A história de um ex-preso que hoje é chefe de segurança em cadeia

No mês em que mais de cem presos morreram em presídios, histórias como a de Edilson mostram como é possível reintegrar condenados à sociedade

São Paulo – Há dez meses, Edilson Rafael dos Santos chefia a área de segurança da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac) de Itaúna (MG), uma unidade prisional modelo. Três anos atrás, ele estava do lado de lá das grades cumprindo pena por tráfico de drogas. Acabou contratado como inspetor segurança alguns meses depois de terminar sua condenação.

A Apac onde Edilson cumpriu pena em duas ocasiões e hoje é encarregado de segurança se baseia em um método alternativo de ressocialização de condenados. O foco é a responsabilização do recuperando (como detentos são chamados por lá) não só pelo cumprimento da punição jurídica, mas também pela organização e segurança da unidade prisional.

Para se ter ideia, os próprios presos (devidamente selecionados pela direção do presídio) cuidam da portaria principal da Apac. Todos são obrigados a estudar e há a chance de participar de cursos de qualificação. [Veja mais em Nestas cadeias, preso pode ter até a chave da portaria].

“O recuperando só não muda de vida se não quiser. Pode ser feito tudo para ele aqui dentro, mas se ele não tiver vontade de mudar de vida, não vai mudar”, afirma Edilson em relato a EXAME.com.

A taxa de reincidência nessas unidades (são cerca de 50 Apacs em quatro estados) é de 20% contra 55% de reincidência no sistema prisional comum de Minas Gerais, onde há o maior número de Apacs. Da primeira vez que foi preso, Edilson fez parte dessa estatística. Mas decidiu dar um novo fim à narrativa na última condenação. O relato você vê a seguir:

Infelizmente, pela ambição do ser humano, comecei a mexer com tráfico desde novo. Eu tinha 14 anos, meu pai não aceitou que eu comecei a usar drogas e me pôs para fora de casa. Conheci a cadeia aos 18, mas foi por pouco prazo porque paguei prestação de serviços. Consegui me safar de 1998 a 2009, quando fui preso pela primeira vez. Fiquei sete meses na cadeia [comum] e oito meses na Apac.

Dessa primeira vez, eu não dava ouvido para nada. Queria cumprir minha cadeia e voltar para a rua para cometer crime. Com dez meses que estava na rua, fui preso de novo. Peguei cadeia danada, porque na segunda vez é pior.

[No presídio comum], era aquela bagunça, não tinha limpeza de jeito nenhum. Eles trabalham com opressão, arma, cachorro, spray de pimenta. Você não pode olhar para o rosto dos agentes, fica de cabeça raspada, tem que usar só aquela roupa vermelha.

Tinha 10 camas na cela, mas era trinta dentro. Pensa como tinha que dormir: um tumultuado em cima do outro. Um banheiro só para 30 homens. As paredes tudo sujas, aquela coisa insuportável, calor demais. Eles maltratam a família da gente na entrada da visita, principalmente a mãe e a esposa. Isso revolta ainda mais o preso que está lá.

Graças a Deus, tive oportunidade de vir para a Apac. Dessa vez, eu já vim com propósito de mudança de vida porque eu tenho família e todo mundo sofre mais do que a gente. E eu abracei todas as oportunidades.

Quando cheguei na Apac, tinha até a quarta série. Fiz até a oitava e, agora, estou estudando o resto na rua. Tem recuperando que tem cadeia muito alta que chegou analfabeto e faz faculdade à distância. Cada dia que eu ficava na Apac era um aprendizado para a minha vida. Foi aí que eu resolvi largar o crime e dar o valor na minha família.

Um ex-recuperando veio aqui dar um depoimento e falou que a maior tristeza da vida era a mãe e o pai dele não terem visto que ele mudou de vida. Isso me marcou. Eu falei: esse remorso eu não quero levar não.

O trabalho da Apac é este: mostrar para o recuperando o tamanho do erro que ele comete na rua e trazer de volta seus valores, que muitas vezes são perdidos. O recuperando só não muda de vida se não quiser. Pode ser feito tudo para ele aqui dentro, mas se ele não tiver vontade de mudar de vida, não vai mudar.

Foi muito difícil [mudar de vida]. Mais da metade da minha vida foi no mundo do crime. Então, todo mundo que eu conhecia era do crime. Você tem que se isolar. É bem complicado, mas não é impossível. Há uns três anos, eu era do lado deles, e agora estou a favor de mudança de vidas. Não são todos que entendem isso. Só com o tempo e com as atitudes da gente é que pode mudar tudo.”

Edilson Rafael dos Santos, encarregado de segurança da Apac de Itaúna
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