Do brigadeiro gourmet para o dogão da esquina…

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Quando se fala em finanças pessoais, a reação normal da maioria das pessoas é associar o tema a investimentos e planilhas. Porém, o tema mais importante do universo das finanças pessoais e da educação financeira é, sem a menor sombra de dúvidas, o consumo.

As razões são simples. A primeira delas, e mais obvia, é que TODOS nós somos consumidores. Qualquer ser vivo na face deste planeta é, tecnicamente falando, um “consumidor”. Até um bebê recém-nascido é um consumidor (ainda que ele não “pague” pelo próprio consumo). A segunda é que a gente “vive para consumir”. Nós não guardamos (e investimos) dinheiro apenas por guardar. Fazemos isso sacrificando nosso consumo do presente, para podermos manter nossa capacidade de consumo em um futuro de “vacas magras”. E a terceira razão é que grande parte das angústias financeiras das pessoas está associada ao consumo – alguns consomem de forma disfuncional e insustentável.

Uma das facetas mais interessantes da crise que estamos vivendo é um downgrade no consumo. Ainda vemos muita “doideira” por aí, mas parece que as pessoas estão voltando para a realidade e já vemos grande parte dos excessos dos anos recentes desaparecendo na atmosfera.

Um dos fenômenos da nossa “exuberância irracional” foi o infame processo de “gourmetização”, processo mágico de transformar comidas triviais em coisas “descoladas” e absurdamente caras. Ao menos para mim, de agora em diante, qualquer coisa com a palavrinha “gourmet” será associada, em meu subconsciente, a uma época em que as pessoas queimavam dinheiro…

A volta à realidade está sendo dura para alguns empresários. Perto de onde eu moro, logo quando começou a onda das paleterias mexicanas, abriu uma bem “ajeitada”, que não fazia parte das nascentes redes de paleterias que operavam, primordialmente, por meio de quiosques. Acho que a maioria das pessoas percebeu, rapidamente, que a coisa era de baixa sustentação (assim como os cupcakes, brigadeiros e afins), pois a nossa renda disponível é longe de ser brilhante e a relação entre demanda e oferta estava um pouco estranha. Mas eu “cantei a bola” para o pessoal da minha família que aquilo seguiria um certo padrão de decadência em que, antes de morrer, a paleteria passaria a oferecer comida por quilo ou viraria também um “café”, e o empreendedor diria, todo orgulhoso, que aquilo era para “expandir o portfólio.

Minha percepção veio de ter assistido, há alguns anos, o fim de uma loja de “empadinhas gourmet” há poucos metros de onde está a paleteria, que seguiu exatamente o mesmo padrão. É aquilo que, no mundo da bolsa de valores, chamamos de rally ou dead cat bounce. Um movimento de alta derradeiro antes de “morrer de vez”.

As circunstâncias econômicas estão empurrando o consumidor médio brasileiro para a posição em que ele estava antes desse surto gourmetizador. Estamos voltando, à força, para a realidade. E a realidade do nosso país não é a realidade dos brigadeiros gourmet e das paletas de quinze reais – é a realidade do “dogão” (agora só falta a van “Towner”) e da comida por quilo.

Bem-vindos à era da “desgourmetização”…

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