As lições de Barcelona para o Rio de Janeiro

O engenheiro Frederic Sabrià, que participou do planejamento da Olimpíada de Barcelona, em 1992, fala sobre o que o Rio de Janeiro pode aprender com o exemplo espanhol

São Paulo – Professor do IESE, a faculdade de gestão de empresas da Universidade de Navarra, o engenheiro civil espanhol Frederic Sabrià participou do projeto do Aeroporto Internacional de Barcelona e do desenvolvimento de um plano diretor para o Departamento de Logística do Comitê Organizador das Olimpíadas de 1992, de Barcelona.

Autor do estudo Logística: Mejores Prácticas em Latinoamérica (Editora Thomson, 2004), Sabrià fala, nesta entrevista, sobre o exemplo dos Jogos Olímpicos de Barcelona e afirma que, tão importante quanto as obras, é o comportamento da população depois que as Olimpíadas acabarem. E avisa: “O importante é primeiro perceber do que o Rio precisa quando os Jogos não estiverem lá”.

EXAME – Que exemplo o Rio de Janeiro pode seguir a partir do que foi feito em Barcelona?

Frederic Sabrià – Barcelona é um bom exemplo, especialmente porque houve uso da infraestrutura após os jogos. Mas não tenho certeza se exemplos de outras cidades devem ser mais do que isso, do que apenas exemplos. Nós temos Madri, vocês têm São Paulo, mas nós temos Barcelona e vocês têm o Rio. Acredito que haja uma semelhança aí. Mas são cidades diferentes, com necessidades diferentes.

O que acho especial sobre as Olimpíadas é que elas vão operar por três semanas, um mês, um pouco mais se juntarmos com as Paraolimpíadas. Mas o nível de serviços que devem ser oferecidos nesse curto período é muito alto. Então não pode ser algo que você faz para os Jogos. Você tem que usar a “desculpa” dos Jogos para alcançar um novo patamar de serviços e infraestrutura para a cidade. O importante é primeiro perceber do que o Rio precisa quando os Jogos não estiverem lá. Você não se desenvolve para as Olimpíadas, mas sim para o dia seguinte.


EXAME – Um dos maiores debates atuais no Rio é sobre o legado dos jogos. Apesar de muitas competições se concentrarem na Barra da Tijuca, região nobre e afastada do Centro, muitos afirmam que a recuperação da zona portuária será a principal transformação, a exemplo do que ocorreu em Barcelona. Como o senhor avalia as mudanças que serão realizadas na cidade?

Sabrià – Estive no Rio há alguns dias e é preciso fazer muita coisa em infraestrutura. Do ponto de vista dos Jogos, é preciso melhorar a conexão entre as diferentes áreas, para mover a família olímpica. Necessita, portanto, de um bom reforço em mobilidade urbana. Mas é uma questão de trabalhar o comportamento também. Em Los Angeles, em 1984, investiu-se no carpooling (carona solidária) para diminuir o número de carros circulando durante os jogos, e depois continuou-se a investir para que a população adotasse o carpooling em seu dia a dia, para minimizar os problemas de trânsito.

EXAME – A questão da mobilidade urbana é uma preocupação. A construção de uma nova linha de metrô e a implantação do sistema de bus rapid transit (BRT) será suficiente para atender o crescimento de uma metrópole como o Rio?

Sabrià – Durante os Jogos, tudo vai estar subordinado aos Jogos. Haverá inconveniência para a população, que terá de realmente usar os novos sistemas de BRT e metrô. Eles estarão reforçados nesse período. Mas esse reforço precisa ser mantido depois. A preocupação deve ser também com o comportamento das pessoas na cidade, após os Jogos.

As Olimpíadas têm tanta complexidade que muitos engenheiros que não conhecem bem a cidade podem acabar pensando antes nos Jogos. Eles têm que pensar a cidade. Acredito não haver nenhuma possibilidade de o Rio não fazer uma grande Olimpíada. Certamente, tudo vai funcionar. Todos entregam a tempo, e o Brasil também entregará. A preocupação tem que ser com o que vai ficar depois, em usar a oportunidade para melhorar para depois.


EXAME – Barcelona é um bom exemplo de se pensar primeiro na cidade? O porto remodelado foi a principal conquista?

Sabrià – Não acho que tenha sido o porto. Claro que foi importante, a área foi recuperada e as praias também. Nós não tínhamos uma praia para frequentar e, por causa das Olimpíadas, agora temos. E as Olimpíadas colocaram Barcelona no mapa, elas dão projeção. Mas isso não foi o mais importante, e sim as conquistas em mobilidade urbana. Nossa melhor mudança aconteceu com a construção de uma autoestrada urbana que passa em torno de toda a cidade, foi uma conquista fenomenal.

Acredito que, nos últimos tempos, os gregos fizeram o pior trabalho, com investimentos que não fizeram sentido após o fim das Olimpíadas. Barcelona teve uma visão diferente, com um fantástico uso da Vila Olímpica depois dos Jogos. Em Barcelona, decidimos que queríamos entregar os melhores Jogos. Mas como se mede isso? A melhor Olimpíada é a que é boa para os jornalistas, porque eles é que vão passar essa imagem. Nós nos preocupamos em agradar tanto ao atleta quanto ao jornalista durante os jogos. Mas nos preocupamos também em agradar principalmente a população depois.

EXAME – Autoridades brasileiras e das organizações envolvidas com a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 demonstram preocupação com relação aos aeroportos brasileiros para esses eventos. Com a experiência de quem participou do projeto do Aeroporto Internacional de Barcelona, como o senhor avalia a situação dos principais terminais brasileiros?

Sabrià – A expansão do aeroporto também foi necessária na época dos Jogos, mas precisávamos na verdade de um novo terminal, o que só foi feito depois das Olimpíadas, independentemente delas. Fizemos um novo aeroporto, mas depois. No Rio, a melhoria no aeroporto, a sua expansão, também é fundamental. É um ponto importante na melhoria da mobilidade urbana.

EXAME – Qual é o modelo gestão mais adequado, considerando que falta pouco tempo para esses eventos? O modelo privado, uma parceria entre o governo e a iniciativa privada, ou o atual, a cargo da Infraero?

Sabrià – Cada país deve procurar o melhor modelo, o que vai atender melhor.