Aeroportos atenderão demanda da Copa. Mas e depois?

Apesar de falhas e atrasos, especialistas acreditam que terminais serão suficientes para receber (bem ou mal) os turistas. Problema mesmo é a crescente demanda interna

São Paulo – Apesar dos atrasos e dos problemas com as obras dos aeroportos brasileiros, especialistas em transporte aéreo concordam com a declaração da presidente Dilma Rousseff de que os terminais “estão prontos para receber a Copa do Mundo”.

Não que o que foi feito até agora, a menos de uma semana do evento, atenda às expectativas do que seria considerado ideal.

O aeroporto de Brasília, por exemplo, ficou alagado após chuva que atingiu a região nesta semana, e a maioria dos outros terminais das cidades-sede também não estará com as obras terminadas a tempo para o apito inicial na próxima quinta-feira.

Entretanto, bem ou mal, na opinião dos analistas, as reformas serão suficientes para suprir a real demanda do torneio, que deverá ser bem menor do que a calculada inicialmente.

“A mídia estrangeira tem explorado de forma negativa o cenário que se apresenta para o turista. Com poucas manifestações otimistas, acredito que até alguns brasileiros fugirão do evento”, avalia Gílson Garófalo, professor da PUC-SP especialista em aviação.

Para Gustavo Murad – diretor da empresa Amadeus, que desenvolve tecnologias para gestão de aeroportos e companhias aéreas – a Copa é o menor dos problemas que o Brasil enfrenta em relação à infraestrutura no setor.

Novo caos aéreo?

“Bem antes da Copa já havia um imenso gargalo de estrutura física nos aeroportos. Tanto é que as empresas privadas (que assumiram a gestão) tiveram que fazer muito mais obras de caráter emergencial do que de apenas ampliação ou melhoria”, diz Murad.

Em 2013, dezesseis dos principais aeroportos brasileiros operaram com mais de 80% de sua capacidade, sendo que quatro deles chegaram a ultrapassar o limite total. Em Guarulhos – maior aeroporto do país -, passaram no ano 36 milhões de pessoas, 44% a mais que os 25 milhões comportados.

A entrega do novo Terminal 3, em maio de 2014, ampliou a capacidade em 12 milhões de passageiros. Ou seja, apenas 1 milhão a mais do que já já havia sido registrado no ano anterior.

De acordo com o diretor, o que impediu que o Brasil enfrentasse um novo caos aéreo – como o registrado em 2006 – foi o fato de a economia ter crescido em ritmo menos acelerado.

“A economia poderia estar bem melhor, mas mesmo assim é fato que o nosso crescimento será acima da média. A melhora da situação socioeconômica da população afeta diretamente o setor, e nós temos que nos preparar para isso”, afirma.

Murad aponta ainda que o Brasil é hoje o terceiro maior mercado aéreo doméstico do mundo, ultrapassando a Índia. ”Temos um potencial de crescimento absurdo. A previsão é de que, em 20 anos, nós vamos superar até mesmo EUA e China”, diz Murad.

“O transporte aéreo tem cunho estratégico muito pesado para qualquer país. Se o Brasil não aproveitar esse momento especial, alguém da América Latina vai assumir seu lugar”, avalia.

Como chegar até a ilha

Na opinião de Garófalo, além da democratização observada no passado com a queda do preço das passagens, a recente privatização de administração de aeroportos contribuiu para a melhora de qualidade do serviço básico oferecido aos passageiros.

Para o professor, é inegável que as reformas incentivadas pela Copa já trazem mudanças perceptíveis. “O ‘efeito imitação’ é muito benéfico. Quando um modelo começa a dar certo, a tendência é que outros sigam o aumento de qualidade para não ficarem para trás”.

Entretanto, ele pondera que este é apenas um lado da questão, uma vez que não foram feitos investimentos equivalentes para facilitar o acesso e também diminuir o tempo de deslocamento até esses terminais.

“O problema não se limita ao aeroporto em si, mas também ao acesso a ele. Não adianta fazer um voo de duas horas se, para chegar até o destino final na cidade, se gasta o mesmo tempo no trânsito. É preciso criar alternativas eficientes de transporte público”, afirma Garófalo.

“O que foi feito para a Copa veio para ficar como legado, mas isso não quer dizer que será suficiente”, diz.