6 respostas para você entender de vez a Operação Lava Jato

Operação da Polícia Federal que investiga esquema de desvio de dinheiro da Petrobras atinge grandes empreiteiras e partidos políticos; entenda os desdobramentos

São Paulo – Iniciada em março, e com diversos desdobramentos, a Operação Lava Jato da Polícia Federal pode se tornar um quebra-cabeça indecifrável para quem tenta entender o esquema de corrupção da Petrobras.

As investigações apontam para lavagem de dinheiro, pagamento de propina, superfaturamento de obras e repasses para partidos políticos.

Veja a seguir seis respostas que vão ajudar a entender o emaranhando de informações da Operação Lava Jato.

1- Como começou a operação?

Arquivo/Agência Brasil

Polícia Federal

A operação foi deflagrada pela Polícia Federal em 17 de março deste ano, com o objetivo de desarticular um esquema de lavagem de dinheiro.

Segundo a PF, os grupos investigados realizavam operações financeiras de mais de R$ 10 bilhões.

Na época foram apreendidos R$ 5 milhões em dinheiro, 25 carros de luxo, joias, quadros e armas.

Ao longo das investigações, a polícia chegou à suspeita de que o esquema envolvia a Petrobras e partidos políticos.

2 – Como funcionava o esquema na Petrobras?

Tânia Rêgo/Agência Brasil

Petrobras

Petrobras anuncia medidas internas para apurar denúncias da Operação Lava Jato

Segundo as investigações, a Petrobras contratava empresas para prestar serviços como construção de obras e fornecimento de materiais.

Essas empresas, em especial grandes empreiteiras, firmavam com a estatal contratos superfaturados. O dinheiro excedente era então repassado a doleiros, lobistas e partidos políticos. 

Em abril, a Polícia Federal fez buscas e apreendeu documentos na sede da Petrobras no Rio. A ação marcou o início da segunda fase da Operação Lava Jato. Em maio, a Justiça decretou a quebra do sigilo bancário da estatal.

3 – Quem foi preso no esquema?

Nacho Doce/Reuters

Agentes da Polícia Federal em frente ao prédio da Camargo Correa durante a sétima fase da Operação Lava Jato, em São Paulo

Agentes da Polícia Federal durante a sétima fase da Operação Lava Jato, em São Paulo

Dentre os primeiros presos na operação está o doleiro Alberto Youssef, apontado como chefe do esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

O ex-diretor de Refino e Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, também foi detido ainda em março, sob suspeita de destruir e ocultar documentos.

A PF chegou a Costa por ele ter recebido um jipe Land Rover de Youssef. Costa também é investigado devido à compra, pela Petrobras, da refinaria de Pasadena, no Texas (EUA), sob suspeita de superfaturamento.

Após acordo de delação premiada, Paulo Roberto Costa cumpre prisão domiciliar em casa.

No dia 14 de novembro, a Polícia Federal fez uma mega ação e prendeu diversos suspeitos de envolvimento do esquema. As prisões marcaram a sétima fase da operação. 

Foram detidos o ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque e executivos de grandes empreiteiras, como OAS, Camargo Corrêa e Queiroz Galvão. Parte dos executivos foi solta após depoimentos. 

O empresário Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano, se entregou à polícia alguns dias depois. Baiano é apontado como lobista do PMDB e um dos suspeitos de participar do esquema de corrupção.

4 – Quais empresas estão na mira dos investigadores?

Agência Petrobras

Refinaria-abreu

Obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco; de acordo com as investigações, valores repassados pela Petrobras para o Consórcio CNCC – controlado pela construtora Camargo Corrêa – nas obras da refinaria iam parar nas contas das empresas do doleiro Alberto Youssef

As empresas citadas na investigação são: Camargo Corrêa, Engevix, OAS, Odebrecht, UTC, Mendes Júnior, Iesa, Queiroz Galvão, Vital Engenharia e Galvão Engenharia.

Segundo a Polícia Federal, as empresas têm R$ 59 bilhões de reais em contratos com a Petrobras.

Dentre os executivos presos na operação estão o presidente da Camargo Corrêa, Dalton dos Santos Avancini, o diretor da UTC, Ricardo Ribeiro Pessoa, o presidente da OAS, José Aldemário Pinheiro Filho, e o vice-presidente da Engevix, Gerson Almada.

5 – Qual o papel da delação premiada no caso?

Valter Campanato/ABr

Ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa

Ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa

Após negar, em depoimento à CPI da Petrobras, que houvesse corrupção na estatal, o ex-diretor da empresa Paulo Roberto Costa aceitou fechar acordo de delação premiada com os procuradores da Operação Lava Jato. 

A delação premiada é um acordo pelo qual o suspeito de cometer crimes se compromete a colaborar com as investigações e denunciar outros integrantes da organização criminosa em troca de benefícios, como redução da pena. 

A partir deste acordo, Costa passou a afirmar que diversos políticos teriam recebido dinheiro desviado da estatal. Costa já teria citado cinco partidos: PT, PMDB, PP, PSDB e PSB.

Em setembro, um mês após o acordo de Paulo Roberto Costa, o doleiro Alberto Youssef também aceita o acordo de delação premiada.

Dois executivos da empresa Toyo-Setal também fecharam acordo de delação premiada. Poucos dias depois, a própria empresa acertou um acordo de delação com o Ministério Público Federal.

A delação agiliza o trabalho dos investigadores e facilita a busca de provas que comprovem o esquema. No entanto, há críticas de que as delações são usadas para confirmar indícios que o Ministério Público não tem com provar por si só. A confiabilidade do que é dito pelos suspeitos também é questionada. 

6 – Quem são os políticos citados até agora?

Laycer Tomaz/Câmara dos Deputados

Deputado André Vargas (PT-PR) durante sessão destinada a analisar os destaques apresentados à Medida Provisória que muda a forma de tributação dos lucros obtidos por multinacionais brasileiras

Deputado André Vargas (sem partido-PR)

André Vargas (sem partido-PR)

A apuração da PF trouxe à tona indícios de ligação entre Alberto Youssef e o deputado federal pelo Paraná André Vargas, na época filiado ao PT.

Em janeiro, o parlamentar viajou para João Pessoa (PB) em um jatinho emprestado pelo doleiro. Vargas afirmou ter pago pelo combustível.

Vargas alegou que não há irregularidades na sua relação com o doleiro. Pressionado, o deputado renunciou ao cargo de vice-presidente da Câmara e se desfiliou do PT. Ele também se tornou alvo de processo por quebra de decoro no Conselho de Ética da Câmara, que aprovou parecer que pede sua cassação. A perda do mandato de Vargas ainda precisa ser analisada pelo plenário da Câmara.

Luiz Argôlo (SDD-BA)

As investigações da PF indicam que o deputado federal pela Bahia Luiz Argôlo (SDD) também tinha relação com Alberto Youssef. De acordo com a polícia, o doleiro teria bancado a compra de bezerros para o político.

Em outubro, o Conselho de Ética da Câmara aprovou parecer que pede a cassação do mandato de Argôlo. O relatório ainda precisa ser votado pelo plenário da Casa.

Fernando Collor (PTB-AL)

Em julho, a Justiça do Paraná encaminhou ao STF (Supremo Tribunal Federal) o que podem ser indícios de uma suposta relação entre o doleiro Alberto Youssef e o senador Fernando Collor (PTB-AL).

A Operação Lava Jato encontrou comprovantes bancários no escritório de Youssef que beneficiariam o senador. Na época, o juiz Sérgio Moro ressaltou que é “prematura” a conclusão de que os depósitos teriam natureza criminosa. Como Collor tem foro privilegiado, o caso só pode ser analisado pelo STF.

Políticos citados em delação

Outros políticos teriam ainda sido citados em depoimento de delatores. A suspeita é que eles tenham recebido dinheiro do esquema de corrupção, especialmente para financiamento de campanha. 

De acordo com o jornalista Fernando Rodrigues, do UOL, 70 nomes já apareceram nas investigações e delações premiadas e estão agora em análise no STF (Supremo Tribunal Federal).

Dentre os nomes já citados pela imprensa estão o presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL), o presidente da Câmara Henrique Eduardo Alves (PMDB- RN), o líder do PT no Senado Humberto Costa (PT-PE), o ex-ministro das Cidades Mário Negromonte (PP), o tesoureiro nacional do PT João Vaccari Neto, a ex-ministra da Casa Civil Gleisi Hoffmann e o ex-senador Sérgio Guerra (PSDB-PE), já morto.

Os políticos negam envolvimento no esquema. O senador Humberto Costa disse que coloca à disposição das autoridades a quebra de seus sigilos bancário, telefôncio e fiscal.