Em meio a protestos de estudantes, Bolsonaro cancela visita ao Mackenzie

Os protestos, que têm como tema central críticas à ordem de celebrar o Golpe de 1964, estão marcados para todo o dia

São Paulo — O presidente Jair Bolsonaro cancelou a visita que faria nesta quarta-feira (27) na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.

Bolsonaro está na capital paulista para fazer exames médicos e havia a expectativa de que ele comparecesse ao lançamento da Mackgraphe, centro de pesquisas sobre grafeno da universidade.

O ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, deveria acompanhar o presidente. No entanto, o encontro não consta mais na agenda de ambos.

Durante todo o dia, estudantes da faculdade organizam protestos contra o presidente. Pela manhã, compareceram cerca de mil pessoas, de acordo com o Diretório Central dos Estudantes do Mackenzie, que organiza os atos.

“Mostramos que a resistência a este governo corrupto e intolerante está presente dentro das universidades por meio do movimento estudantil. Estaremos sob vigília o dia todo dentro e fora do campus a fim de garantir que nossas pautas e reivindicações sejam ouvidas, tanto pelos governantes quanto pela universidade”, diz comunicado do grupo.

A principal crítica dos estudantes é pela ordem de Bolsonaro para que os militares comemorem o Golpe Militar de 1964, que faz aniversário no próximo domingo (31). 

São esperados pelo menos mais dois atos na universidade ainda nesta quarta-feira, um às 13h e outro às 18h.

“O reitor está ciente da mobilização e, conforme conversado, a participação dos alunos e alunas no ato não refletirá em nenhuma medida repressiva por parte da UPM, desde que o ato ocorra pacificamente”, diz outro trecho do comunicado. “Qualquer ato de vandalismo ou agressão por parte de algum indivíduo ou grupo não será tolerado e nem apoiado pelo DCE (Diretório Central de Estudantes) e pela reitoria.”

Outro ponto reivindicado envolve a prioridade do governo para a educação. Em uma carta lançada na noite desta terça-feira (26), os estudantes afirmam que a educação para Bolsonaro “é concebida como ‘perigosa'”.

Procurado, o Mackenzie ainda não se pronunciou sobre o protesto dos estudantes nem sobre o cancelamento da visita.

Leia a carta dos estudantes na íntegra:

“Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Jair Bolsonaro,

Desde o anúncio de seu plano de governo, durante a campanha eleitoral, já restava evidente: a educação, para Vossa Excelência, é concebida como “perigosa”.

Não é de hoje, sabemos, que aqueles que pensam, invariavelmente, incomodam aqueles que mandam. A história revela, inclusive, que regimes autoritários costumam ser refratários à liberdade de expressão e de pensamento, reflexos da educação voltada para a formação da cidadania. Assim, é, no mínimo, preocupante que, em seu governo, ao invés de preocuparem-se com os graves problemas que assolam a educação nacional, a ênfase recaia em projetos estapafúrdios como “Escola sem Partido”. Sob o delírio persecutório da “doutrinação marxista”, da “ideologia de gênero” e outras insanidades, nós, estudantes, professores e pesquisadores, somente podemos ser reconhecidos, por seu governo, como “potenciais inimigos de Estado”. Nós, por exercitarmos a razão, falemos francamente, incomodamos Vossa Excelência.

Ainda, em seu governo, a própria ignorância passa a ser cultivada, como signo de virtude. O festival de asneiras propaladas por ministros e secretários de seu governo – da tese do “globalismo” como “complô marxista” à bravata do “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”; da proposta de educação pública em um Estado laico baseada na “palavra de Deus” à “irrelevância” dada a Chico Mendes, no âmbito do debate ambiental – pode agradar a alguns incautos, porém, sabemos que, para muito além de indícios de um governo despreparado, trata-se de expressões do retrocesso a uma visão de mundo mais próxima do medievo do que da modernidade. Difícil, aqui, não lembrar do intelectual que Vossa Excelência reverência e que, por sinal, indicou dois de seus ministros, inclusive, da área de Educação, para quem, dentre outras opiniões inusitadas, Isaac Newton e Niels Bohr são tidos como “charlatões”. Se assim prosseguíssemos, não demoraria muito para a “alquimia” ser reabilitada para os fins de desvendamento do “misterioso grafeno”. Ironicamente, o “imbecil coletivo” parece ter se tornado, hoje, a meta do projeto educacional.

Não suficiente, em seu governo, a perspectiva civilizatória de universalização do saber é cinicamente recusada. O recente discurso de seu Ministro da Educação é emblemático: “as universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual”. Trata-se de uma sinédoque: é “a cultura, de modo geral, que deve ficar reservada para uma elite intelectual”, cabendo, à maioria da população, resignar-se à passividade e ao automatismo do trabalho braçal, sob o mesmo paradigma da escravidão, porém, com ares de modernidade neoliberal. “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”, diria Darcy Ribeiro. E, nessa linha, o projeto de Vossa Excelência é audacioso: destruir completamente a educação voltada para o exercício da razão e da liberdade, reduzindo-a à mera instrução voltada para servidão do mercado de trabalho.

Autoritarismo, ignorância e servidão: eis a síntese do projeto educacional de seu governo. Nós, alunos e entidades da Universidade Presbiteriana Mackenzie, não podemos compactuar com isso. Desse modo, com a devida vênia, declaramos que Vossa Excelência não é bem-vinda nesta casa centenária, destinada à educação, ao exercício da razão e da liberdade e à promoção da emancipação humana. Entretanto, enquanto cidadãos brasileiros e em solidariedade a todos os estudantes das redes pública e privada deste país, aproveitamos o ensejo da visita para apresentarmos as seguintes reivindicações:

Reivindicações gerais:
– Defendemos o descontingenciamento de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) para o fomento de pesquisas científicas no país;
– Contra o PL 7.180/14 que é o Projeto de Lei da Mordaça;
– Reafirmamos e reivindicamos o reconhecimento do movimento estudantil como legítimo;
– Pela aprovação da Lei do PNAES (Plano Nacional de Assistência Estudantil);
– Contra o aumento abusivo de mensalidades;
– Em defesa da permanência dos estudantes bolsistas e do FIES;
– Em defesa dos direitos e da previdência pública, contra a proposta de Reforma da Previdência;
– Contra a proposta de flexibilização do porte de armas. Menos Armas e mais Educação;
– Defendemos que minorias devem ser legitimamente reconhecidas e respeitadas, tendo assim, a liberdade de se expressarem da maneira que assim desejarem sem incitar ódio e violência por parte de V. Excelência e de seus eleitores.

Reivindicações específicas:
– Contra a anistia de empresas devedoras da previdência, que as instituições educacionais possam reverter o valor da dívida em bolsas e assistência estudantil;
– Defendemos a ampliação de vagas do ProUni;
– Defendemos o respeito à liberdade de expressão e de pensamento no interior dos “campi”;
– Defendemos que a universidade, enquanto espaço de fomento a discussão intelectual, possibilite o debate político de quaisquer ideologias e vertentes, nas instalações do campus, a fim de construir alunos mackenzistas conscientes e comprometidos com os rumos do país”.