6 ameaças de caos na Copa que não ocorreram (até agora)

A Copa pode não ser perfeita em nenhum sentido, mas o cenário de caos que se temia – com aeroportos em parafuso e protestos impedindo as partidas – não ocorreu

São Paulo – A revista The Economist deu o tom do tipo de caos que se esperava para a Copa do Mundo quando contou, dois dias antes da abertura do mundial, que seu repórter havia demorado duas horas e meia no Aeroporto de Guarulhos em uma fila  a fila do táxi.

Uma greve dos metroviários no dia exato da abertura – não concretizada, ao fim – prometia ser um tira-gosto do que seria vivido por São Paulo e em seguida por todas as cidades-sede do país.

Havia ainda aquele slogan, bem ameaçador, que vinha sendo entoado há meses nas ruas e nas redes sociais: “#nãovaitercopa”. E, claro, o “imagina na Copa”.

Mas, bem ou mal, ela começou. Entre estádios e aeroportos terminados no minuto final ou ainda com acabamentos por fazer, a Copa no Brasil ocorre sem que os maiores temores tenham se realizado. Pelo menos até agora.

Os aeroportos, por exemplo, têm apresentado índices de atrasos e cancelamentos abaixo de épocas conturbadas no Brasil, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

A atmosfera de medo que cercava o evento já foi substituída por turistas se divertindo à beça, como observou nesta semana o britânico The Guardian. É o que mostram também as transmissões televisivas.

Veja abaixo os 6 medos de autoridades, turistas estrangeiros e brasileiros em geral que não se concretizaram até o momento (mesmo com os vários problemas, que também aparecem na lista abaixo).

1) Caos aéreo nos aeroportos
O índice de atrasos de 4,2% e 8,2% de cancelamentos entre o dia 11 e a noite de domingo foi menor do que em período turbulentos do setor aéreo no país, como fim de ano e carnaval, segundo a Anac.

Na segunda, os atrasos chegaram a 15%, o que, segundo o governo, ainda está dentro da margem operacional internacional considerada satisfatória.

Mas essa sorte para os torcedores – e para os governantes – veio até agora a um custo econômico (para as companhias): sem a ajuda do turismo de negócios, a taxa de ocupação de assentos das aeronaves entre as cidades-sede é quase metade da registrada em anos anteriores, segundo a Folha de S. Paulo.

2) Estádios incompletos ou perigosos para os torcedores
Não há porque não dizer: as arenas estão bonitas na tela. Já quem vai aos jogos ver vários detalhes que a correria – ou a falta de planejamento – deixou passar, como degraus de madeira improvisados no Itaquerão.

O gramado em Manaus não foi motivo de comemoração pela imprensa inglesa.

A Arena das Dunas teve seu primeiro jogo sem o atestado de vistoria do Corpo de Bombeiros, que só foi emitido na segunda-feira, data do segundo jogo por lá.

Tudo isso são exemplos para mostrar que as arenas, improvisos à parte, não registraram até o momento nenhum grande incidente que ofuscasse o futebol que ocorria nelas.

3) Violência generalizada ameaçando os turistas
Embora não haja estatísticas oficiais, já há vários relatos de assaltos envolvendo turistas da Copa do Mundo.

Um grupo de 20 brasileiros que estavam em um camping nas proximidades de Cuiabá foram trancados em um banheiro e roubados.

Em Manaus, um jornalista alemão foi assaltado.

Mas essas ocorrências estão longe de ser uma apoteose da violência que já se vive cotidianamente no Brasil. Vale lembrar que boatos espalhados pela internet para gerar ainda mais temor de crimes na Copa – como um suposto ataque do PCC nos bares de São Paulo em plena abertura do mundial – se mostraram completamente infundados.

Já episódios de briga e focos de tumulto são vários. Ontem, por exemplo, o comportamento de torcedores indignados por não entrar na Fan Fest em São Paulo deixou pelo menos 15 pessoas levemente feridas.

4) Protestos tomando conta das cidades
Não importa de que lado se está nesta questão das manifestações. O fato é que o temor das autoridades era, primeiro, que os protestos alcançassem adesão maciça dos brasileiros – reeditando, de certa forma, os eventos de junho do ano passado – e eclipsassem os jogos, semelhante ao que ocorreu com a Copa das Confederações.

Não aconteceu.

Segundo, de que eles fossem capazes de chamar mais atenção que as partidas pelo uso da violência e, em última instância, impedissem os jogos de ocorrerem ou dos torcedores chegarem aos estádios.

Isso tampouco se tornou realidade.

Em grande parte, porque as forças de seguranças agiram sem dó. Em São Paulo, no menor sinal de que a Avenida Radial Leste – que dá acesso à Arena Corinthians – seria invadida na abertura da Copa, a PM começou com as bombas de gás lacrimogêneo, dando início ao corre-corre.

Duas jornalistas da CNN ficaram feridas na ação.

Em ritmo regular, as manifestações continuam ocorrendo diariamente em várias cidades-sede. Na segunda, em Curitiba, 11 foram detidos dentre os 200 presentes. Houve depredação. 

Ontem, no Rio, o Movimento Passe Livre fez uma passeata com 50 pessoas.

Mas os protestos, além de menores, não têm ofuscado o futebol – nem mesmo para a mídia internacional (com exceção do primeiro dia, quando chegou a rivalizar as manchetes).

“Quatro dias antes da Copa, havia uma preocupação enorme com os protestos nas ruas, mas o ambiente está mudando”, disse à Bloomberg o professor adjunto da Universidade de Colúmbia, Marcos Troyjo.

5) Transporte público em parafuso
Qualquer brasileiro que use transporte público pega ônibus ou metrôs lotados em horários de pico. Não é exclusividade de nenhuma cidade. E nem do Brasil.

Na Copa, o metrô de São Paulo, na abertura do evento, e o metrô do Rio, gratuito na estreia do Maracanã, no domingo, tiveram trens lotados. Mas o sistema não alcançou o caos – como os brasileiros sabem que ocorre, vez por outra, nem registrou panes generalizadas.

Há destaques negativos. Em Natal, com as greves dos rodoviários, a população sofreu para chegar ao estádio.

Mas não houve até o momento o registro de incidentes graves ou que tenham levado a uma imobilidade geral dos torcedores, embora em São Paulo, ontem, muitos tenham ficado presos com o trânsito recorde para o horário e perdido o início da partida entre México e Brasil.

6) Erros de organização constrangedores
A organização está longe do impecável, por certo. Quem quiser, pode encontrar vários problemas desde o dia um.

Listemos alguns: no primeiro jogo no Mané Garrincha, teve torcedor que entrou depois do início da partida. Segundo a Fifa, por problemas no efetivo dos operadores dos detectores de metal e o próprio público, que chegou muito próximo à partida, afirmam as justificativas publicadas pela Folha.

Torcedores argentinos sem ingressos conseguiram invadir o Maracanã, no último sábado, mostrou vídeo obtido pelo O Globo.

Fora o hino da França e Honduras, que não tocou por conta de uma pane no sistema de som do estádio Beira Rio, em Porto Alegre, no fim de semana.

O Itaquerão passou parte do jogo de abertura com vários refletores desligados, o que por sorte foi corrigido antes do anoitecer.

Todos estes são exemplos de problemas que seriam contornáveis com maior planejamento e tempo para testes.

Mas a máxima de que os problemas não impediram o mais importante – o futebol – continua valendo.