Bolsonaro é aconselhado a se render à “velha política” para montar base

Palácio do Planalto deve abandonar estratégia de utilizar bancadas temáticas e partir para a negociação de cargos de olho na reforma da Previdência

Brasília — Prestes a completar cem dias de mandato, o presidente Jair Bolsonaro se rendeu à chamada “velha política”. Após desenhar uma aliança apenas com frentes parlamentares, o presidente enfrentou uma crise política atrás da outra, aprofundadas por derrotas sofridas no Congresso, e foi aconselhado a aceitar a distribuição de cargos para conseguir aprovar a reforma da Previdência.

Em encontro com presidentes dos principais partidos do chamado Centrão na manhã desta quinta-feira, 4, Bolsonaro anunciou a intenção de criar uma espécie de conselho político para aproximar o governo dos partidos e do Congresso Nacional. Durante as conversas, Bolsonaro não pediu apoio formal, de acordo com fontes consultadas pela reportagem. O presidente afirmou que o país precisa da ajuda de todos e avisou aos presidentes dos partidos que, caso eles não queiram fazer parte da base do governo, que pelo menos apoiassem as propostas prioritárias como a Previdência.

 

No encontro com líderes, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, explicou aos dirigentes partidários como funcionaria o conselho político. Seriam dois grupos que se reuniriam a cada 15 dias. O primeiro, formado por presidentes de partidos, o segundo por líderes do Congresso. Eles seriam recebidos ora pelo próprio presidente, ora por Lorenzoni.

Bolsonaro tem encontros separados, nesta quinta-feira, com os presidentes do DEM, PSDB, MDB, PP, PSD e PRB. O ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, que comanda o PSDB, confirmou presença. As rodadas de conversa ocorrerão em duas etapas: na terça e quarta-feira, dias 9 e 10, Bolsonaro receberá dirigentes do PSL, PR, PROS, Podemos e Solidariedade. Até agora, apenas o PSL, seu partido, integra a base do governo no Congresso.

Vácuo na articulação

No vácuo da articulação política, o Centrão se reorganizou e mostra força. O bloco de partidos que deu as cartas do poder quando o então deputado Eduardo Cunha (MDB-RJ), hoje preso, era presidente da Câmara é formado por siglas como DEM, PP, PR, PRB, PSD e Solidariedade. O grupo tem como aliado de primeira hora o MDB e, em alguns casos, até o PSDB.

O vice-presidente Hamilton Mourão disse nesta quarta-feira, 3, que, se o convite do Planalto for aceito, a coalizão terá como contrapartida cargos no governo. Nos bastidores, porém, Bolsonaro já avisou que, mesmo cedendo, não existirá “porteira fechada” na Esplanada ou em qualquer repartição federal para nenhum partido. No jargão político, o termo significa que uma mesma sigla tem o direito de preencher todos os cargos de um ministério, estatal ou autarquia.

Criticado pela fragilidade da articulação, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, tentou na quarta-feira, 3, se aproximar de seus antigos colegas e almoçou na casa do deputado Fábio Ramalho (MDB-MG), que, em fevereiro, disputou e perdeu a eleição para a presidência da Câmara. “Para que nós tenhamos uma base constituída, precisamos dialogar, convidar e abrir a porta”, observou Lorenzoni. Apesar de concordar com Mourão, o ministro disse que as negociações nada têm a ver com “toma lá, dá cá”.

Partidos

Após a reunião, o disse que PSD não fará parte da base do governo e manterá sua independência, sem fechar questão a favor da reforma da Previdência, apesar de apoiar a medida, disse o presidente do partido, Gilberto Kassab.

“O partido tem uma posição muito clara com a sua independência em relação ao governo, essa posição continuará”, disse o ex-ministro a jornalistas após o encontro no Palácio do Planalto.

Já o PSDB disse que o partido não ajudará a aprovar nenhum benefício que fique abaixo do salário mínimo, nem a redução do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e a idade mínima igual para homens e mulheres na aposentadoria rural. “O PSDB tem uma postura de independência em relação ao governo, não há nenhum tipo de troca”, disse Geraldo Alckmin, presidente tucano, acrescentando, com ênfase, que o partido não participará do governo.

O DEM, que controla três ministérios (Casa Civil, Saúde e Agricultura), por enquanto, não pretende formalizar sua entrada na coalizão. “Primeiro, precisamos entender que tipo de base o presidente pretende ter”, afirmou ACM Neto, que é prefeito de Salvador e presidente do partido.

Na avaliação do presidente do MDB, Romero Jucá (RR), o ambiente político está conturbado por causa de declarações polêmicas. “O discurso de enfrentamento é muito negativo, mas sempre é tempo de ajustes”, comentou Jucá. Questionado se o MDB apoiará a reforma da Previdência, o ex-senador disse que o partido tem compromisso com a agenda econômica. “Mas temos de saber qual a modelagem proposta”, ressalvou. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.