Brumadinho: com medo da barragem, ex-funcionário pediu para sair

“Eu sentia medo todos os dias, da hora que chegava à hora que ia para casa", conta Silas Fialho, que trabalhou na mina entre 2013 e 2016.

Brumadinho (MG) – A segurança da barragem da mineradora Vale que desabou em Brumadinho (MG) era motivo de apreensão para moradores.

Uma pessoa que trabalhou no local pediu para sair por não confiar na estrutura, que foi construída nos anos 1970, usando uma tecnologia hoje considerada menos segura e mais propensa a acidentes.

O assistente administrativo Silas Fialho, de 34 anos, conta que trabalhou como balanceiro na mina do Córrego do Feijão entre 2013 e 2016.

“Eu sentia medo todos os dias, da hora que chegava à hora que ia para casa. Pedi para me demitirem por esse motivo, muita gente sabia do risco. Deu tempo de ficar vivo”, diz. Morador de Brumadinho, Fialho perdeu um primo no desastre.

O risco de a barragem do Córrego do Feijão desabar foi citado em reunião extraordinária da Câmara de Atividades Minerárias, da Secretaria do Meio Ambiente de Minas Gerais, realizada no dia 11 de dezembro de 2018.

Na reunião, o órgão aprovou de forma acelerada a ampliação das atividades do complexo Paraopeba, que inclui a mina do Córrego do Feijão.

O representante do Ibama, Julio Cesar Dutra Grillo se absteve na votação, mas, em seu voto, afirmou que as barragens da região “não têm risco zero”: “Muita gente aqui citou o problema de Mariana, de Fundão, e vocês têm um problema similar. E ali é o seguinte, essas barragens não oferecem risco zero. Em uma negligência qualquer de quem está à frente de um sistema de gestão de risco, aquilo rompe”.

O método de construção da barragem, chamado de alteamento a montante, permite que o dique inicial seja ampliado para cima quando a barragem fica cheia.

Na terça-feira (29), a Vale se comprometeu em desativar todas as barragens com tecnologia de alteamento a montante em seus empreendimentos.

A barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, desabou na última sexta-feira (25) e despejou um mar de lama com rejeitos de minério. O refeitório da vale estava no caminho da lama e foi soterrado, bem na hora do almoço.

Até agora foram confirmados 99 mortos e 259 desaparecidos. As buscas por corpos e sobreviventes continuam. A Vale diz que vai doar R$ 100 mil a famílias de vítimas da tragédia e que dinheiro estará disponível em três dias.