Em 3ª etapa, testemunhas negam confronto no Carandiru

Primeiros testemunhos negaram que na época tenha havido um confronto entre os agentes e os detentos.

São Paulo – Os primeiros testemunhos do julgamento que começou nesta segunda-feira contra 15 dos policiais acusados pelo Massacre do Carandiru, ocorrido nesse presídio de São Paulo em 1992, negaram que na época tenha havido um confronto entre os agentes e os detentos.

Segundo declarações dos promotores do caso aos jornalistas, o perito criminal Osvaldo Negrini, primeira testemunha convocada pela promotoria, afirmou que as marcas de tiros foram disparadas ‘praticamente em uma só direção: de fora para dentro das celas’.

A segunda testemunha escutada hoje pelo juiz Rodrigo Tellini Aguirre Camargo, Moacir dos Santos, que era diretor da Divisão de Segurança e Disciplina da prisão, confirmou a versão de Negrini e acrescentou que os presos não tinham armas de fogo, como alega a defesa dos policiais.

A escolha de um júri integrado por sete homens deu início ao julgamento nesta segunda-feira.

Os 15 policiais que ocupam o banco dos réus são julgados pelo homicídio de oito dos presos e pela tentativa de homicídio de outros dois, na terceira das quatro fases do processo, que em suas duas primeiras etapas condenou 48 agentes como autores das mortes de 82 detentos.

Na audiência iniciada no Fórum Criminal da Barra Funda, que pode prolongar-se por uma semana, são julgados os policiais que estavam no quarto pavimento do pavilhão 9 do Carandiru.

O advogado da defesa, Celso Machado Vendramini, comentou a jornalistas que seus clientes estão sendo julgados sem provas técnicas e que é ‘impossível’ identificar qual dos policiais teria disparado os tiros contra determinado preso.


Uma terceira testemunha da acusação, que na época era preso e sobreviveu ao massacre, não se apresentou ao julgamento e amanhã continuarão os interrogatórios com o ex-secretário de Segurança Pública, Pedro Campos, e um agente penitenciário convocados pela defesa.

Os promotores Marcio Friggi de Carvalho e Eduardo Olavo Canto Neto declararam a jornalistas que as provas que serão apresentadas durante o julgamento ‘são suficientes’ para determinar a culpabilidade dos acusados.

Carvalho refutou o argumento da defesa que não se tratou de um massacre porque só uma marca de tiro foi encontrada no pavilhão 9 e alegou que os demais disparos estavam ‘alojados’ nos corpos dos presos assassinados.

Nas primeiras etapas, concluídas no ano passado – 21 anos depois do massacre -, 23 dos policiais acusados foram condenados a penas de 156 anos de prisão, enquanto outros 25 pegaram penas de 624 anos.

Em 2001, um juiz condenou o coronel Ubiratan Guimarães, que comandou a operação na penitenciária, a 632 anos de prisão pela morte de 102 dos presos, embora esse julgamento tenha sido cancelado em 2006 por um tribunal de segunda instância. No entanto, alguns meses depois, o oficial foi assassinado.

O massacre, que terminou com um total de 111 mortos, ocorreu em outubro de 1992, às vésperas das eleições municipais, quando a Polícia Militar de São Paulo invadiu a penitenciária com a intenção de contornar uma suposta rebelião com presos armados em um dos pavilhões.

A prisão, então a maior de São Paulo com oito mil, foi desativada em 2002 e o local foi transformado em um parque público. EFE