De Trump a Bolsonaro: a política que despreza a imprensa

O presidente americano e o candidato do PSL costumam acusar os veículos jornalísticos de propagar mentiras. Sempre contra eles, claro

A última sexta-feira de campanha presidencial tradicionalmente é reservada para o debate entre os candidatos a presidente. Não desta vez. Jair Bolsonaro (PSL), como se sabe, mesmo clinicamente liberado pelos médicos decidiu que não irá ao debate da Rede Globo, assim como não fez em nenhum outro debate do segundo turno.

Mesmo com a possibilidade legal de fazer o debate apenas com o petista Fernando Haddad, a Globo deve optar por cancelar o evento. Em Minas Gerais, esta semana, SBT e Rádio CBN optaram por realizar entrevistas com o candidato tucano Antonio Anastasia após seu adversário, Romeu Zema (Novo) avisar que não participaria. Ontem, afiliadas da Globo realizaram entrevistas com apenas um dos candidatos após seus adversários faltarem em Santa Catarina, Roraima e Distrito Federal. Todos os que faltaram lideram com ampla margem e são apoiadores de Bolsonaro.

Em vez de ir à Globo, Bolsonaro optará, mais uma vez, pelo conforto de uma ambiente controlado: vai gravar em sua residência vídeos para seus eleitores. Também aproveitará o tempo para reuniões de montagem de seu futuro governo e para postagens nas redes sociais.

A campanha chega ao fim com o candidato líder nas pesquisas demonstrando uma ojeriza sem paralelos à imprensa. No domingo, Bolsonaro afirmou a seus seguidores que “Queremos a imprensa livre, mas com responsabilidade. A Folha de S.Paulo é o maior fake news do Brasil.”

“Ele celebra a ‘imprensa livre’, desde que essa imprensa siga o que ele, Bolsonaro, entende como ‘responsabilidade’”, diz Eugênio Bucci, professor da ECA-USP, em artigo publicado ontem pelo jornal O Estado de S. Paulo.

O maior propagador de notícias falsas, como ficou claro durante as eleições, não é a imprensa, mas as redes sociais turbinadas por apoiadores dos candidatos, sobretudo das frentes bolsonaristas. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, foram abertos 46 processos contra a divulgação de mentiras nas redes sociais — desses, 24 tiveram como alvo os seguidores de Bolsonaro e 9 miraram os seguidores de Haddad.

Bolsonaro chega ao fim da campanha mostrando uma série de semelhanças com a estratégia de comunicação do presidente americano Donald Trump. Trump também é adepto de discursos raivosos, e um crítico contumaz da imprensa. Nesta quinta-feira, ele misturou os dois temas num tuíte.

“Uma parte muito grande da raiva que vemos hoje em nossa sociedade é causada pelos relatos propositadamente falsos e imprecisos da mídia tradicional a que me refiro como Fake News. Ficou tão ruim e odioso que está além de qualquer descrição. A mídia tradicional deve limpar seu atos, rápido!”, escreveu, se referindo aos pacotes bomba enviados a opositores de seu governo.

Nos Estados Unidos, a assinatura de veículos como o New York Times disparou com a eleição de Trump, numa reação à perseguição presidencial. Por aqui, a julgar pelas promessas de Bolsonaro, a perseguição a veículos e a jornalistas pode estar para começar.