Blocos se rebelam contra “privatização” do Carnaval de rua

O movimento denuncia que a prefeitura, para defender os interesses de patrocinadores, incentiva os blocos grandes em detrimento dos pequenos

Rio de Janeiro – Um grupo de blocos do Rio de Janeiro se rebelou contra os negócios milionários que giram em torno do Carnaval e o crescente controle da festa por parte das autoridades, que nos últimos anos vem impondo regras à folia de rua.

O movimento rebelde, chamado “Desliga dos Blocos”, defende que os desfiles de rua tenham total liberdade para desfrutar do Carnaval, sem precisar pedir permissão para sair e sem se submeter às limitações de horários, percursos e patrocinadores determinados pela prefeitura desde 2009.

“Querem privatizar e vender a terceiros o direito de nos divertir”, disse à Agência Efe Thay Chaves, uma integrante do Cordão do Boi Tolo, um dos 16 blocos que fazem parte do grupo dissidente e que sempre desfila sem permissão, burlando as autoridades.

O objetivo da prefeitura com estas normas é fazer do carnaval de rua “um produto turístico”, que não cause transtornos ao tráfego da cidade e que tenha uma boa infraestrutura de saúde e de segurança, segundo explicou à Agência Efe o subsecretário municipal de Turismo, Pedro Guimarães.

A regularização dos blocos também ajudou na entrada de um patrocinador oficial do Carnaval, uma marca de cerveja, que agora é a única que os ambulantes podem vender.

O movimento rebelde denuncia que a prefeitura, para defender os interesses do patrocinador, incentiva os blocos grandes em detrimento dos pequenos, que levantam a bandeira de “um Carnaval livre e espontâneo”.


“Ao decidir quem pode participar e quem não, a prefeitura promove o gigantismo. Dá prioridade aos megablocos e proíbe os pequenos. É muito mais lucrativo ter 20 mil pessoas consumindo do que cem”, afirmou Raquel Freire, outra integrante do Cordão do Boi Tolo.

O Boi Tolo, embora não peça permissão oficial, nunca foi impedido de desfilar desde que foi fundado, em 2006, mas segundo seus integrantes, no Carnaval passado o bloco encontrou certa resistência por parte da Guarda Municipal, que tentou, sem sucesso, interromper a festa.

“Somos contra precisar pedir autorização, é inconstitucional”, declarou Raquel, que defende que cada bloco seja livre para desfrutar a folia segundo seu próprio estilo.

A maioria dos 492 blocos com permissão oficial defende abertamente os patrocinadores e outras fontes de financiamento, como a venda de camisetas, sem as quais seria “inviável” realizar os desfiles, na opinião do presidente da associação Folia Carioca, Ricardo Rabelo.

“Com os patrocinadores só cobrimos cerca de 40% das despesas. Para conseguir o resto é preciso se esmerar”, comentou Rabelo, que também é diretor do bloco Bafafá.


O presidente da Folia Carioca calcula que os blocos gastam pelo menos R$ 7 mil em cada desfile para pagar os músicos e contratar um carro de som. Blocos com mais recursos chegam a desembolsar até R$ 30 mil.

“O importante é que o carnaval de rua ainda não é uma coisa totalmente comercial, a maioria dos blocos não sai para ganhar dinheiro, sai para se divertir. Embora exista uma minoria que nasce comercial. Sempre há algum esperto que vê uma forma de faturar”, opinou.

A prefeitura do Rio, após ser alertada que um bloco pretendia cobrar do público, proibiu na quarta-feira por meio de um decreto a criação de áreas vips no Carnaval de rua.

Essa prática é normal no Carnaval de Salvador, onde as entradas dos desfiles populares mais caros chegam a custar R$ 1.500. O prefeito do Rio, Eduardo Paes, considerou que os cordões vips se opõem ao espírito “livre e democrático” da festa.

O decreto, no entanto, preocupou os responsáveis dos blocos, que temem que as autoridades possam se exceder na interpretação das novas regras e também vetem a venda de camisetas, que constituem “uma grande fonte de ingressos”, ponderou Rabelo.