Aécio enfrenta prova de fogo após alerta sobre fantasmas

Depois da “desconstrução” de Marina, tucano será o único alvo da máquina de campanha do Partido dos Trabalhadores no segundo turno

Brasília – Aécio Neves, que saiu de trás e disputará o segundo turno da eleição presidencial no Brasil, subiu praticamente incólume porque a artilharia da campanha estava apontada para outros lados. Agora ele não terá esse luxo.

Com Aécio em terceiro lugar nas pesquisas durante seis semanas antes da eleição de 5 de outubro, a presidente Dilma Rousseff concentrou seus ataques na adversária Marina Silva, enquanto Marina endereçou a maior parte de suas críticas à candidata à reeleição.

Após um surpreendente segundo lugar nas urnas, Aécio será o único alvo da máquina de campanha do Partido dos Trabalhadores, que executou o que o vice-presidente da República, Michel Temer, chamou de “desconstrução” de Marina.

A única pesquisa publicada depois do primeiro turno, até o momento, mostra Aécio à frente de Dilma.

Para vencer o segundo turno, em 26 de outubro, Aécio terá que tranquilizar os eleitores de baixa renda de que seus planos para cortar gastos e trazer a inflação para dentro da meta não minarão os benefícios sociais que ajudaram a tirar 22 milhões de pessoas da pobreza extrema depois que Dilma assumiu.

Ele precisa também convencer aqueles que votaram em Marina no primeiro turno de que está em melhor posição que Dilma para cumprir a promessa de Marina de limpar a política, disse Carlos Manhanelli, consultor de marketing eleitoral em São Paulo.

“Ele terá que mostrar que não é o bicho-papão que o farão parecer”, disse Manhanelli, por telefone. “Além disso, ele precisará angariar os votos de Marina levantando a bandeira da renovação, mostrando que Dilma não significa uma mudança, mas sim a continuidade da estagnação econômica”.

Publicidades mentirosas

Aécio tem 49 por cento de apoio do eleitorado, contra 41 por cento de Dilma, com 5 por cento de indecisos e 5 por cento dizendo que não votariam, segundo uma pesquisa publicada ontem no site da revista Época.

Realizada pela Paraná Pesquisas, a sondagem tem uma margem de erro de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos.

Na sede de campanha de Aécio, nesta semana, os assessores preparavam anúncios de TV que apontarão como mentiras as afirmações de Dilma de que ele pretende acabar com os investimentos em programas sociais e de que seu partido queria privatizar a Petrobras, segundo um assessor que pediu anonimato porque a estratégia não é pública.

Os anúncios mostrariam que Aécio apresentou um projeto ao Congresso para garantir o financiamento de longo prazo do Bolsa Família, o programa do governo de transferência de recursos para os pobres, disse o assessor.

‘Os monstros’

Em seu primeiro discurso após a eleição, Dilma criticou o senador por Minas Gerais, de 54 anos de idade, dizendo que os brasileiros não queriam trazer de volta “fantasmas do passado” como o racionamento de energia e o alto índice de desemprego, em referência ao período entre 1995 e 2002, durante o qual o Partido da Social Democracia Brasileira, ou PSDB, governou.

Ela disse também que o PSDB havia tentado vender empresas estatais como a Petrobras e o Banco do Brasil.

Aécio respondeu no dia seguinte. “Me surpreende abrir hoje os jornais e ver a candidata oficial falar de fantasmas do passado”, disse ele a repórteres, em São Paulo.

“Na verdade, os brasileiros estão muito mais preocupados com os monstros do presente — inflação alta, a recessão, corrupção”.

Os escritórios de campanha de Dilma e Aécio não responderam a e-mails separados em busca de comentários a respeito de suas estratégias eleitorais.

Aécio poderia angariar 50 a 65 por cento dos votos de Marina Silva, o que lhe daria a mesma chance de Dilma de se eleger, disse André César, consultor político em Brasília. Marina havia dito que tornaria seu apoio público hoje, mas adiou o anúncio.

“Esta eleição contrapõe dois modelos opositores de gestão econômica: o de Aécio, por um estado menor e mais enxuto, e o de Dilma, de um governo grande, de intervenção e de investimentos sociais”, disse David Fleischer, professor de Ciência Política da Universidade de Brasília. “Essas são duas formas opostas de administrar a economia”.