ala faz muito barulho, dá pouco resultado traz muitos problemas, como são os casos do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e do ex-ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez. Por último, que cresceu nos últimos dias, há o grupo dos militares, que serve como poder moderador. É o grupo que conseguiu ocupar espaço e resolver os problemas.

E essa divisão está dando resultado?

Existe uma marca desse governo que é a improvisação da gestão política. O governo não tem base no Congresso. Ele cumpriu o que prometeu, que é a repactuação do sistema de coalizão. Mas ainda não encontrou uma fórmula de fazer isso. Ninguém tem essa fórmula.

A sociedade, entendida aqui como formadores de opinião, querem duas coisas que são simultaneamente contraditórias: rejeitam o governo de clientela, por outro lado quer que o governo tenha mais eficiência na base.

Na sua visão, os ministros estão conseguindo realizar um bom trabalho até aqui?

Há boas surpresas, como o Tarcísio Freitas (ministro da Infraestrutura) e a Tereza Cristina (ministra da Agricultura). Até o próprio Ricardo Salles (ministro do Meio Ambiente), que começou se envolvendo em polêmicas, passou a fazer um trabalho interessante e montou uma equipe de primeira linha. Os times estão bem constituídos. Nesse ponto, o governo Bolsonaro entregou o que prometeu.

E os “superministros”, como o Paulo Guedes e o Sérgio Moro? Como o senhor avalia o trabalho deles?

As grandes mudanças que eles pregam precisam passar pelo Legislativo. E isso esbarra nas prioridades que o governo vai dar e também nos humores do Congresso. Há também algumas pautas que se chocam, como as propostas de segurança pública do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, à época que era ministro da Justiça.

E, claramente, há pontos na proposta do Moro que incomodam alguns congressistas. E o Congresso não é tão fácil de lidar. As pautas, como a PEC do Orçamento Impositivo, mostram que o Brasil vive numa “vetocracia” e o governo mostrou fragilidade nessas áreas.

Como o senhor compara o início governo Bolsonaro com o de outros presidentes?

É um governo mais parecido que os primeiros mandatos do Fernando Henrique Cardoso e do Luiz Inácio Lula da Silva. Ambos tiveram grandes apoios vindos das urnas. Mas existe uma característica que não pode ser comparada a nenhum, que é essa repactuação do governo de coalizão. Pouca gente fala nisso. Dessa maneira, a construção do governo muda completamente.

Porém, há muito de improviso nesse governo, muita intuição. Acredito que não existe uma conversa entre a equipe sobre como construir um novo de modelo político. É muito mais da intuição do presidente. Porém, também foi visto que o custo do governo de coalizão, como estava sendo feito, é enorme. Então, o governo preferiu começar de uma maneira diferente.

Mas não teria como fazer um governo de coalizão sem negociações pouco republicanas?

Esse modelo começou a ficar caro. Temos muitos partidos que podem ser base do Congresso. Se tiver 18 partidos, o governo vai dar um ministério para cada um dos apoios? Vai negociar estatais? Autarquias? A decisão do Bolsonaro foi não fazer isso. Em algum momento, creio eu, essa negociação entrará na agenda.

Porém, será em um nível muito mais baixo do que aconteceu historicamente. Claro que existem críticas que é um governo que poderia dialogar melhor. Mas abrir esse tipo de discussão não é nada simples. A chance de se escorregar para o modelo é muito grande.

E como o senhor analisa a responsabilidade que o governo passa para o Legislativo?

A ideia de colocar a responsabilidade no Congresso faz sentido. O governo apresentou a proposta da Previdência e o ministro Paulo Guedes está indo conversar.

Mas ao falar isso, o presidente não tira a responsabilidade do próprio governo de articular a proposta?

Ao mesmo tempo, ele tira a imagem de que a reforma é do governo. A imagem de que ela é do governo passa a ser ruim para a reforma. É muito cômoda a ideia, para quem quer fazer um discurso demagógico da reforma, criticar a proposta do governo. Na verdade, não é ruim para a reforma, na minha visão, que fique claro que a responsabilidade é do Congresso.

E qual é a sua visão a respeito das pautas conservadoras, que tiveram muito espaço na campanha?

Essa agenda não andou. Parece que ela nem existe. Só funciona para a guerra cultural na internet. É uma agenda de frases prontas e de efeito, mas não anda porque não faz parte das políticas públicas do Brasil. Ao tentar se implementar ela, vira algo caricatural.

Mesmo alguns pontos como a Escola Sem Partido, redução da maioridade penal, entre outros, não andaram. Pouco se ouve sobre isso. Por quê? Porque funciona nas redes sociais, mas não tem materialidade no Congresso.

O governo não está muito dependente das redes sociais?

O Bolsonaro é um líder mobilizador e um dos mais influentes do mundo nas redes sociais. E essa comunicação direta é um traço da democracia contemporânea, apesar de muitos associarem isso ao populismo. Esse é um ativo do Bolsonaro e que ele não vai abrir mão. E por que abriria mão? Boa parte da mídia e da elite intelectual não gosta dele por uma questão de matriz cultural.

Como assim?

Enquanto essa elite tem uma visão cosmopolita de mundo, o bolsonarismo expressa o senso comum. É o que eu chamo de “pensamento do homem comum”, que é algo mais conservador. O homem comum abomina o politicamente correto e não gosta das políticas de identidade. Ou seja, tem um padrão estético diferente. Mas agora com as redes sociais, o cidadão comum se transformou em um pequeno político.

As redes sociais foram responsáveis pela ascensão do conservadorismo?

O conservadorismo popular sempre existiu, mas tinha menor potência do que hoje. O Bolsonaro deu expressão a ele. Basicamente, o ecossistema desse conservadorismo é a internet. Então, seria ilógico o presidente parar de se comunicar pela internet e de expressar ideias que vão de encontro a esse público. Eu acredito que há momentos em que ele erra no tom, como no vídeo do Carnaval.

Mas o objetivo era mostrar que o eleitorado dele não estava nessas festas. E, de novo, trata-se de algo intuitivo, sem método. Ele não tem uma agência especializada por trás, então está sujeito a erros. E os tuítes combativos são aqueles que mobilizam a sua base. Em uma sociedade polarizada, isso faz sentido. Se ele fosse mais moderado, ele seria o Michel Temer, não o Bolsonaro que foi eleito.

Mas a popularidade dele está caindo, segundo algumas pesquisas. O apoio desses conservadores será o suficiente para manter a governabilidade até 2022?

Essa queda de popularidade é natural, pois ele cometeu erros. E o Bolsonaro é uma pessoa muito desconfiada, um lobo solitário desde os tempos do Congresso, e que acaba agindo assim na presidência. Nesse ponto, ele é bem parecido com a ex-presidente Dilma Rousseff.

Mas acredito que o governo está numa fase de aprendizado. É uma tarefa muito difícil governar com baixo consenso e sem moeda de troca. E o Congresso mostrou que consegue andar sem o governo, como foi a PEC do Orçamento Impositivo.

Como o senhor enxerga o papel da oposição até aqui?

A esquerda está desunida. Se o governo está desmobilizado, a oposição também está. Estão focando em pautas como o Lula Livre e deixam o resto de lado. O PT, por exemplo, é um partido dividido.