Candidatos trocam ofensas e acusações em debate no RJ

"Sabe o que caracteriza o mentiroso profissional? É acreditar na própria mentira", Tarcísio Motta (PSOL) atacou Anthony Garotinho (PR)

Rio de Janeiro – Os cinco primeiros colocados na disputa pelo governo do Rio de Janeiro partiram para o confronto aberto no debate promovido pela Rede TV e pelo site IG e encerrado na madrugada desta quarta-feira, 3.

Acusações de ligação com milícias e jogo sujo eleitoral, ataques envolvendo o ex-governador Sérgio Cabral Filho (PMDB), críticas por favorecimentos a empreiteiras e concessionárias de serviços públicos e expressões como “governo elitista, antipovo, discriminatório” e “coronelismo disfarçado de assistencialismo” marcaram o enfrentamento.

Até Tarcísio Motta (do PSOL), com apenas 3% na última pesquisa Ibope, virou alvo. Teve de defender seu partido por causa das acusações contra a deputada de seu partido Janira Rocha na Assembleia Legislativa por supostamente desviar parte do salário de servidores.

No primeiro bloco, no qual os candidatos perguntavam uns aos outros, foi Lindbergh Farias (PT) que disparou o primeiro “tiro”. Perguntou a Luiz Fernando Pezão (PMDB) por que estaria escondendo seu passado de ex-auxiliar de Anthony Garotinho (PR) no governo e o fato de ter sido indicado por ele vice de Cabral.

Seguiu-se, entre resposta, réplica e tréplica, uma ríspida troca de ataques. Pezão disse se orgulhar de sua trajetória.

“O senhor deixou a prefeitura (de Nova Iguaçu que Lindbergh governou) com cinco anos de mandato para concorrer ao Senado”, afirmou, lamentando que o adversário levantasse a questão, em lugar de discutir problemas do estado.

“Me desculpe, mas o eleitor tem o direito de saber a sua trajetória. O senhor esconde sua participação no governo Cabral, esconde Cabral no seu programa de TV”, retorquiu Lindbergh. Ele afirmou que os nomes da política são os mesmos, citando Cabral e o ex-prefeito Cesar Maia (DEM). “Lamentável. O senhor teve todo apoio dessas pessoas que relacionou”, afirmou Pezão ao senador. O candidato do PMDB disse ainda que Lindbergh se elegeu senador sem conhecer o estado e sem conhecer Nova Iguaçu.

Mesmo o cordato senador Marcelo Crivella (PRB) entrou no clima de confronto. Primeiro, acusou a “candidatura oficial” (Pezão) de ser financiada por empresas de ônibus (o peemedebista nada disse). Depois, em parceria com Lindbergh, perguntou ao petista, que é paraibano, o que achava de um programa que supostamente teria atacado nordestinos. Lindbergh disse que o ataque ocorreu em um programa de rádio de Pezão, com suposto deboche contra os oriundos do Nordeste, zombando de seu sotaque.

“Sou nordestino com muito orgulho”, afirmou. Ele também denunciou uma “campanha sórdida”, em que uma central telefônica, a pretexto de fazer uma pesquisa, atacava ele e Crivella. “Nunca vi uma campanha como esta no estado do Rio de Janeiro”, disse o senador.

Chegou a sugerir que Pezão falasse do programa sobre nordestinos, mas o candidato do PMDB, de novo, ficou quieto.

Garotinho

Tarcísio Motta (PSOL) acusou Garotinho e sua mulher Rosinha Garotinho, quando governadores, de terem negado direitos aos moradores da Maré, onde recentemente a Justiça Eleitoral apreendeu material de campanha de Garotinho e formulários de Cheque Cidadão.

“Você não acha isso uma afronta à democracia?”, perguntou o candidato do PSOL. Garotinho negou responsabilidade no caso e lembrou que o programa Cheque Cidadão foi encerrado há sete anos, pelo governo Cabral.

Motta respondeu com sarcasmo. “Sabe o que caracteriza o mentiroso profissional? É acreditar na própria mentira”, atacou. Garotinho respondeu de forma parecida.

“Sabe qual é o pior político? É aquele que esquece de olhar os seus próprios defeitos”, atacou. “Quem vê o Tarcísio falando, pensa que o PSOL é uma santidade. Esquece, por exemplo, que a deputada Janira, colega dele do PSOL, está na Comissão de Ética respondendo por desvio de verba dos seus próprios funcionários de gabinete. Esquece que o prefeito pior avaliado do estado, que saiu corrido da prefeitura e foi pedir ajuda para não ser cassado, é o prefeito de Itaocara, único prefeito do PSOL do estado do Rio de Janeiro. Então, o Tarcísio fala como se fosse um santo, uma pessoa pura, como se no partido dele só houvesse anjinhos. Tarcísio, falar é diferente de governar. Um dia você vai ter essa experiência.”

Fracasso

Em um duro ataque, Pezão acusou Lindbergh de ter fracassado na saúde. “Lamentável, senador. Ninguém nascia em Nova Iguaçu. A maternidade foi fechada. É lamentável que em cinco anos de governo o senhor tenha tido cinco secretários de saúde, aumentando a dívida do Hospital da Posse em três vezes”, criticou. O senador acusou o adversário de não falar a verdade.

“Queria ter oportunidade de perguntar ao senhor o que foi feito da Região Serrana. O senhor ontem teve um papel lamentável no programa de televisão, tentando se aproveitar daquele drama da recuperação da Região Serrana, quando na verdade a situação lá é de abandono, de descaso.”

Mais adiante, Lindbergh disse que as candidaturas de Garotinho e Pezão são a velha política dos últimos 16 anos. “Se não quiser votar em mim, olhe para o Tarcísio, olhe para o senador Crivella”, disse, dirigindo-se aos telespectadores.

“Quanto ao candidato Pezão, que foi agressivo aqui na pergunta anterior, devo dizer uma coisa para ele: ele é o grande representante das empreiteiras neste estado do Rio de Janeiro. Se a gente fala da Delta, eu me pergunto por que a imprensa não faz essas perguntas ao candidato Pezão, da sua relação com a empreiteira Delta e com outras empreiteiras envolvidas em vários escândalos.”

Os confrontos ásperos não aconteceram apenas nos dois blocos nos quais candidatos perguntavam para candidatos. Também houve trocas de ataques em outras duas partes do programa, nas quais os postulantes ao governo do Rio respondiam a perguntas de jornalistas.

Um desses enfrentamentos aconteceu depois que o jornalista Tales Faria, do IG, referindo-se a proposta de Garotinho de liberar o transporte alternativo, perguntou – para comentários de Pezão – se não temia ressuscitar a farra das milícias no estado.

Milícia

“Existe gente boa e gente ruim em todas as atividades”, disse Garotinho. ” A van vai aonde o ônibus não vai, entra na comunidade. Então, precisamos parar com este lobby dos empresários de ônibus. Tem miliciano que dirige van? Pode ter. Agora, quem é mais nocivo à sociedade: o miliciano que dirige van ou o deputado que tem conta na Suíça e até poucos dias era secretário da prefeitura do Rio de Janeiro, do PMDB? Quem é mais nocivo à sociedade, quem pega o dinheiro público e vai dançar na boquinha da garrafa com guardanapo na cabeça em Paris ou o pobre trabalhador que dirige van?”.

Ele se referia, sem citá-lo nominalmente, ao deputado e ex-secretário Rodrigo Bethlem (PMDB) e à viagem de Cabral a Paris, que gerou fotos de secretários em uma festa.

Em seu comentário, Pezão foi duro. “A ligação da milícia com o ex-governador foi notória, o que fez com que milicianos fossem presos, mais de 600 presos”, disse.

“Em nosso governo, legalizamos 640 vans intermunicipais, que participam do Bilhete Único, são registradas no Bilhete Único. O prefeito Eduardo Paes, dentro da cidade do Rio, legalizou 3500 vans, ainda vai abrir edital pra mais vans.”

Garotinho respondeu com ironia. “Ele dizer que a minha participação, que a minha ligação com as milícias é notória… Acho que ele está com amnésia. Ele era secretário de Governo da Rosinha. Só se o pessoal se reunia lá na Secretaria de Governo por ele e eu não sabia. Pode ser…O gabinete era perto do meu… Mas eu não sabia todo mundo que ia lá se reunir com você. Pode ser que a turma da milícia se reunia com você. Porque a turma da banda podre da polícia quem botou para fora fui eu. E depois foram reintegrados pela Justiça. Vamos parar com isso… Isso é perseguição, isso é lobby do Pezão e de boa parte da imprensa do Rio de Janeiro, que é bancada pelos empresários de ônibus. Isso é lobby do seu Jacob Barata. Isso é lobby da Fetranspor (federação de empresas de ônibus). Isso é que tem que acabar no Rio de Janeiro”, atacou.

Já Lindbergh aproveitou uma pergunta do jornalista Fernando Molica, do jornal “O Dia”, sobre um rombo atuarial no fundo previdenciário de Nova Iguaçu na época em que o senador era prefeito – sob investigação – para atacar Garotinho e Pezão.

“Não é um rombo, é uma dívida da prefeitura, 75% feita pelo prefeito anterior, que não pagava a contribuição patronal”, disse. “Agora, tenho uma oportunidade para falar sobre processos. Até hoje, tudo que foi analisado pelo Supremo Tribunal Federal foi arquivado, tudo. Tudo arquivado. E vai ser tudo arquivado. Situação completamente diferente dos meus dois adversários. O candidato Garotinho foi condenado junto com o ex-chefe da Polícia Álvaro Lins, e o candidato Pezão, que inclusive a imprensa do Rio de Janeiro não toca nesse ponto. Ele foi condenado por superfaturamento de ambulâncias. E onde há processo em cima da máfia dos sanguessugas. Sou ficha limpa, ao contrário dos meus adversários.”

Turismo gay

Depois que Tales Faria lhe fez uma pergunta sobre turismo gay, Crivella, que é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, negou ser preconceituoso e pareceu irritar-se.

“É (sic) só esses assuntos que vocês tocam comigo. Só religião e homossexualismo. Não veem os mais de 400 projetos que apresentei. Isso sim é preconceito”, atacou, arrancando aplausos de assessores. Ele afirmou ter sido discriminado na infância por ser evangélico e prometeu respeitar “a religião e a opção sexual” das pessoas.

No bloco final, Tarcísio Motta continuou atacando. Ele disse que os confrontos protagonizados pelos adversários os fizeram lembrar-se do poema “Quadrilha” de Carlos Drummond de Andrade.