Com 1,6 mil casos, Brasil luta para evitar novo surto de sarampo

A campanha de vacinação contra a doença se encerra nesta sexta-feira. Segundo o Ministério da Saúde, meta de imunização está próxima de ser atingida

São Paulo — O governo federal enfrenta um novo desafio em relação à saúde pública dos brasileiros: a ameaça de um novo surto de sarampo no país. Nesta semana, o Ministério da Saúde divulgou que já foram confirmados 1,6 mil casos da doença viral. Outros 7 mil ainda estão em investigação, segundo o órgão. 

A infecção, causada por um vírus altamente contagioso, havia sido considerada erradicada no Brasil em 2016 pela Organização Mundial da Saúde (OMS). 

Nesta nova incidência, os estados que concentram o maior número de casos são Amazonas, com 1,3 mil pessoas infectadas, e Roraima, que registrou 301 ocorrências. Até o momento, as duas regiões foram as únicas que reportaram mortes em decorrência do sarampo, com quatro vítimas em cada estado.

Outras regiões também estão em alerta para o avanço da doença. São Paulo, Rondônia e Pará registraram, cada um, dois casos. Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul têm 18. Já Pernambuco notificou quatro incidências da infecção.

De acordo com o Ministério da Saúde, todos os casos investigados estão relacionados à importação. “O vírus D8, que está circulando no país, é o mesmo que existe na Venezuela, país que enfrenta um surto da doença desde 2017”,  informou o órgão em nota.

Para reverter esse cenário, a instituição de saúde realiza uma intensa campanha de vacinação em todo o Brasil. Crianças entre um e cinco anos são o público-alvo da iniciativa, que termina nesta sexta-feira (14).

Dados preliminares sinalizam que a meta de imunizar 95% da população está próxima de ser atingida. O Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunização (SI-PNI), alimentado pelos próprios estados, indica que a média nacional de vacinação para sarampo está em 93,20%. “Mais de 4 mil (72%) municípios do país cumpriram a meta”, diz a nota.

Para Cláudio Maierovitch, médico sanitarista da Fiocruz e ex-presidente da Anvisa, o afrouxamento das políticas de controle do sarampo é o principal motivo para o reaparecimento da doença.

“Quando os casos de alguma doença diminuem e quase desaparecem pelas políticas de vacinação, as pessoas param de ouvir falar sobre elas, acham que não precisam se preocupar mais. A população faz isso e até os profissionais de saúde fazem. Quando isso ocorre, vem o afrouxamento no combate e o alerta diminui. Logo, a doença volta”, explicou o especialista durante o EXAME Fórum Saúde, que aconteceu na última quarta-feira (12).

Entenda o sarampo

Altamente contagiosa, a doença é transmitida de um indivíduo a o outro de forma direta, por meio de secreções, em situações como tosse, espirro e beijo.

Dentre os sintomas do sarampo estão febre alta, dor de cabeça, manchas vermelhas que se espalham pelo corpo, tosse, coriza, conjuntivite e infecção no ouvido. Para crianças, a doença é mais agressiva, já que elas têm o sistema imunológico mais frágil.

Não existe um tratamento específico para quem contrai o sarampo. O Ministério da Saúde recomenda administração de vitamina A em crianças, para reduzir a ocorrência de casos graves e fatais. Outros sintomas devem ser tratados de acordo com os procedimentos indicados.

Vacinação

A maneira mais eficaz de combater o sarampo é por meio de vacinação. Crianças entre um e cinco anos devem tomar uma dose aos 12 meses (tríplice viral) e outra aos 15 meses (tetra viral).

Quem tem até nove anos e não tomou as doses anteriormente deve receber duas doses da vacina tríplice. Já quem tem entre 10 e 29 anos precisa tomar duas doses. De 30 a 49 anos, a indicação é de apenas uma dose.

A imunização não precisa ser feita mais de uma vez ao decorrer da vida. Para confirmar o organismo já está imune à doença, é possível realizar um exame de sangue específico.

Não devem ser vacinadas pessoas em que haja suspeita de sarampo, gestantes, menores de 6 meses e imunocomprometidos.

Doença estava erradicada

A luta para erradicar o sarampo no Brasil começou na década de 60, de acordo com o governo federal. Na época, os estados enfrentavam epidemias da doença a cada dois ou três anos. A vacina passou a ser oferecida nacionalmente nessa época.

Durante alguns anos, no entanto, a imunização não foi realizada de forma contínua. Só em 1973 foi criado o Programa Nacional de Imunizações (PNI).

Na década de 80, o governo enfrentava dificuldades para atingir as coberturas vacinais mínimas para controlar a propagação. Em 1986 o país registrou uma epidemia violenta, com 129 mil casos do vírus.

Para eliminar a doença, o Brasil implantou o Plano Nacional de Eliminação do Sarampo, em 1992. As ações realizadas foram eficazes e, em 2016, o país recebeu o certificado de eliminação do vírus.