A lambança no uso da tecnologia na Copa do Mundo

Apesar de tudo e de todos, o mérito da tecnologia vai acabar se impondo por suas próprias qualidades

Como até os paralelepípedos da Praça Vermelha já sabem, o árbitro de vídeo estreou na Copa do Mundo da Rússia. Seguindo uma antiga tradição de atribuir siglas de 3 letrinhas às novas tecnologias, chama-se VAR, ou Video Assistant Referree. Até o inicio da segunda rodada, quando este artigo estava sendo escrito, rivalizava com Cristiano Ronaldo como a grande estrela da Copa.

Diga-se, a bem da verdade, que foi a contragosto. O futebol resistiu o quanto pode. Viu todos os outros esportes aderirem. Os preferidos dos americanos – basquete e futebol americano – já usam há muito tempo. O tênis também, para marcar as saídas de bola. Até o vôlei adotou, com sucesso, para as difíceis marcações de toques no bloqueio, entre outras jogadas.

Os argumentos principais para fugir da tecnologia variam muito. Seguem alguns deles: os jogos vão ser demasiadamente interrompidos; os lances mais agudos dependem de interpretação porque futebol é um esporte de contato (como se basquete e futebol americano não fossem). O mais divertido deles é o que sustenta que acabariam as acaloradas e divertidas discussões pós-jogo. Em resumo, pode-se dizer que, na opinião dos dirigentes, seria inevitável, e até positivo, conviver com marcações erradas e uma certa dose polêmica no esporte bretão.

Joseph Blatter, o afastado e suspenso ex-presidente da Fifa, chegou em Moscou reafirmando a sua suspeição da tecnologia: “O VAR não é uma solução ideal. Os árbitros de vídeo são sempre diferentes e cada um tem uma maneira diferente de ver o futebol”. Como cada partida tem um árbitro diferente, deve fazer parte do esporte que cada um tenha o seu jeito de ver o futebol e interpretar as jogadas. Em cada cabeça, uma sentença e estamos todo bem com isso. Não é à toa que é dito que o futebol é uma caixinha de surpresas. Poderíamos também parafrasear Tom Hanks em Forrest Gump: o futebol é como uma caixa de chocolates, você nunca sabe o que vai encontrar.

Por que, então, não deixar tudo como sempre foi? A culpa, certamente, é da própria tecnologia, essa vilã. As partidas passaram a ser transmitidas com dezenas câmeras em alta definição. Alguns lances, mais ou menos passíveis de interpretação (impedimentos, se a bola entrou, gol de mão, etc.), passaram a ser vistos pelos expectadores, com precisão, de muitos e variados ângulos. O árbitro, coitado, só pode ver de uma perspectiva e sem direito a replay.

A partida final do último Campeonato Paulista entre Palmeiras e Corinthians, foi um exemplo dessa confusão. Segundos após a marcação do pênalti, para o Palmeiras, muitos no estádio já tinham visto pela televisão e sabiam que a infração era, no mínimo, discutível (full disclosure: o articulista é palmeirense e estava no estádio). Com a informação, a pressão dos jogadores aumentou muito e, depois de 12 minutos de paralisação, o árbitro voltou atrás. Foi acusado de intervenção externa, o que sem tecnologia é proibido. Um autêntico pastelão.

A maneira incompreensível como o instrumento deixou de ser usado no jogo do Brasil contra a Suécia e as explicações posteriores mostram que a Fifa implementou a tecnologia com muita má vontade e que não vai deixar que ela funcione plenamente. Em lances capitais suspeitos, como foi gol da Suécia, o mecanismo teria que obrigatoriamente ser empregado para permitir que o assoprador de apito pudesse ver a jogada novamente de outros ângulos.

Justamente por estar aberto a interpretações é que o lance deveria ser revisto. É isso que acontece no futebol americano e na NBA. Lances que decidem jogos são sempre revistos. É o que defendeu Marco Van Basten, diretor técnico da Fifa. Para ele, e para todos nós brasileiros, houve um erro da arbitragem. Nada disso convenceu os dirigentes, que reafirmaram o acerto da marcação e se negaram a compartilhar o áudio das conversas entre os juízes. Total falta de transparência.

Talvez influenciado por toda a discussão, no jogo contra a Costa Rica, o juiz holandês decidiu rever o pênalti que ele marcou, de uma posição privilegiada, em Neymar. Para espanto de todos nós, brasileiros, resolveu voltar atrás na marcação. Confirmou a afirmação de Blatter que cada juiz pode ter a sua maneira diferente e pessoal de ver e interpretar o jogo.

Apesar de tudo e de todos, o mérito da tecnologia vai acabar se impondo por suas próprias qualidades. No jogo da França contra a Austrália, o juiz virtual marcou acertadamente um pênalti e confirmou que a bola realmente entrou usando a Goal-Line Technology, ou GLT (3 letrinhas novamente). O instrumento funciona, como no tênis e no vôlei, com precisão, mostrando quando a bola ultrapassou inteiramente a linha do gol. Também a vitória da Suécia sobre a Coréia do Sul foi confirmada devido a um justo pênalti cibernético.

O futebol pode continuar retrógrado e analógico, se quiser. Mas, em tempos de Inteligência Artificial (IA), em que o Google acaba de anunciar que está treinando máquinas para prever quando um paciente vai morrer, uma aplicação muito mais útil – e menos mórbida – seria criar um software para analisar e decidir automaticamente, de maneira uniforme e homogênea, lances que exijam interpretação, como foram as duas situações nos jogos do Brasil.

É claro que lances como impedimentos ou se a bola entrou, nem precisam dessa sofisticação e podem ser definidas imediatamente por aplicações com sensores e visão computacional, como se faz com a tecnologia da linha do gol.

Mas, a minha proposta é ainda mais radical. Criar um robô – físico ou virtual – que substitua integralmente o árbitro e os assistentes. Poderíamos até manter um ser humano correndo e interagindo – aplicando cartões por exemplo – com os jogadores, mas totalmente orientado por uma máquina inteligente.

Se já é possível prever que aplicações de IA farão diagnósticos melhor que médicos e substituirão muitas profissões que fazem julgamentos especializados, por que não seriam capazes de analisar e interpretar imagens múltiplas e substituir o juiz de futebol. Muitas mães agradeceriam.

Mesmo considerando esta hipótese altamente improvável (eu sei!), o futebol não deixaria de ser o mais imponderável, imprevisível e surpreendente de todos os esportes coletivos. É sua natureza ser um jogo com muita tática, muita evolução e resultados numericamente baixos, quando comparado com outros esportes. Permite que times tecnicamente inferiores surpreendam, saiam na frente e sustentem o resultado com eficiência defensiva.

O futebol é o único dos esportes com duração definida que, ainda, usa o tempo corrido e não para o relógio nas interrupções. Favorece quem não quer jogar e só quer se defender. Para compensar, os árbitros dão um tempo extra que é, em geral, sempre padronizado. Nesta copa os tradicionais 3 minutos adicionais, do segundo tempo, viraram 5, por recomendação da Fifa.

Apesar disso, das 24 partidas encerradas quando da finalização desta coluna, 10 terminaram com o placar de 1 x 0. Enquanto todos os outros esportes fizeram muitas mudanças para tornar os jogos mais competitivos e os resultados mais elásticos, o futebol ficou parado no tempo. Continua permitindo apenas 3 substituições, o que limita a capacidade de um time mudar completamente seu estilo de jogo e reagir quando está perdendo.

Se dependesse dos dirigentes, por motivos claros ou escusos, o futebol continuaria para sempre analógico e fugiria das tecnologias que insistem em desnudá-lo e mostrar suas entranhas. Continuaria como na frase de Maradona após marcar seu gol contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986: “Lo marqué un poco con la cabeza y un poco con la mano de Dios”.

Mas, o futebol é maior que todas essas picuinhas e vai sobreviver e continuar nos emocionando, com mais ou menos tecnologia, com melhores ou piores dirigentes, com placares magros ou generosos, porque como disse magistralmente Nelson Rodrigues: “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana. Às vezes, num corner mal ou bem batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural”

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