O luxo que afasta

Aquilo que fazemos na expectativa de sermos "aceitos" pode ser um tiro que sai pela culatra...

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Um assunto sobre o qual eu gosto de refletir bastante é a “Lei de Jante”. Para quem não conhece, essa tal “Lei de Jante” é uma daquelas regrinhas não escritas (um “meme”, se assim preferir) que é uma espécie de fenômeno cultural nos países nórdicos. Ela diz, basicamente, que “ostentar é feio” e que as pessoas, mesmo aquelas escandalosamente ricas e bem sucedidas, devem, deliberadamente, procurar restringir o consumo e o estilo de vida para não se “desenquadrarem” do resto da sociedade.

Ou seja, numa sociedade regida pele Lei de Jante, não é uma coisa socialmente bem aceita o milionário ter uma Ferrari e uma mansão. “Pega melhor” viver numa casa mais modesta e dirigir uma perua Volvo (o carro “popular” daqueles lados) com vinte anos de uso (mesmo que a riqueza permita muito mais que isso).

A “Lei de Jante” veio de um conto dinamarquês dos anos 30, sendo que “Jante” é a cidade fictícia onde tudo se passa. Quem conhece aqueles lados sabe que a Lei de Jante é um fenômeno real. Obviamente, existe ostentação por lá, mas bem menos pronunciada que em outros lugares. Inclusive, nos círculos de negócios dos países nórdicos, é uma discussão comum se a Lei de Jante não acaba inibindo o empreendedorismo e a inovação, por causa do estigma negativo associado a pessoas que “ficam ricas”.

Para nós, brasileiros (que gostamos de uma ostentaçãozinha…), esse tipo de comportamento pode parecer surpreendente. Mas, talvez, a Lei de Jante seja apenas uma versão mais radical daquilo que, aparentemente, é um comportamento humano natural.

No começo deste mês (agosto de 2018) foi publicado um interessantíssimo estudo científico chamado The Status Signals Paradox (O Paradoxo dos Símbolos de Status – em tradução livre), conduzido por pesquisadores de universidades dos Estados Unidos, Israel e Cingapura.

O estudo mostra que, ao contrário do que muitas pessoas imaginam, símbolos de status como carros exóticos e roupas caras acabam fazendo com que as pessoas que os possuem sejam vistas como MENOS desejáveis para se ter como amigos do que pessoas que utilizam coisas mais “normais”.

Não se questiona aqui que esses símbolos de status impressionam e podem ter um papel importante, por exemplo, num contexto de negócios. Mas os autores trouxeram à tona um assunto muito pertinente: nos círculos de psicologia e de saúde mental, muito sem tem falado sobre a importância das amizades e das relações sociais para o bem-estar das pessoas, especialmente na fase adulta (onde muitos acabam se tornando solitários e sofrem com isso).

Assim, pessoas que se apoiam em símbolos de status, com o objetivo de serem “aceitas” socialmente, podem estar conseguindo o efeito contrário, que é se isolar e afastar ainda mais as pessoas. Com isso, um importante fator para uma boa qualidade de vida (que são as amizades) fica comprometido e fragilizado.

Isso reforça uma tese, muito discutida no mundinho das finanças pessoais, de que as pessoas devem consumir “para si próprias”, e não para os outros. Existe uma frase bastante conhecida (que a cada hora se atribui a um autor diferente – então vamos considerar que é de autor “desconhecido”), que diz que “as pessoas gastam o dinheiro que não têm, para comprar coisas de que elas não precisam, para impressionar pessoas com quem elas não se importam”.

O estudo apenas fornece mais uma evidência (afinal, os nórdicos já sabiam disso…) de que a ostentação acaba, no fim das contas, jogando contra nós mesmos.

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