O Spotify é o melhor antídoto ao Facebook

Entre escândalos de vazamentos de dados, deixamos de lado o sucesso do IPO do Spotify

A novela Facebook parece não acabar nunca. Mark Zuckerberg repetiu mais uma vez, frente aos senadores e deputados americanos, que é culpado e que sente muito pelos múltiplos problemas ocasionados pela plataforma. A lista das falhas é imensa e conhecida de todos. Inclui desde anúncios piratas russos, proliferação de fake news e – o último e pior episódio – a utilização indevida dos dados de 87 milhões de usuários, para fins eleitorais, pela Cambridge Analytica.

A suspeição é inevitável de que os problemas não sejam apenas desatenção ou desleixo do serviço. Mas, que possam ser insolúveis e derivados do próprio modelo de negócios da empresa, que consiste em monetizar com publicidade dirigida, baseada em dados, um serviço que não é cobrado do usuário.

O barulho foi tanto, com direito inclusive a manchetes de primeira página de jornais diários, que outro acontecimento recente, do mundo de tecnologia, ficou esquecido. Falo do IPO (oferta pública inicial de ações) do Spotify, companhia líder em música digital.

O lançamento foi exitoso e trouxe consigo boas notícias em vários sentidos. Em primeiro lugar, pelo uso de uma modalidade de listagem direta, sem a costumeira intermediação dos bancos para avaliar o interesse dos investidores e definir o preço-alvo da ação. Também não houve nenhum aporte de capital na empresa. Simplesmente começaram a operar na bolsa, deixando que os acionistas, que quisessem vender, oferecessem suas ações ao mercado.

Ao contrário do que acontece em tais situações, ninguém da empresa apareceu para tocar o conhecido sino e dar as tradicionais entrevistas sobre o futuro da companhia. Para mostrar que mantém o espírito transgressor das startups, seu cofundador e CEO, Daniel Ek desafiou: “Normalmente as companhias tocam o sino. Spotify nunca foi o tipo de companhia que pode se chamar de normal”.

Apesar do ineditismo, o resultado foi promissor. A empresa abriu valendo US$ 29,5 bilhões, caiu para 26,5 bi no final do primeiro dia e, quando da preparação deste artigo valia 27,6 bilhões de dólares. Foi o oitavo maior IPO de tecnologia da história.

O essencial do modelo de negócios do Spotify reside no fato de que a porção majoritária da sua receita vem dos assinantes do serviço. Tinha, no final de 2017, 71 milhões de clientes pagantes, em um total de 170 milhões. O restante não paga e aceita receber gravações publicitárias, como contrapartida. Para ficar claro a diferença, 90% da receita de 4,09 bilhões de euros (US$5,03 na cotação atual) é de assinaturas mensais de US$ 10, na média. Apenas 10% é publicidade.

Para comparar, 98% do faturamento de US$ 40,7 bilhões do Facebook é publicidade.  O seu valor de mercado tem variado muito, em função da crise, mas é próximo a 500 bilhões de dólares, ou 20 vezes o Spotify.

Em tudo é uma comparação entre Davi e Golias, mas que vale a pena ser feita. Mais do que isso, temos que torcer para que o Spotify tenha sucesso. Seria bom para nós, usuários, e para o mundo.

Em primeiro lugar porque o Spotify é sueco. É muito bom ver um líder do mundo digital que não venha nem do Vale do Silício nem da China. Seu principal líder, Daniel Ek, é menos conhecido e mais “low profile” que Elon Musk, Jeff Bezos ou Larry Page, mas não deve nada a eles em capacidade empreendedora e liderança arrojada.

Em segundo, e mais importante, porque é a afirmação do modelo de monetização baseado em assinaturas. Para ser mais exato, do modelo “Freemium” em que uma parte paga por um serviço “premium” e a outra é “free”, com acesso a uma versão mais básica do serviço.

Tal modelo existe, como conceito, desde o começo da internet, mas por muito tempo ninguém acreditava que sustentaria negócios digitais significativos e sustentáveis. Não mais. O modelo de assinatura está pegando, para nosso bem.

O Netflix tem cerca de 110 milhões de usuários no mundo, todos pagantes. A Amazon tem 80 milhões de clientes, apenas nos Estados Unidos, que pagam US$ 99 dólares pelo Prime, que oferece filmes, música, descontos e entregas mais rápidas. O jornal The New York Times tem 2,6 milhões de assinantes digitais. O Dropbox – serviço de armazenamento de dados em nuvem –  que abriu recentemente o seu capital, atingindo US$ 13 bilhões de valor de mercado, anunciou ter 500 mil usuários pagantes.

A tendência não é só puramente digital. Muitos outros setores da economia estão migrando da compra para o aluguel. O software não é mais comprado por licença de uso, mas como serviço (Saas ou software as a service). O hardware virou nuvem e, também, é pago periodicamente pelo uso. Itens de consumo recorrente, como lâminas de barbear, passaram a ser oferecidas por assinatura. Mesmo equipamentos pesados, como turbinas de avião e locomotivas, são ofertados por horas de uso e não mais adquiridas. É a sociedade da subscrição.

Na recente sabatina, Zuckerberg foi perguntado se o Facebook iria sempre depender de um modelo de publicidade dirigida dependente de dados do usuário. Na rua resposta, Mark disse “que sempre haverá uma versão grátis do serviço”, deixando a porta aberta. Logo em seguida, diante de uma pergunta direta sobre se poderia haver uma versão paga, respondeu que “certamente consideraria ideias como essa”.

Anteriormente, em entrevista, Sheryl Sandberg – COO do Facebook e braço direito de Zuckerberg – afirmou que: “permitir que os usuários optem por não ter nenhum dado armazenado não é compatível com um serviço sem custo”. A alternativa seria um serviço pago, completou ela.

Como vemos, é um dilema fundamental. Uma verdadeira escolha de Sofia. Os números atuais dos maiores serviços de assinatura estão na casa dos 100 milhões de usuários. Nada comparável aos 2 bilhões que o Facebook tem ao redor do mundo. Por outro lado, há claramente um aumento substancial da rejeição à dupla “dados/publicidade” como modelo de negócios, pelos efeitos colaterais que ocasiona.

Tim Cook, CEO da Apple, resolveu engrossar o coro e pegou pesado. Disse que não gosta como Facebook e Google (leia-se Android) lidam com suas lojas de aplicativos. Completou que nunca estaria nessa situação (a do Facebook) e que o consumidor da Apple não é um produto. Fácil para quem tem mais de 70% da sua receita obtida com a venda de um dispositivo, o iPhone.

Por tudo isso, temos que torcer para o Spotify continuar dando certo. Mas, convenhamos, a missão não é nada fácil. É o líder inconteste do mercado de música por streaming. Tem 40% de market share com seus 70 milhões de assinantes. A Apple tem 30, a Amazon 20 (se não contarmos os assinantes Prime) e o Google 10 milhões. Só de listar, já dá para sentir os bolsos profundos dos concorrentes. A Apple, que criou o mercado de música digital em 2003 com o iTunes, não acreditou no modelo de streaming  e só lançou o seu Apple Music em 2015, mas é sempre um concorrente temível.

Tem também que começar a ganhar dinheiro. Teve um prejuízo de US$ 1,5 bilhão em 2017, apesar de ter geração positiva de caixa. Ao contrário do Netflix, que depende de produção própria, o Spotify não é dono do seu catálogo e recebe antes dos assinantes para depois pagar os músicos e as editoras, que levam cerca de 0,70 de cada dólar faturado.

Como os catálogos não têm diferenciação e o mercado de música é um oligopólio, o Spotify depende da confiança e da disposição das editoras musicais para continuar crescendo. Depois de 15 anos de atrofia, o mercado voltou a crescer nos últimos 4 anos. Em especial, atingiu US$ 8.7 bi nos Estados Unidos em 2107, um crescimento expressivo de 16,5%.

Os números internacionais ainda não são conhecidos, mas espera-se que o crescimento seja similar. O Spotify tem grande parte do mérito por essa recuperação. Daniel Ek disse, quando lançou o serviço em 2011, que faria a indústria voltar a crescer e cumpriu.

De disruptor está se transformando em salvador da indústria. A missão do Spotify é: “trabalhar duro para ajudar 1 milhão de artistas a viver da sua própria arte”.

Poderíamos acrescentar que, adicionalmente, tem como propósito ajudar a demonstrar que é possível existir um modelo de negócios escalável e sustentável, financiado pelos próprios usuários, com a privacidade preservada, em que as marcas sejam apenas coadjuvantes exemplares da jornada digital. Se conseguir, merece o topo da parada de sucessos.

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