Família espera que documentos esclareçam morte de Jango

Família de João Goulart espera que liberação dos documentos dos EUA possa esclarecer se a morte do ex-presidente, em 1976, foi uma ação da Operação Condor

Rio de Janeiro – A família de João Goulart, deposto pelo golpe militar de 31 de março de 1964, espera que a liberação dos documentos secretos dos Estados Unidos, pedida pelo Senado brasileiro, possa esclarecer se a morte do ex-presidente, em 1976, foi uma ação da Operação Condor.

“Esperamos a libertação desses documentos, que interessam não só para saber o que se passou com João Goulart mas também para ter detalhes da criminosa intervenção por parte dos Estados Unidos em nosso território durante o golpe”, disse nesta segunda-feira à Agência Efe João Vicente Goulart, filho de Jango.

Após um pedido da família de João Goulart, o presidente do Senado, Renan Calheiros, enviou na semana passada uma carta ao Senado dos Estados Unidos na qual pede a liberação de todos os documentos secretos do país sobre o golpe de 1964 e a ditadura.

Os documentos secretos dos EUA podem ser determinantes para esclarecer a verdade, segundo João Vicente Goulart, caso as análises que estão sendo feitas nos restos mortais de seu pai não sejam conclusivas, em função do tempo transcorrido ou da substância que poderia ter sido usado em um suposto envenenamento.

Os restos mortais de Goulart, que morreu no exílio, na Argentina, foram exumados por ordem judicial em novembro do ano passado para esclarecer se o antigo líder morreu de infarto, como se informou na época, ou foi envenenado pela Operação Condor, como sua família acredita.

Por isso, a família Goulart iniciou uma campanha para ter acesso aos documentos dos EUA e para que a justiça brasileira escute os ex-espiões que participaram de operações na América Latina e vivem sob proteção americana.


Vicente Goulart fez um primeiro pedido para o Ministério Público em 2007, e inclusive apresentou uma lista de ex-agentes que poderiam ser ouvidos, após ser informado por um espião uruguaio que seu pai foi envenenado.

“Mas até agora não houve vontade política do Brasil para fazer isso. Provavelmente a Argentina, onde Jango morreu, seja capaz. Se a Argentina investiga e toma atitudes de soberania que nosso país não tem coragem de adotar, vai ser muito vergonhoso”, disse.

Vicente Goulart acrescentou que suspeita do envenenamento de Jango desde seu enterro, pois na ocasião não foi permitida a realização de uma autópsia e a abertura do caixão.

“O Brasil começou a liberar documentos recentemente e, na medida em que tínhamos acesso, vimos que havia relatórios que apontavam agentes em nosso apartamento em Montevidéu, que roubaram documentos do criado-mudo do meu pai, como uma carta de Perón”, relatou.

A documentação, elaborada por um espião identificado apenas como “B”, e o testemunho de um antigo agente secreto uruguaio que disse que Goulart tinha sido envenenado pela Operação Condor, fizeram com que a família Goulart solicitasse uma investigação em 2007.

“Juntamos até documentos dos Estados Unidos em que Henry Kissinger, em carta enviada da África, diz ao seu embaixador em Montevidéu que tinha conhecimento das operações encobertas de assassinatos seletivos, que o Brasil estava participando desses assassinatos, e ordena ao embaixador não se intrometer nisso”, afirmou.