O mundo pirou com a mania do Bitcoin

O Bitcoin é uma realidade inevitável e incômoda, ao mesmo tempo. O que está claro é que ninguém mais pode fingir que a onda não existe

Se você não vive em Marte ou Vênus já sabe que a cotação do Bitcoin passou de 10.000 dólares na semana passada. Uma valorização superior a 1.000% no ano. Não parou aí. A última cotação antes da publicação do artigo era  16.000 dólares. Quem sabe quanto estará no instante da leitura deste texto?

Todos os seres pensantes do planeta estão procurando uma explicação para tal fenômeno. Não há nenhuma. Interpretações lógicas não funcionam para um fenômeno puramente irracional. É uma bolha. Foi a afirmação que mais se ouviu. É claramente uma bolha. Algo que sobe 1.600% em 1 ano só pode ser uma bolha.

O Bitcoin tem muitos inimigos. Jaime Dimon, CEO do banco JPMorgan, declarou que o Bitcoin é uma fraude. Que estão atribuindo valor a alguma coisa que não tem valor algum. Comparou com a febre especulativa das tulipas na Holanda do século XVII, conhecida até aqui como a maior bolha de todos os tempos

Jeff Currie, chefe de commodities do banco Goldman Sachs, disse que o Bitcoin não é uma moeda. É uma commodity, como o ouro. É até “minerado” como o metal, disse ele. Pensando bem, a comparação com tulipas e ouro é injusta para as flores e o metal precioso. Bitcoin não existe no mundo real, nem tem nenhum valor material. É uma abstração tecnológica. Convenhamos que é difícil entender uma abstração em um mundo tão apegado ao material como o atual.

Joseph Stiglitz, Nobel de economia, afirmou que o Bitcoin não serve para nenhuma função social útil. Deveria ser banido. O megainvestidor Warren Buffet sustentou que não é possível atribuir valor ao Bitcoin porque ele é um ativo que não tem nenhuma utilidade.

Por mais intangível que seja, o Bitcoin foi criado para resolver problemas e limitações que os atuais sistemas bancários e monetários têm: taxas, restrições de uso, burocracia, dificuldade de transferência entre países, etc. Não importa se várias destas condições são impostas pelas autoridades para prevenir contravenções. O fato é que as moedas virtuais desintermediam os bancos e as autoridades monetárias.

Os opositores atribuem o crescimento estratosférico às transações feitas por terroristas, criminosos e habitantes de países problemáticos como Venezuela e Coreia do Norte. Também acusam que há fraude nas negociações e que compradores e vendedores transacionam entre si para aumentar artificialmente o valor da moeda.

Tudo isso pode e deve estar ocorrendo, mas atribuir todo o episódio a um complô de meliantes é não ver o que está acontecendo à nossa volta. Amigas e amigos estão comprando, empresas sendo criadas, instituições contratando pessoas e criando carteiras para explorar a novidade.

Pelo menos uma dupla de investidores é mundialmente conhecida. São os gêmeos Winklevoss. Aqueles que brigaram com Mark Zuckerberg, no início do Facebook e levaram 65 milhões de dólares como compensação. Em 2013 investiram 11 milhões de dólares em Bitcoins, ao preço de 120 dólares. Hoje têm mais de 1,5 bilhão de dólares.

Para desespero dos banqueiros e economistas contrários, veio o anuncio concomitante da CBOE e CME – as duas bolsas mercantis de Chicago – do lançamento, ainda em dezembro, de um mercado de índices futuros da moeda virtual. Há rumores de que a Nasdaq fará o mesmo no início de 2018.

Vai ajudar a legitimar um mercado visto como marginal, além de oferecer mecanismos de proteção e melhorar a liquidez. Vai, por outro lado, aumentar a complexidade. No mercado à vista, atual, só tem compradores – e alguns poucos vendedores – apostando no crescimento permanente do preço. No mercado futuro haverá também quem estará apostando contra a valorização e, eventualmente, ganhando dinheiro com a queda.

A baixa liquidez é o argumento mais usado para explicar a elevação constante. Calcula-se que existam cerca de 16,7 milhões de Bitcoins atualmente. Considerando o preço de 16.000 por unidade, o valor de mercado total seria em torno de 260 bilhões de dólares. O valor equivalente para o mercado lastreado em ouro ultrapassa 8 trilhões de dólares, mais de 30 vezes maior.

São argumentos demasiadamente pragmáticos para explicar um ativo que virou objeto de desejo e é, efetivamente, escasso para a demanda obsessiva que se formou. O limite máximo de moedas, de acordo com o algoritmo do sistema, é de apenas 21 milhões. Novas emissões acontecem apenas para remunerar os mineradores e o valor ganho se reduz a cada 4 anos. Até 2024 cerca de 20 milhões (ou 95%) já terão sido minerados.

Talvez a ameaça mais letal para que a moeda tenha vida longa é o seu alto consumo de energia. O processo de decifrar os códigos e juntar os blocos é complexo e exige máquinas de alta capacidade de processamento que dragam quantidades enormes de energia. Estima-se que o consumo acumulado, neste ano, chegue a 30TWh, maior que o de 159 países e 12 estados americanos. Para se ter uma ideia do volume absurdo, o total equivale a cerca de 6% de toda energia consumida no Brasil, no mesmo período.

Outro ponto relevante é o desvio da função original para o qual a moeda foi criada. A ideia original de Satoshi Nakamoto, seja ele (ou eles) quem for, era que o dinheiro fosse aceito como meio de pagamento na vida diária. O resultado é que, até hoje, a aceitação e o uso para pagar bens e serviços não é relevante. Boatos que a Amazon e outros grandes do varejo passariam a aceitar a moeda circulam há algum tempo, mas nunca foram confirmados. A própria volatilidade da cotação faz com que a definição de preços em Bitcoin se torne uma tarefa insana.

Por último, embora não tenha uma autoridade central, as decisões sobre a evolução da tecnologia são tomadas por uma comunidade de desenvolvedores espalhada pelo mundo. Há algum tempo há notícias de divergências e deserções no grupo. Com o crescimento da importância e do valor de mercado da moeda é difícil prever como esse equilíbrio instável será mantido para o futuro.

As ameaças e os riscos são muitos. A conclusão inegável é que o Bitcoin é uma realidade inevitável e incômoda, ao mesmo tempo. Nasceu para desafiar o sistema financeiro estabelecido e está cumprindo o seu papel. Os governos e reguladores viverão o difícil dilema de acolher e incorporar ou intervir e proibir, como começou a fazer a China. As instituições financeiras podem embarcar na onda ou tentar criar a sua própria moeda para competir. O que está claro é que ninguém mais pode fingir que a onda não existe.

O Big Boss do JPMorgan, na sua famigerada manifestação, disse também que se flagrasse seus funcionários negociando Bitcoins os demitiria imediatamente, por duas razões: por ser contra as regras e por serem estúpidos. Logo que saiu do estúdio recebeu um e-mail da filha afirmando que era uma feliz possuidora de 2 Bitcoins. Doce ironia.

Em um mundo em que a tecnologia distribui o poder e a concepção de valor é subjetiva, as certezas são sempre temporárias e podem se desmanchar no ar a qualquer instante.

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