Dá para contar com os estrangeiros?

“O mercado internacional cumprirá papel fundamental na retomada da economia brasileira”, escreveu Henrique Meirelles em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo em 24 de abril. Presidente do conselho da J&F, controladora da processadora de carnes JBS, e ex-presidente do Banco Central nos dois mandatos do presidente Lula, Meirelles é nome certo para assumir um cargo de destaque na equipe econômica do governo Temer.

Sua argumentação faz todo o sentido: uma sinalização clara e factível de que o país equacionará o desequilíbrio fiscal e voltará a ter regras estáveis e previsíveis para investidores deveria levar a uma melhora no ambiente de negócios. E, dado que o cenário mundial ainda é de alta liquidez de recursos, graças às políticas de combate à crise econômica nos países mais ricos, os recursos voltariam céleres aos nossos cofres — na forma de investimentos diretos, compra de ações ou crédito para empresas locais.

Só falta combinar com os… não, não com os russos, que estão em situação talvez pior que a nossa. Falta combinar com os investidores internacionais.

Apenas alguns dias depois da coluna em que Meirelles dizia ter sentido “enorme interesse” pelo Brasil por parte de investidores, empresários e analistas internacionais, uma pesquisa da consultoria A.T. Kearney apontou que “o sentimento negativo em relação aos mercados emergentes que apareceu no início de 2015 está ainda mais pronunciado neste ano”.

A A.T. Kearney mede anualmente o índice de confiança para investimentos estrangeiros diretos. No ano passado, segundo o relatório divulgado no dia 3 de maio, os consultores ficaram surpresos: “Quase três quartos dos países nas 25 primeiras posições do ranking eram mercados desenvolvidos”. Os investidores estavam enxergando à frente da consultoria. Mais para o final do ano, a queda nos preços das commodities, a desaceleração econômica da China, a crise brasileira, a alta do dólar, entre outras coisas, deram razão ao desânimo dos investidores. E, neste ano, a proporção de países emergentes entre os 25 mais bem cotados ficou ainda menor: apenas um quinto.

A boa notícia é que o Brasil, embora tenha caído seis posições no ranking, a segunda maior queda, ainda figura entre os países mais considerados para investimentos, em 12o lugar. (O México foi a maior queda, do nono para o 18o posto.) E a queda pode ser pelo menos parcialmente compensada pelo aumento do bolo: quase 75% dos executivos de empresas globais dizem que planejam elevar seu investimento direto em países estrangeiros nos próximos três anos.

O desafio é atrair uma parcela razoável desse dinheiro novo para o Brasil. Na pergunta sobre prognósticos para a economia no país nos próximos três anos, 25% dos investidores se disseram mais pessimistas do que no ano passado, ante 24% que se declararam mais otimistas. É uma resposta condizente com uma economia que encolheu 3,8% no ano passado e que tem projeção de encolher outros 3,5% neste ano. E também explica a queda recente nos investimentos do exterior.

Segundo o BC, o Brasil recebeu 97 bilhões de dólares em investimentos produtivos em 2014, 75 bilhões em 2015 e para este ano a projeção é de 66 bilhões. A queda nos investimentos em projetos que saem do zero (chamados de greenfield) é ainda mais acentuada. Em 2011, o país chegou a ter 500 projetos avaliados em 50 bilhões de dólares. No primeiro trimestre de 2014, eram 117. No primeiro trimestre de 2015, apenas 56, segundo a A.T. Kearney.

“Por que eu não invisto no Brasil”
Para entender o sentimento por trás desses números, conversei com um investidor americano, o principal sócio de um fundo que gere algo entre 2 bilhões e 3 bilhões de dólares. Sob a condição de não ter seu nome revelado, ele relatou sua experiência com o Brasil — que permite entender por que a lógica de Meirelles pode encontrar grandes dificuldades para se realizar na prática.

O primeiro negócio que esse investidor realizou no Brasil foi a compra de ações do Itaú no final de 2008, logo depois da fusão com o Unibanco. E logo depois da eclosão da crise mundial. “Ficamos entusiasmados tanto com a companhia quanto com o país”, afirma. A partir de então, veio várias vezes ao Brasil e expandiu seus investimentos para outras áreas, como mercado de títulos e construção civil. O entusiasmo começou a arrefecer na transição do governo Lula para o governo Dilma.

Ante as primeiras informações de que Meirelles seria o ministro da Fazenda, tudo ainda parecia bem — seu trabalho no BC havia tranquilizado os investidores, pelo firme controle da inflação. Quando ficou claro que ele não participaria do governo e que Alexandre Tombini seria o presidente do BC, os temores começaram a aumentar. “A investigação que fizemos nos levou à conclusão de que ele estaria mais disposto a acomodar suas decisões com as necessidades políticas, e talvez não combatesse a inflação com o necessário vigor”, disse. A partir daí, seu fundo começou a se desfazer das ações que tinha. Manteve, basicamente, investimentos de curto prazo em ações. E suas viagens ao Brasil foram ficando mais e mais espaçadas. Hoje, seu fundo não tem mais nenhuma posição no Brasil, nem de longo nem de curto prazo.

“Lembro especificamente de um almoço com um sócio de um banco de investimento brasileiro. Ele me propôs investir mais, dizendo que uma política do BC mais frouxa poderia ser uma oportunidade, porque estimularia o crescimento. Eu respondi que isso talvez ocorresse durante certo período de tempo, mas eu não queria assumir esse risco.” (Como se vê, um investidor estrangeiro com foco no médio e no longo prazo já antevia os problemas em que o Brasil estava se metendo.) O que dizer de agora, então, que Meirelles é de novo cotado para o governo? A confiança não volta? O recado desse investidor é: calma lá com o andor. E mais calma ainda com o dinheiro.

“Por algumas métricas, o país está bastante barato”, diz ele. “Percebemos que tem um potencial significativo. Mas também entendemos que ter as pessoas certas nos lugares certos é difícil. Sou cético quanto aos novos governantes terem o desejo ou a capacidade de promover as mudanças estruturais necessárias, e mesmo que o façam ainda vai levar alguns anos até que elas surtam efeito.”

Em resumo, o Brasil, segundo sua visão, abre as portas para um potencial atraente, “pela simples remoção de um governo tão disfuncional”, mas nada garante que vá conseguir implementar as mudanças estruturais que a situação requer.

E mesmo que consiga… “Tenho uma visão extraída da minha experiência no mercado de tecnologia”, diz o investidor. “É um setor que mostra que as mudanças costumam demorar bem mais do que se espera pelos primeiros sinais. Em compensação, quando vêm, costumam ter efeitos muito mais profundos do que se acreditava.”

O Brasil, segundo sua análise, dá passos para se tornar um país guiado pelas leis, não pelas pessoas — como os Estados Unidos e outros países desenvolvidos. “A fundação sobre a qual o país pode ser reconstruído é bem mais firme e tem maior potencial do que a mágica que Fernando Henrique Cardoso e Armínio Fraga conseguiram proporcionar. Mas também vejo que ter uma liderança correta, que esteja disposta a fazer mudanças decisivas, é crucial.”

Isso, por enquanto, o Brasil não tem.

(David Cohen)