O fim do poder de inovação disruptiva das startups

A inovação tecnológica não está nas mãos somente das novas companhias, mas na das antigas também

O seu futuro carro elétrico será um Tesla ou GM? Esta pergunta parecia ter uma resposta clara, até recentemente: Tesla. A empresa, liderada pelo mago Elon Musk, tem todas as características das startups que parecem invencíveis. Um empreendedor idolatrado, uma tecnologia revolucionária e um modelo de negócios imbatível.

O deus mercado, que antecipa vencedores e perdedores, deu a sua benção. Em meados do ano passado o valor de mercado da Tesla passou primeiro a Ford, depois a GM. Como comparação, saiu da linha de produção da Tesla algo por volta de 10 mil veículos por mês. A Ford e a GM produzem bem mais que essa quantidade por dia, nas suas várias fábricas espalhadas pelo mundo.

Até algum tempo atrás, as grandes montadoras mundiais pareciam destinadas à extinção. Não mais. Tomemos a GM como exemplo. Desde abril de 2017, as suas ações cresceram mais de 30%. Os analistas começaram a perceber que não só os resultados operacionais melhoraram, como a perspectiva da empresa em ser uma protagonista no mercado de veículos elétricos e autônomos estava melhorando muito.

Enquanto a Tesla sofre com atrasos constantes nas suas promessas de aumentar o volume de produção, o Chevy Bolt, também elétrico, é comercializado há mais de 1 ano e é líder de mercado. Fica claro que uma coisa é ter um protótipo tecnologicamente avançado, outra é produzir em escala, o que as grandes montadoras sempre souberam fazer.

Além disso, quando se fala de veículos autônomos, muitos consultores avaliam que as capacidades desenvolvidas pela GM já a colocam em primeiro lugar, seguida pela Waymo, da Alphabet, holding do Google. Waymo e Uber estão desenvolvendo veículos autônomos com parceiros, enquanto a GM fez investimentos suficientes para ter uma estratégia vertical e controlar todo o processo de projeto à fabricação.

Comprou por US$ 1 bilhão a Cruise Automation, uma startup de inteligência artificial, que está no centro do conhecimento necessário para comandar os veículos automaticamente. Também investiu em plataformas de computer vision, chamadas de Lidar, que enxerga o que está acontecendo fora do veículo e realimenta o algoritmo que toma decisões de acelerar, parar ou desviar.

Como resultado da combinação entre tecnologia avançada e manufatura em escala industrial, estima-se que a GM já esteja capacitada para produzir carros autônomos atualmente.

Com toda a indústria mudando da propriedade individual dos veículos com motoristas para o uso compartilhado de carros progressivamente mais autônomos, a empresa lançou seu serviço de compartilhamento de veículos chamado Maven, em piloto, inclusive no Brasil.

Não é só a GM que está se movimentando para barrar os novos entrantes e ter uma posição destacada no futuro elétrico, autônomo e compartilhado. A combinação Renault-Nissan-Mitsubishi anunciou o lançamento de um fundo de Corporate Venture de 1 bilhão de dólares para investimento na “nova mobilidade”. Já fez o primeiro aporte em uma empresa de desenvolvimento de baterias, parte essencial para a produção dos elétricos.

Poder-se-ia contar histórias similares, com mais ou menos sucesso, da BMW, Volkswagen, Toyota e outras. O significado é claro. Todos os incumbentes já entenderam como o mundo futuro será e não estão dispostos a deixar que alienígenas neófitos e destemidos ocupem o lugar que sempre lhes pertenceu.

Tal movimento está acontecendo em muitas industrias. Com o advento do conjunto de tecnologias que recebeu o nome de Quarta Revolução Industrial – Inteligência Artificial, Robótica, Internet das Coisas, Nanotecnologia, Biotecnologia – não há mais nenhum setor imune à disrupção. Se ninguém está a salvo, melhor que sejamos nós os nossos próprios carrascos, do que deixar que outros o façam.

Amazon, Berkshire Hathaway (do megainvestidor Warren Buffet) e JPMorgan anunciaram esta semana que vão criar uma companhia independente para prover serviços de saúde aos seus quase 1 milhão de empregados. O alvo é resolver a questão dos aumentos significativos dos custos médicos nos últimos anos, problema que atinge também o Brasil. Ninguém dúvida que qualquer solução inovadora e disruptiva que saia da parceria será futuramente oferecida ao mercado.

Em outros setores o fenômeno é similar. Bosch e Siemens, estão se transformando de companhias de produtos em empresas de software. A Bosch se autodenomina uma empresa dos 3S: sensores, software e serviços e se considera uma provedora de serviços de tecnologia e da internet das coisas. Sua grande missão é usar dados para ensinar “coisas a pensar”. Se parece um propósito do Google, não é mera coincidência.

Se olharmos industrias que já foram pegas de “calças curtas” pela disrupção, podemos citar: música, aluguel de vídeo, livros, taxis e jornais e revistas. Foram surpreendidas despreparadas no início da revolução digital. Olhando para vários outros setores que estariam em perigo a conclusão não é mais tão taxativa de que vão desaparecer ou ser afetados.

O mercado de vídeo na internet tem uma startup típica que é a Netflix, mas todas as indicações são de que haverá muitos outros players tradicionais como Disney – com a compra do Fox – AT&T com Time Warner, You Tube e Globo no Brasil.

As instituições financeiras, vítimas potenciais das fintechs, parecem mais fortes do que nunca. Estão todas investindo nas suas versões digitais e fazendo a transformação que precisam para ficar competitivas. No caminho compram e investem em startups para que não saiam do seu controle.

Outro setor, que parecia não ser capaz de sobreviver, é o de hotéis, companhias aéreas e agentes tradicionais do mercado de viagens, atacados por Airbnb e agentes de viagem online. As companhias aéreas estão sofrendo como sempre sofreram, mas por outras razões. As cadeias de hotéis continuam fortes e lucrativas. Os agentes de intermediação tradicionais estão se reinventando e ficando cada vez mais competitivos, enquanto muitos digitais penam para ser lucrativos.

Indo para o centro da disrupção, onde estão as gigantes de tecnologia – Google, Facebook, Apple, Microsoft e Amazon – que já podem ser considerados incumbentes – também parece não haver mais lugar para disrupção. Quem tentou foi comprado cedo, ou tarde, como foram os casos de YouTube, Instagram, WhatsApp e Waze. É razoável pensar que as autoridades concorrenciais não vão mais deixar que isso aconteça, mas como mostra o caso do Snapchat, o espaço é limitado para competir com a cópia rápida de suas melhores características.

Na seara do comércio eletrônico, a Amazon matou muitas redes, mas o Wall Mart resiste bravamente e dá sinais de que está se digitalizando e vai continuar sendo um concorrente competente, devido ao seu tamanho e capilaridade.

Restam os chineses. Aí a questão é mais complexa dada a força do mercado interno e o apoio incondicional do estado centralizado. Eles são, provavelmente, a verdadeira ameaça ao domínio dos campeões ocidentais. Não se pode dizer, contudo, que Tencent, Baidu e Alibaba sejam propriamente startups. São companhias consolidadas e poderosas mundialmente.

Um pequeno exemplo local, é a história recente que o nosso primeiro unicórnio – a 99 – não é mais brasileira, mas sim da chinesa Didi Chuxing. Será que teremos algum outro unicórnio que permanecerá legitimamente brasileiro?

Um outro indicador importante da força das grandes corporações no novo cenário de inovação é a quantidade de Corporate Venture sendo criadas e atuando ativamente no financiamento de novas ideias e startups. As estatísticas variam muito, mas algumas delas já dão conta, que em mercados maduros, o volume de dinheiro investido por corporações já é similar ou, em alguns casos maior, que o proveniente dos Venture Capital tradicionais.

Isto tudo significa que as startups estão condenadas, daqui para frente, a viver à margem das grandes organizações? Provavelmente não. Elas terão sempre um papel relevante em criar as novas indústrias e desbravar as novas fronteiras. O que parece estar ficando no passado é a ideia romântica de empreendedores, trabalhando em garagens e financiados por anjos e por fundos, com o poder de destruir setores estabelecidos e industrias inteiras. Agora, também as grandes companhias são agentes importantes da inovação disruptiva. A ficha caiu para todos.

 

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