O mito do bilionário frugal

A imagem de alguns bilionários é meticulosamente trabalhada para tentar diminuir a antipatia do público que, frequentemente, associa riqueza com injustiça

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Eu fui colega de escola da filha de um bilionário. Não vou dar muitos detalhes para tentar não expor quem é (mas, para quem quiser investigar e descobrir, não vai ser difícil saber de quem estou falando).

Esse bilionário tinha uma imagem pública, amplamente divulgada em revistas, jornais e outros meios de comunicação, associada à frugalidade, ao trabalho duro e ao ascetismo (desculpe, baixou o “Max Weber” aqui por um instante…). Era um bilionário que fazia questão de mostrar que era “gente como a gente” (apenas mais rico). E essa riqueza toda, associada à imagem de frugalidade, reforçava a ideia de que aquela fortuna era, de fato, resultado de muito esforço e suor. Ou seja, era um bilionário para ser admirado, e não atacado e odiado (como acontece com muitas pessoas extremamente ricas).

Porém, o que eu via na escola não estava em perfeito alinhamento com essa imagem pública. Na escola, a conversa era outra… Com direito ao “kit bilionário” típico, que inclui iates, ilhas particulares, exércitos de serviçais e outras coisas do gênero.

Então, desde cedo eu já aprendi a identificar essa dissonância entre “discurso” e prática”, no que diz respeito à vida das pessoas muito ricas.

E não que seja algum problema viver “ricamente” (ao contrário), mas esses mitos acabam gerando ideias e crenças incorretas na mente das pessoas que não têm a oportunidade de ver como as coisas são “nos bastidores”.

Uma dessas crenças é a ideia romantizada de que a pessoa poderá ficar rica, simplesmente, economizando dinheiro de forma agressiva e vivendo de forma miserável. É comum pessoas confundirem “frugalidade” com “sacrifício”.

E outra crença potencialmente incorreta é a de que existem os ricos “bons” e ricos “maus”, sendo que os “bonzinhos” são aqueles que não “esfregam” publicamente a riqueza na cara das pessoas. Bem, não existe essa coisas de ricos “bons” e ricos “maus”. O que existem são pessoas boas e pessoas más. O que acontece é que as pessoas más “pobres” precisam pegar mais leve na maldade, pois têm recursos limitados e podem precisar de ajuda dos outros com mais frequência – por isso, parece que não há maldade (ou há MENOS maldade) nos extratos inferiores da sociedade.

Warren Buffett: maior investidor do mundo

Warren Buffett: maior investidor do mundo (Paul Morigi/Bloomberg)

Nos EUA, a ideia do bilionário frugal é amplamente difundida e usada como “exemplo de vida”. Desde as camisetas do Mark Zuckerberg até a casa do Warren Buffet. Tudo isso alimenta a imagem do “bilionário boa praça”.

Mas uma rápida pesquisa na internet mostra que as coisas não são bem assim. Muitos desses bilionários têm uma vida bastante opulenta atrás desse “disfarce de frugalidade”.

Há poucos anos, eu fiz a revisão técnica da versão em Português de livro muito interessante: A autobiografia de uma figura bastante conhecida do mercado financeiro.

A figura em questão acabou se tornando amigo pessoal de Warren Buffet e, ao longo do livro, conta passagens onde relata ter ficado em várias (“várias”… no plural mesmo) propriedades de luxo do velhinho de Omaha…. Mas, peraí? E a tal história da casa, que foi comprada quando ele era jovem e blá, blá, blá…

Pois é, a casa é real. Assim como as camisetas do Mark Zuckerberg (que, dizem os entendedores do assunto, não são aquelas camisetas que a gente compra numa loja de departamentos típica).

 (Stephen Lam/Reuters)

O que as pessoas precisam ter em mente é que essa imagem de “gente como a gente” é meticulosamente trabalhada por profissionais de comunicação que SABEM que existe um viés “anti-riqueza” no mundo. Gostamos de acreditar que estamos numa situação ruim por causa “dos outros”. No caso, acreditar que somos pobres porque os ricos “pegaram tudo para eles” (o que é falso, evidentemente – nesta situação, os ricos viram um bode expiatório para explicar o fracasso pessoal de algumas pessoas).

Então, a imagem do “bilionário frugal” é uma coisa construída por profissionais – é uma “ferramenta de relações públicas” para gerar mais simpatia das pessoas.

A frugalidade desses ricaços é, em grande parte, marketing pessoal. E, novamente, marketing pessoal não é ruim (ao contrário, todos nós devemos fazer). Apenas devemos ter mais cuidado e ser mais críticos com as coisas que a gente vê e ouve “por aí”…

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