Crivella e a fuga dos debates

No começo da tarde de hoje, aconteceria no Rio de Janeiro o segundo debate entre os candidatos ao segundo turno da eleição, Marcelo Crivella, do PRB, e Marcelo Freixo, do PSOL. Organizado pelo SBT, em parceria com a Folha de S. Paulo e o portal UOL, o debate foi cancelado depois que Marcelo Crivella decidiu que não participaria desse encontro e de outro, organizado pela TV Record. O candidato deve encontrar com Freixo novamente só no último debate, realizado pela TV Globo no dia 27.

Liderando as pesquisas, o candidato do PRB não quer dar margem para o azar, ou a chance de entrar em alguma polêmica que possa prejudica-lo nas pesquisas. A tática foi usada, por exemplo, pelo prefeito reeleito ACM Neto em Salvador. Liderando com ampla vantagem, ACM só compareceu ao debate da Globo. Se reelegeu em primeiro turno. Celso Russomanno, colega de partido de Crivella, também adotou a tática em 2012. Deixou de comparecer a alguns debates quando liderava com folga a corrida para a prefeitura. Acabou em terceiro, não chegando nem ao segundo turno. Em 2006, quando ainda alimentava esperanças de vencer em primeiro turno, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também deixou de comparecer ao último debate, da Rede Globo. Acabou tendo que enfrentar Geraldo Alckmin no segundo turno.

Neste ano, Russomanno chegou a cogitar ter a mesma estratégia enquanto liderava as pesquisas. Decidiu comparecer, mas também acabou na terceira colocação nas eleições. Uma das diferenças é que Crivella está no segundo turno e, sem ele, o debate não acontece. Mesmo assim, é difícil saber o que a população acha dessa fuga. A aposta do candidato é que ela passará despercebida. “Não aparecer no debate com certeza é negativo para o candidato, porque fica claro que ele está tentando fugir de um confronto. Mas como o Crivella tem uma vantagem significativa nas pesquisas, provavelmente essa negação não será o suficiente para que Freixo vire o jogo”, diz Francisco Almeida, analista político da consultoria Barral M Jorge.

Ao considerar a corrida como ganha, atitudes como a de Crivella significam a perda de uma oportunidade relevante de discutir os problemas da cidade e ajudar o eleitor indeciso. Exemplo de que o debate de ideias pode ser benéfico está em uma sabatina organizada pelo Jornal Extra na tarde de ontem. Em ato falho, Crivella respondeu uma pergunta defendendo que ele, “que é o próximo prefeito”, deveria ter recebido mais informações do atual ocupante do cargo, Eduardo Paes, a respeito das Olimpíadas. As pesquisas, até aqui, apontam que Crivella está certo. Vamos ver se a fuga dos debates fará essa tendência continuar – ou se o resultado será contrário ao esperado pelo candidato.