Cemitério de Brumadinho intensifica trabalho para receber vítimas

Desde que a barragem se rompeu, na última sexta-feira, 98 covas foram abertas no cemitério Parque das Rosas

Três homens cavam túmulos sob o sol forte em Córrego do Feijão. É necessário fazer isso o quanto antes. Atrás deles, helicópteros não param de ir e vir, recuperando os cadáveres que retiram das profundezas da lama.

O sol começou a devolver os mortos da tragédia que devastou o coração mineiro do Brasil. Já há 65 mortes declaradas, além dos 288 desaparecidos na enxurrada de lama provocada pelo rompimento da barragem em Brumadinho, Minas Gerais.

Desde que a tragédia ocorreu, 98 covas foram abertas no cemitério Parque das Rosas. A prefeitura enviou seus trabalhadores de outros setores para ajudar no local, que, no dia a dia, conta com dois coveiros.

Somente em um pequeno distrito rural do município morreram cerca de 20 pessoas, principalmente trabalhadores da Vale e empresas terceirizadas.

Como muitos de seus amigos, Cleyton Candido encontrou emprego em uma dessas empresas aos 16 anos de idade.

Ele era mecânico e trabalhou até os 25 na empresa que ficava na área administrativa que foi devastada na sexta-feira pelo tsunami de lama que sucedeu o rompimento da barragem. Estima-se que a maioria dos trabalhadores no local tenha morrido.

O barro levou tudo, incluindo seu sobrinho e vários amigos dos quais ele não tem notícias desde então.

“Estou vivendo um filme de terror, não esperava isso nunca na minha vida. Meus amigos, tudo… Gente que foi criada junto. Para mim está muito difícil, não sei como a gente vai superar”, comenta na entrada da casa onde cresceu, ao lado do cemitério.

Sua varanda com vista para o horror levou-o a começar a cavar túmulos.

Difícil olhar para outro lado quando, logo em frente, a igreja modesta se torna o centro de comando das equipes de resgate. Lá, os helicópteros pousam com os corpos pendurados nas redes pretas.

O plástico que os cobre permite ver suas formas manchadas de lama e embrulha o estômago daqueles que os veem chegar sob um sol que, por fim, traz algum alento a centenas de famílias nesta região de alma mineradora.

Desolação e raiva

A imagem a um pouco mais de um quilômetro de distância é apocalíptica. Um mar de lama devastou tudo em seu caminho e apenas uma vaca sobreviveu ao caos.

Outros animais não tiveram tanta sorte e foram sacrificados, de acordo com as equipes de resgate, para evitar mais sofrimento.

Coberta de barro, a vaca foi resgatada por uma dezena de bombeiros que também tentavam chegar a um ônibus soterrado com vários trabalhadores dentro. Mas a lama ainda está muito líquida.

Um passo em falso submerge a perna em uma massa marrom viscosa cuja toxicidade ainda não é conhecida. O sol aumenta o horror e o forte cheiro dos corpos a recuperar, mas é também o melhor aliado do resgate, como indica o tenente-coronel Eduardo Ângelo Gomes, comandante do batalhão de emergência ambiental.

“A lama estava muito fluidificada, mas à medida que passa o tempo, vai evaporando, o sedimento vai descendo e o corpo vai aflorando”, detalha o oficial para explicar o ritmo lento de recuperação dos cadáveres, espalhados ao longo de 10 quilômetros.

Essa lentidão atormentava ainda mais os familiares que começavam o dia em Brumadinho – por onde passa um rio de lama -, desesperados pela falta de notícias e de resultados dos bombeiros.

José Ferreira da Silva, um trabalhador de 55 anos, tentou ir sozinho em busca de seu filho Josué, um trabalhador terceirizado da Vale, de 27 anos.

“Sou do campo e tenho experiência. Não estamos aqui para nos suicidar, mas poderíamos tentar fazer algo. Nós, familiares, estamos desesperados”, contou, tentando conter as lágrimas.

Essa mesmo dor é compartilhada por Nathanael de Jesus Bispo, um jovem de 21 anos que procura seu pai, seu primo e cinco amigos.

No caso dele, a dor se transformou em raiva diante da evidência de que o pesadelo se repetiu apenas três anos depois de Mariana, cenário da pior catástrofe ambiental da história do país, a cerca de 100 quilômetros de Córrego.

“O presidente da Vale sabia do risco, mas não é um parente dele que estava lá dentro. Eles usam esses trabalhadores, meu pai, como algo descartável, como aconteceu em Mariana há três anos”, afirma Nathanael com lágrimas de indignação.

“Meu pai só entrará nas estatísticas e daqui a três ou quatro anos isso se repetirá, porque quem comanda o ser humano é o dinheiro”, conclui.