Quando investidores amadores superam os profissionais

Nem tudo são flores no mundo dos investidores profissionais. Às vezes, os amadores saem na frente e têm vantagens.

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Existe uma “mítica” que cerca os investidores profissionais. Há uma percepção geral, no mundo todo, de que investidores profissionais “sabem o que estão fazendo” e que estão, de alguma forma, isolados das agruras que afetam os investidores amadores ou individuais.

E, antes de prosseguirmos, é importante ressaltar que estou me referindo, no caso dos investidores profissionais, àqueles que têm a gestão de recursos de terceiros como atividade profissional. Aquele investidor individual que investe os próprios recursos e “vive daquilo” é, para os fins deste artigo, tratado como um investidor amador (aliás, para tentar desfazer um pouco esta confusão sobre o que define um investidor profissional, sugiro a leitura deste outro artigo de minha autoria: “Como investir seu dinheiro como um profissional”).

Porém, essa percepção de infalibilidade dos profissionais não é suportada pelos fatos. Inúmeros estudos e pesquisas (como o famoso SPIVA, da Standard & Poors) mostram que os profissionais, em grande parte, “perdem” para seus índices de referência no longo prazo. E, pior que isso, acabam sendo vítimas de fatores psicológicos e emocionais de forma igual ou pior que os investidores amadores.

Recentemente li um artigo muito interessante (em Inglês), do blog Behavioral Investment, entitulado “Ten Behavioural Advantages Amateur Investors Hold Over Professionals”, e ele me inspirou a escrever algo similar, com contexto mais adaptado à nossa realidade e com algumas visões pessoais.

Volumes, fricção e slippage

Quando se fala em possíveis vantagens que um investidor amador tem, a “fricção” é a primeira coisa que me vem à cabeça.

Às vezes, as pessoas me perguntam coisas como: “É possível ganhar 5% ao mês operando no mercado financeiro?”. A resposta para isso é “até é possível” (se você fizer operações de prazo mais curto, souber usar a alavancagem, tiver um método sólido e muito talento – e lembrando que “possível” não é sinônimo de “fácil”).

Porém, uma coisa é fazer isso com uma conta de centenas de milhares de reais. Outra coisa, completamente diferente, é tentar “girar” o patrimônio de um fundo de investimentos tentando fazer operações oportunistas de curto prazo. É a velha metáfora de manobrar um jet-ski ou um porta-aviões.

Quanto maior o volume do patrimônio, maior a fricção e o slippage (Se não souber o que é slippage, leia este artigo meu: “Slippage – O que é este inimigo do trader?“). Aquilo que um investidor amador consegue fazer com cem mil reais, muito provavelmente ele não conseguiria fazer com cem milhões.

Você define seus prazos

Um investidor amador define os seus próprios prazos e pode montar a sua carteira de acordo com as suas necessidades. Por exemplo, um investidor individual com foco no longo prazo não precisa se preocupar tanto com oscilações de mercado.

Ele não precisa “marcar a mercado” a própria carteira; não precisa vender ativos em momentos “não ideais” para permitir a saída de outros investidores e também não precisa prestar contas a ninguém sobre a performance da carteira no curto prazo.

Já aquele investidor de curto prazo pode montar a sua carteira apenas com ativos adequados a esse horizonte de tempo. Ele não precisa se preocupar com coisas como “ter alta duration o tempo todo”.

Você pode ficar fora do mercado quando quiser

Esse é um luxo ao qual muitos investidores profissionais não podem se dar. Especialmente os chamados “Investidores institucionais” que, frequentemente, por conta de seus regulamentos, precisam estar permanentemente “comprados” no mercado.

Como investidor individual, você pode, a qualquer momento, colocar seu dinheiro “debaixo do colchão” e pensar no que vai fazer.

Você não é escravo de benchmarks

Uma coisa na qual eu sempre insisto para aqueles investidores individuais que me procuram (alunos, por exemplo) é que eles não devem dar tanta importância aos benchmarks (índices de referência como o Ibovespa, o CDI etc.).
Para profissionais, benchmarks são importantes. O sucesso (e, muitas vezes, a remuneração) de um profissional é “medido” em relação ao benchmark escolhido.

Já o investidor individual deve se orientar pelo ganho absoluto. Um investidor que viva de renda e precise, por exemplo, de cem mil reais por ano, precisa gerar, bem… Cem mil reais por ano! Não importa se isso é 80% do CDI, 150% do CDI ou se ficou acima ou abaixo do Ibovespa.

Pessoas “normais” pagam suas contas com dinheiro, e não com percentual do CDI. Se um dia nós tivermos uma taxa de juros “de primeiro mundo” (na casa de 1% a 2% ao ano), ganhar 150% do CDI pode não “resolver muita coisa” para o investidor. Investidores individuais precisam ganhar GRANA, e não superar benchmarks.

Para o bem ou para o mal, é SÓ você

Acho que um dos momentos mais frustrantes na vida de um investidor profissional é quando se está seguindo fielmente a estratégia estabelecida, mas as pessoas ficam cobrando e “torrando o saco” porque o desempenho no curto prazo não está sendo “dos melhores”.

Estratégias e modelos de investimentos não são perfeitos. Momentos ruins são esperados e, frequentemente, fazem parte desses modelos. Porém, os investidores que usam serviços profissionais de gestão costumam ter certa dificuldade em entender isso, e ficam pressionando os profissionais (especialmente os gestores de carteiras) para “tomarem uma atitude” (sendo que “tomar uma atitude” significa, quase sempre, violar a estratégia que está sendo seguida).

Investidores amadores não sofrem esse tipo de pressão e podem seguir suas estratégias (assumindo que tenham confiança nelas), independentemente de resultados de curto prazo.

Enfim, nem tudo são flores no mundo dos investidores profissionais. E nem sempre os investidores amadores estão numa situação de inferioridade.

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