A semana do bolso cheio

Dilma Rousseff começou o segundo mandato há 16 meses. Passou os 12 primeiros paralisada pela falta de apoio no Congresso e por desavenças dentro de seu próprio partido. E os quatro últimos focada em se manter na presidência. Agora, no início daquela que pode ser sua última semana completa no cargo, tenta inaugurar e anunciar o que não fez até aqui. É um plano de metas versão 2016. O problema: em seu radar não estão os 200 milhões de brasileiros, mas um só: o vice Michel Temer.

A ideia é separar de vez sua imagem da do vice, e ainda deixar para ele a impopular tarefa de cortar benefícios sociais. Ontem, durante as comemorações do dia do trabalhador, a presidente anunciou o aumento de 9% no Bolsa Família. Também anunciou a proposta de correção na tabela do imposto de renda em 5% e a contratação de mais 25.000 moradias no Minha Casa, Minha Vida.

Nos últimos dias, a presidente já havia acelerado a entrega de moradias do Minha Casa, Minha Vida, a demarcação de terras indígenas, aumentado a permanência de médicos estrangeiros do Mais Médicos no Brasil até 2019 e anunciado novas regras para o financiamento estudantil FIES, reduzindo a parcela mínima do financiamento de 100 para 50 reais.

O show da Dilma continua essa semana. Na terça-feira, ela deve comparecer ao acendimento da tocha olímpica e apresentar o Plano Safra da Agricultura Familiar, de 30 bilhões de reais. Na quarta, o Plano Safra para o agronegócio, de 200 bilhões. Os anúncios normalmente ocorrem em junho. Até sexta, Dilma deve ainda viajar para pelo menos cinco estados entregando moradias do Minha Casa, Minha Vida.

A maior parte das medidas compromete ainda mais as já combalidas contas públicas. Pela primeira vez na história, o governo teve déficit no primeiro trimestre do ano – de 18,2 bilhões de reais. A previsão do governo era de terminar 2016 com um déficit de quase 100 bilhões, mas o buraco deve ser ainda maior. “A maior parte dos gastos criados agora é perene e pode comprometer a administração pública por um bom tempo”, diz Istvan Kasznar, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas.

“A presidente está na tentativa de esvaziar medidas populares que poderiam ser anunciadas nos primeiros dias de um governo Temer e, ao mesmo tempo, aumentar os gastos do próximo governo de uma maneira que ele não possa reverter”, diz Istvan Kasznar, coordenador da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas. O plenário do Senado deve votar a favor ou contra o afastamento no dia 11 de maio.