Entidades ambientalistas manifestam preocupação com governo Bolsonaro

Diferentemente da polarização popular nas urnas, grupos compartilham o medo de que mudanças na política gerem implicações drásticas para o meio ambiente

São Paulo – Entidades não-governamentais de proteção ambiental manifestaram preocupação com a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) na corrida presidencial. Diferentemente da polarização popular observada no resultado das urnas, grupos ambientalistas compartilham o medo de que mudanças que consideram negativas ocorram na política ambiental brasileira.

Embora pouco se saiba sobre o projeto político do ex-militar para a pasta ambiental, tendo em vista as escassas menções à temática em seu plano de candidatura (entre elas, a ideia de subordinar o Ministério do Meio Ambiente ao Ministério da Agricultura), ao longo da campanha, Bolsonaro falou em reduzir o trabalho de fiscalização do Ibama, liberar a mineração em terras indígenas e retirar o Brasil do acordo climático de Paris, maior tratado mundial de combate às mudanças climáticas.

Apenas com base nessas sinalizações é possível pintar um cenário nebuloso para o meio ambiente brasileiro nos próximos quatro anos. Segundo a organização Amazon Watch, a eleição de Bolsonaro para a presidência do Brasil dá ao político um mandato para promulgar uma série de “mudanças radicais” à ordem socioambiental do país.

“A vitória de Bolsonaro representa um profundo revés para os direitos humanos e a preservação ecológica na quarta maior democracia do mundo, com implicações particularmente drásticas para a floresta amazônica e suas comunidades indígenas e tradicionais”, diz a entidade em comunicado oficial.

Lembrando que o Brasil é o país que mais mata defensores do meio ambiente no mundo (57 apenas no ano passado), o Observatório do Clima defendeu o fortalecimento do Ministério do Meio Ambiente e seus órgãos vinculados e a ampliação da  política de áreas protegidas, que inclui a criação de unidades de conservação e a demarcação e homologação de terras indígenas.

“O Brasil percorreu um longo caminho até a consolidação de um conjunto de instituições e políticas públicas que guardam um patrimônio natural único, base sobre a qual se assenta não apenas a qualidade de vida, mas o próprio desenvolvimento econômico do país. Não nos calaremos diante do desmonte dessas instituições e políticas”, declarou a rede, que é formada por várias organizações da sociedade civil que atuam em mudanças climáticas, entre elas Greenpeace, SOS Mata Atlântica , WWF Brasil e Instituto Socioambiental. 

A entidade criticou ainda a proposta de retirar o Brasil do Acordo de Paris, que prevê a limitação do aumento da temperatura global abaixo de 2 graus Celsius (e preferencialmente abaixo de 1,5 graus Celsius) até o final do século, a fim de se evitar as piores consequências das mudanças climáticas. Bolsonaro voltou atrás na proposta dias antes do pleito, mas não há certeza do que esperar. 

“Dar as costas ao acordo do clima e a medidas de adaptação a extremos climáticos seria desastroso para o país: do ponto de vista geopolítico, comercial, de desenvolvimento e, sobretudo, da segurança dos cidadãos brasileiros, que o presidente eleito jurou priorizar”, avalia a entidade. 

No Acordo de Paris, o Brasil se compromete a reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 37% até 2025, com base das taxas de 2005, e, para alcançar isso, aumentaria a participação de fontes renováveis na matriz energética nacional e promoveria a restauração de 12 milhões de hectares de florestas, além de zerar o desmatamento até 2030 na Amazônia. 

A ONG 350.org  destacou que o país tem um compromisso global com a preservação do seu meio ambiente e que qualquer recuo seria preocupante. “O afastamento do Brasil em relação a seu compromisso com a proteção florestal e a mudança para combustíveis com carbono zero poderia minar o progresso feito nas ações climáticas nos últimos anos, algo profundamente impopular e perigoso”, disse em nota. 

O grupo ressaltou ainda que os efeitos das mudanças climáticas tendem a ser sentidos com mais força pelos grupos mais vulneráveis da sociedade, as pessoas mais pobres, que devem ser prioridade para o novo presidente.