Choque na educação: os pesquisadores que perderam as bolsas da Capes

Quatro estudantes contam a EXAME sobre o sentimento de impotência e as decisões para o futuro na pós-graduação

São Paulo — Tristeza, impotência e luto foram os sentimentos que se repetiram nos alunos de pós-graduação de universidades brasileiras, ouvidos pela reportagem, que tiveram suas bolsas de ensino suspensas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

A fundação de promoção à pesquisa científica no país, vinculada ao Ministério da Educação, anunciou nesta semana o corte de 3.474 bolsas de estudo para estudantes de mestrado, doutorado e pós-doutorado.

A princípio seriam 4.698, mas o governo voltou atrás e disse que reabriria 1.224 bolsas de cursos com conceitos 6 e 7 — os mais prestigiados pela avaliação da Capes. A estimativa do órgão é que as suspensões tragam uma economia de 50 milhões de reais por ano.

“Eles dizem que é um corte temporário, mas não consideram que uma pesquisa que fica paralisada por alguns meses, quase nunca ela consegue voltar daqui um ano. O governo erra muito ao enxergar a educação e a ciência como um gasto e não como um investimento”, diz Flávia Calé, presidente da Associação Nacional de Pós-Graduando (ANPG).

Segundo a Capes, os cortes seriam apenas para bolsas “ociosas”, que são aquelas que estão abertas, mas que não há nenhum pesquisador para receber.

No entanto, a justificativa é falha. Atualmente, há 300 mil pós graduandos no Brasil, de acordo com estimativa da ANPG, mas metade deles não recebe nenhum auxílio para desenvolver a pesquisa — ou seja, há um déficit de verba para os pesquisadores.

Entre os pesquisadores há uma rotatividade de quem será contemplado pela bolsa. Quando um deles está próximo de concluir a pós-graduação, seu sucessor já é escolhido.

Para que esse processo aconteça, pode haver um intervalo de semanas e meses, por isso, a bolsa não está ociosas. No entanto, o sistema da Capes pode ter considerado que a bolsa não estava sendo utilizada e, por isso, era passível de cancelamento

“É desesperador ver o governo fazendo chantagem com os investimentos universitários dizendo que isso acaba quando a reforma da Previdência for aprovada. O ensino superior vem sofrendo cortes há anos, agora está insustentável”, conclui Calé.

Para compreender a realidade dos pesquisadores, EXAME ouviu quatro histórias de quem não conseguirá seguir com a pós-graduação e agora tentam encontrar alternativas para o sustento.

“Eles nos chamam de drogados e eu pesquiso como retardar o acesso a drogas de adolescentes”, Valdemir Ferreira Júnior

“Depois que me formei em biologia pela UNESP, de Botucatu, eu comecei a buscar pós-graduação para seguir na carreira de pesquisador. Consegui, com muito esforço, entrar no Programa de Psiquiatria e Psicologia Médica da Unifesp, onde hoje faço parte de um grupo que estuda a prevenção de uso de drogas com os adolescentes.

Quando consegui a vaga no programa, eu submeti meu projeto no programa de bolsas, porque vim de uma situação familiar onde eu preciso do dinheiro para fazer a minha pesquisa. Nessa semana, eu recebi a notícia de que havia sido contemplado pela Capes, mas no mesmo e-mail já havia a informação de que eu não receberia a verba. Eu fiquei muito chocado, porque até onde o governo havia dito, seriam cortes de bolsas ociosas, que não é o caso dessa. Atualmente eu tenho uma bolsa do Ministério da Saúde que termina no final do ano e a intenção é que eu tivesse mais dois anos de pesquisa, com o mestrado.

Como meu projeto visita mais de 30 escolas de São Paulo, ele exige dedicação exclusiva. São 3.800 crianças entrevistadas para entender como o acesso a drogas e álcool se dá na juventude. Como estou em São Paulo eu ainda vou tentar a FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), mas é muito mais rígido e concorrido.

Se eu não conseguir, não terei como morar aqui. Mesmo com a bolsa, que é de 1.500 reais, eu já teria dificuldades. Imagina sem ela. Não dá para trabalhar, porque fora a pesquisa de campo você precisa entregar análise, planejar o dia seguinte, entregar relatórios, dissertação, banco de dados e, ainda, ir às aulas. As pessoas falam que universitário usa droga e bebe muito, mas a minha pesquisa é justamente para prevenir que isso aconteça”.

“Estou trabalhando em formatura como garçonete e vendendo lingerie. Faço o que posso. A sensação é que eu nadei e nadei e morri na praia”, Bruna Garcia

“Eu fui a primeira da família a entrar em uma federal. Meus avós são analfabetos, meu pai não terminou nem o ensino médio. Minha mãe só foi finalizar o dela quando eu já estava formada na faculdade.

Mas minha mãe sempre lutou para que eu estudasse e consegui entrar na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), em nutrição. A faculdade está inserida no Vale do Jequitinhonha, que é uma das regiões mais pobres do Brasil. O impacto que ela tem na região e na vida das pessoas é tão intenso que não dá para mensurar. Como é um lugar pobre, a universidade auxilia o município com atendimento odontológico, atendimento médico, nutrição, entre outras pesquisas que são desenvolvidas aqui e devolvidas para a sociedade. É muito esforço, muita dificuldade e limitações.

Eu faço pesquisa com obesidade, desde a faculdade, e isso é muito relevante para a saúde pública do país. No meu caso, eu consegui bolsa durante o curso, porque minha família não tinha nenhuma condição, então eu recebia 600 reais. Com o mestrado, o dinheiro aumentou para 1.500 reais. E agora, eu não sei mais como vai ficar. Eu já estava na fila para ser contemplada com a bolsa do doutorado, mas estou há seis meses esperando.

Infelizmente, as pessoas não têm noção do quanto a gente trabalha na pós-graduação. Estudamos sem horário para entrar nem para sair, você não dorme direito, não come. Se dedica à pesquisa. A fazer uma diferença no mundo. Hoje somos onze doutorandos sem bolsa.

Sem o dinheiro, eu comecei a atender em consultório, mas desde novembro consegui fazer consulta com doze pacientes e nem todos voltaram. Minha mãe está me ajudando, mas não consigo mais viver nessa situação. Estou trabalhando em formatura como garçonete e vendendo lingerie. Faço o que posso. A sensação é que eu nadei e nadei e morri na praia. Aos 26 anos, eu trabalhei muito com pesquisa e agora não consigo me sustentar com ela.

Com essa situação da Capes, o sentimento que fica é o de tristeza, não é só por mim, mas por todos os colegas que virão, que chegam aqui e têm essas oportunidades, mas não conseguem se manter na faculdade”.

“Ser pesquisadora era um sonho pessoal, que eu lutei anos por isso e agora preciso desistir. Quem não tem família para ajudar e dar suporte financeiro não tem como se manter nesse ambiente”, Letícia Takahashi

“Estou com o a carta de desistência assinada, sem coragem de entregar no programa de pós-graduação de química da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). Eu estou há meses tentando conseguir uma das bolsas, mas ela foi cortada e, agora, não consigo mais manter um trabalho e a pesquisa.

No começo até fiz um esforço, trabalhando como servidora no Estado, com carga horária reduzida. Mas imagina, em uma pesquisa de química onde as reações no laboratório levam 12 horas, às vezes 24 horas para serem analisadas. Como você faz tantas coisas ao mesmo tempo? É impossível. Mas agora, sem bolsa, eu precisei trancar. Não tenho família para me ajudar, sou sozinha.

É muito difícil descrever o sentimento. É impotência, dor, raiva, luto e revolta. Saber que meu caso não é isolado, que tem mais gente nessa situação, também machuca. Ser pesquisadora era um sonho pessoal, que eu lutei anos por isso e agora preciso desistir. Quem não tem família para ajudar e dar suporte financeiro não tem como se manter nesse ambiente. O cenário é indescritível, de tristeza total”.

“Escolhi deixar para começar o pós-doutorado no segundo semestre e agora perdi a bolsa”, Juliana Doretto

“Sou formada em jornalismo, mas durante minha experiência em redação eu percebi que o jornalismo não sabe se conectar com as crianças. Esse, então, é meu objeto de pesquisa há anos. Fiz mestrado na Universidade de São Paulo com auxílio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ). No doutorado, como não havia nenhum programa para me orientar, fui para Portugal e consegui ficar lá por dois anos, com auxílio do governo brasileiro.

Quando eu voltei até consegui trabalhar em um programa de mestrado, mas ele fechou e eu fui demitida. Sem emprego, decidi fazer pós-doutorado para encerrar o ciclo dessa pesquisa e lecionar em universidades. Vi um edital da Escola Superior de Propaganda e Marketing, em um programa de comunicação infantil. Na mesma época, abriu o processo da Capes, chamado Programa Nacional de Pós Doutorado. Eu me inscrevi e fui contemplada. Era uma bolsa para seis concorrentes.

Recebi a notícia no primeiro semestre, mas como eu estava terminando alguns projetos, eu escolhi deixar para começar a receber o dinheiro em agosto. A Capes foi avisada e consentiu com a minha escolha, há e-mails comprovando isso. Mas na sexta-feira passada eu fui conversar lá e quando a funcionária da Capes abriu o sistema para consultar, minha bolsa tinha sumido. É um absurdo como o processo foi feito, essa bolsa não estava ociosa. Se fosse necessário eu até começava a pesquisar antes, não tinha problema.

Agora, no pós-doutorado eu começaria a estudar a aplicabilidade do jornalismo em crianças migrantes no Brasil, para começar a orientar as redações, em como fazer essa cobertura. É um assunto necessário para a democracia. Quem me formou como pesquisadora foi o Estado, ele me garantiu estudar. Eu sou jornalista, mas minha formação é de pesquisadora, mas o Estado me deu um dinheiro gigantesco que agora não voltará para ele, porque eu não consigo terminar minha pesquisa”.