O Brasil pode vencer o populismo? Spoiler: eleição é chance para isso

Pleito de outubro será um dos principais testes para a democracia brasileira em décadas, mas pode levar política a novo nível

São Paulo — Depois da onda que levou lideranças consideradas populistas ao poder em diversos países nos últimos anos, é com atenção que analistas políticos acompanham as eleições de 2018 no Brasil. Vivendo seu mais longo período democrático da história, os brasileiros voltam às urnas flagelados pela pior crise política desde a redemocratização — fato que, na teoria, tornaria o país vulnerável a esse tipo de fenômeno.

Apesar das pesquisas de intenção de voto que apontam vantagem de candidatos alinhados ao perfil populista, é cedo para avaliar as reais chances de que uma proposta nesses termos vença o pleito de outubro. Mas é possível conter essa ameaça.

A eleição presidencial da França de 2017 é o caso mais emblemático nesse sentido. A estratégia que ajudou a conduzir Emmanuel Macron ao Palácio do Eliseu partiu do pressuposto de que, além de razões mais ou menos locais, a vitória recente de populistas é resultado de uma profunda desconexão entre a classe política e o eleitorado. “Se as pessoas se sentem desconectadas, prove a elas que você é capaz de ouvi-las”, afirma Guillaume Liegey, CEO da Liegey Muller Pons, empresa de estratégia política ligada à campanha de Macron.

Desde maio passado, Liegey veio três vezes ao Brasil para proferir palestras e apresentar seus serviços a potenciais clientes. Ele defende que o método, que une uma boa dose de tecnologia e interação pessoal com grupos-alvo, pode ser aplicado ao contexto brasileiro. (Leia: Para estrategista de Macron, Brasil pode ser laboratório contra populismo)

Um primeiro desafio é definir com exatidão o que é um fenômeno populista. Aplicado em diferentes momentos na história, o conceito, em alguma medida, esvaziou-se de sentido. Em sua encarnação atual, caracteriza-se como “um estilo de governo que é antissistema”, diz Malu Gatto, pesquisadora de Ciências Políticas da Universidade de Zurique, na Suíça. Em geral, trata-se de lideranças autocráticas e carismáticas que utilizam, com sucesso, ferramentas de comunicação para dar respostas simples a problemas complexos. São os clássicos salvadores da pátria.

Em uma cultura política altamente personalista como a do Brasil, sobra campo para a ascensão de políticos com um perfil messiânico moldado em torno dessas características. Uma pesquisa exclusiva da consultoria Ideia Big Data, feita a pedido de EXAME, mostra que metade dos brasileiros estariam dispostos a abrir mão da independência de instituições como o Supremo Tribunal Federal, o Congresso Nacional e a imprensa em favor de um “presidente capaz de resolver os problemas do Brasil”. (Leia: No Brasil, 52% trocariam instituições fortes por um salvador da pátria)

Apesar de a outra metade ser refratária à ideia e 88% admitirem que a democracia é o melhor sistema de governo, a pesquisa traz um alerta. “Isso revela uma falta de memória sobre a herança negativa do Regime Militar e a desmoralização das instituições já existentes. As pessoas não estão vendo hoje instituições fortes e independentes”, afirma o jurista Rubens Ricupero, que foi ministro da Fazenda durante a implantação do Plano Real.  

Guardados os devidos contextos, esse fenômeno ecoa as condições que viabilizaram a eleição de Hugo Chávez na Venezuela em 1999. “Havia partidos políticos sem credibilidade, um sistema infestado de corrupção e impunidade, e uma crise econômica produzida pelo valor do barril de petróleo a 7 dólares”, afirmou o empresário Miguel Otero, CEO do Jornal Venezuelano El Nacional, no 31º Fórum da Liberdade no início de abril em Porto Alegre (RS).

Segundo especialistas ouvidos por EXAME, até certo ponto, o nosso desenho institucional mitigaria ameaças dessa natureza. A começar pela distribuição do tempo de campanha na TV e dos recursos do fundo eleitoral, que são calculados a partir do tamanho das bancadas no Congresso.

Mesmo que um eventual político autocrata consiga superar essas travas e seja eleito, a governabilidade seria, então, o mais duro desafio. “Não é fácil conquistar maioria no Brasil”, diz Francisco Weffort, professor emérito da Universidade de São Paulo e autor do livro O populismo na política brasileira.

Isso não significa que o país esteja blindado contra a ameaça. “O populismo é uma possibilidade permanente em uma democracia representativa, não há uma vitória final contra isso, afirma o psiquiatra e ensaísta britânico Anthony Daniels, mais conhecido pelo pseudônimo de Theodore Dalrymple.

Na visão dele, uma boa parte das pessoas sempre vai se encantar com soluções mais simplistas. “É uma tendência humana não pensar de maneira muito profunda. É o que o economista francês Fréderic Bastiat descreve: diante do que é visto e do que não é visto, muitos não fazem o menor esforço para ver o que não é visto”, diz.

A questão, portanto, vai além de derrotar a ameaça populista que emerge em eleições a cada quatro anos. O ponto é atacar as causas que levam a esse fenômeno: no caso brasileiro, além do descrédito da classe política, a desigualdade de renda e, mais recentemente, a questão da segurança pública.

Ambos os problemas apontam para um vetor: a ineficiência do Estado brasileiro. Não por acaso, o índice de insatisfação dos paulistanos com os partidos políticos tende a ser mais intenso nas áreas periféricas da cidade – regiões que historicamente convivem com a omissão dos governos, segundo análise da consultoria Liegey Muller Pons [veja mapa].

“À medida que não há margem fiscal para que a preferência eleitoral vire gestão governamental, o eleitor começa a correr para os extremos”, diz o cientista político Francisco Tavares, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Independentemente de sua plataforma eleitoral, o próximo presidente terá uma lista de problemas fiscais para resolver sob o risco de entregar um Estado ainda mais insolvente no futuro — o que, em tese, fortaleceria a ameaça populista. “Fazer a arquitetura de um novo modelo de economia política, torná-la mais competitiva e aberta ao mundo, é a coisa mais importante para o Brasil hoje”, afirma Marcos Troyjo, diretor do BRICLab da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos.

É certo que parte das medidas consideradas urgentes pelo mercado não agrada a um grupo significativo da população. Nesse ponto, a estratégia de Macron vale novamente como inspiração.

Aproximar-se da realidade do eleitor vale para além da campanha eleitoral. É essa medida que possibilitará que políticos e sociedade firmem um pacto por um Brasil mais eficiente e uma democracia consolidada. Assim, apesar dos riscos, as eleições de 2018 abrem uma janela de oportunidade para, quem sabe, o fim de uma era de crises políticas no país.