Casa de saúde estuda processar governo do Rio

Diretoria estuda processar o governo devido à ação da Polícia Militar durante a manifestação promovida anteontem

Rio – A diretoria da Casa de Saúde Pinheiro Machado, situada em frente ao Palácio Guanabara, sede do governo do Estado do Rio, em Laranjeiras (zona sul), estuda processar o governo do Estado devido à ação da Polícia Militar durante a manifestação promovida anteontem à noite no bairro. Durante confrontos que começaram quando manifestantes lançaram rojões contra os policiais, cerca de 40 agentes da Tropa de Choque invadiram a clínica para buscar ativistas que se refugiavam no local. Segundo diretores médicos, os policiais lançaram bombas de gás no corredor da emergência do hospital.

“Faltou bom senso. Jogaram bombas de gás, e dezenas de policiais entraram e retiraram manifestantes que estavam no banheiro”, disse o diretor médico, Zoel Lima Salim. Havia 60 pessoas internadas, entre elas Pedro Lins, de 27 anos. Atingido na cabeça por bala de borracha, ele sofreu traumatismo craniano e está no Centro de Terapia Intensiva. Segundo boletim médico, está lúcido e não corre risco de vida. Outros 10 ativistas foram atendidos com escoriações.

Policiais também impediram que uma ambulância que levava uma mulher com problemas cardíacos chegasse à clínica, segundo denunciou o marido dela, Severino Ramos da Silva. “Os policiais foram muito agressivos, não havia necessidade. Ela só foi atendida às 2 da madrugada. Vou processar o Estado.”

A confusão começou às 20 horas desta sexta-feira. Um grupo que havia se concentrado no Largo do Machado seguiu a pé até o Palácio Guanabara, onde pedia a renúncia de Cabral. Policiais postados em linha na frente do imóvel, atrás de grades, usavam megafone para dizer que apoiavam a manifestação pacífica e pedir que vândalos fossem denunciados. Os cerca de 800 manifestantes vaiavam. Quando rojões atingiram os policiais, eles partiram para dispersar a multidão com bombas de gás e tiros de bala de borracha. Enquanto fugiam por ruas próximas, manifestantes destruíram lixeiras, orelhões, bancas de jornal e quebraram o vidro de um carro. Em motos, policiais da Tropa de Choque perseguiram os ativistas por vários quarteirões, atirando e lançando bombas de gás.

Moradores de Laranjeiras e do Flamengo, bairro vizinho, sofreram com as bombas lançadas pela PM. Uma delas chegou à cozinha do apartamento do jornalista Carlos Macedo, próximo à Praça São Salvador, que foi cercada pela polícia. Ele mora no terceiro andar e não entende como o artefato chegou lá. “Estava vendo TV no quarto quando ouvi o barulho da explosão e vi a fumaça. Foi um desespero. Você jamais imagina que alguém vá jogar isso para cima.”

No centro, a confusão entre manifestantes e policiais deixou um rastro de destruição pelas avenidas Almirante Barroso e Chile. Placas de identificação das vias foram arrancadas, seis pontos de ônibus tiveram vidros quebrados, a fachada de uma agência bancária foi destruída e uma cabine de despachante de empresa de ônibus, incendiada.

No Amarelinho, tradicional bar da Cinelândia, clientes ficaram quase três horas trancados depois que PMs lançaram uma bomba de gás lacrimogêneo perto das mesas. Houve correria e os clientes se refugiaram nos fundos do bar. Ao longo desses protestos, 49 pessoas foram detidas. Só três ficaram presas, mas foram soltas ainda ontem, com habeas corpus. Na zona sul, 23 manifestantes foram detidos, mas só 8 foram autuados e liberados. Desde o início das manifestações, 53 pessoas foram presas, todas em flagrante. A polícia identificou e pediu a prisão preventiva de oito pessoas, mas a Justiça só determinou a de Arthur Nunes, por dano ao patrimônio. Ele é considerado foragido.