A inacreditável rede sem hierarquia dos caminhoneiros

O episódio mostrou como existe uma clara desconexão entre as formas verticais de poder e o mundo real das relações sociais horizontais organizadas em rede

A paralisação acabou. O país voltou ao normal, ou quase. Estamos, agora, tentando entender o que aconteceu, contando os feridos e calculando os prejuízos. O que está passando desapercebido é que assistimos, surpreendidos, um fenômeno que tem tudo para se repetir muitas vezes: movimentos de opinião ou contestação estruturados em redes horizontais, com organização desordenada e sem liderança identificável.

O governo demorou para entender. Chamou os suspeitos usuais, negociou com os sindicatos e associações, fez um acordo e o anunciou em rede nacional. Faltou combinar com os russos, no caso a multidão de caminhoneiros, parados nas estradas, conectados pelo WhatsApp.

Quando a greve não parou, passou-se a buscar chefes e influenciadores. As culpadas seriam as transportadoras, o que configuraria um locaute, palavrão que as colocava fora da lei. Até agora só um empresário gaúcho foi detido, devido a um áudio em que gritava: “ninguém vai subir, ninguém vai descer”. Apesar de procurarem muito, não encontraram mais ninguém para incriminar.

Até que a ficha caiu. O ministro Raul Jungmann proclamou, ao fim e ao cabo, que o movimento foi “o ato inaugural do sindicalismo em rede, com o aparecimento de lideranças difusas em escala nacional”. Também disse que a rede estava produzindo líderes sem experiência, que surgiam, como do nada, durante o movimento.

A mídia também ficou procurando quem culpar e com quem falar. A ombudsman da Folha, na sua coluna semanal no meio da greve, cravou: “A imprensa foi atropelada. Folha não conseguiu responder à pergunta fundamental: Quem parou o país?”.

A revista Piauí foi a primeira a ir direto à fonte. Entrou nos grupos de WhatsApp dos caminhoneiros espalhados pelas estradas. Leu quando eles se insurgiram contra as forças federais e se negaram a encerrar a paralização. Registrou protestos contra o acordo que achavam que não lhes serviam: “Desde quando autônomo tem sindicato?”; “Acabou coisa nenhuma”.

Viu que cada bloqueio tinha seu líder. Ouviu sete líderes sobre quem melhor personificaria o movimento e não chegou a nenhuma resposta esclarecedora.

Até mesmo, o presidente da CNTA (Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos), Diumar Bueno, em um artigo para a Folha de S. Paulo, depois de tentar capitalizar em cima da greve (“Fomos verdadeiros guerreiros”) sentenciou: “Eis que os caminhoneiros, voluntariamente e de forma espontânea, começaram um movimento paredista”.

A pesquisadora Yasodara Córdova, da Escola de Governo de Harvard, que estuda como os governos lidam com a Internet, disse à BBC Brasil que foi a maior mobilização mundial feita pelo WhatsApp. Ao contrário de Facebook e Twitter, os grupos de WhatsApp só podem ter 256 integrantes, todo o conteúdo é criptografado e não há acesso público. Para mobilizar a multidão de caminhoneiros, que parou as estradas, é preciso uma quantidade enorme de grupos, com alguns poucos participantes comuns entre eles. Uma autêntica teia de pequenas redes.

A existência de redes horizontais não é nova na história do mundo. O tema é tratado em livro recente – ainda não disponível no Brasil – do historiador escocês e pesquisador da Universidade de Stanford, Niall Ferguson, chamado “The Square and the Tower: Networks and Power, from the Freemasons to Facebook” (A Praça e a Torre: As redes e o Poder, da Maçonaria ao Facebook).

Ferguson conta que, na história do mundo, sempre houve uma batalha entre estruturas de poder em rede e hierárquicas. As redes prevaleceram entre os séculos XV e XVIII. As hierarquias imperaram entre os anos 1800 e o final dos anos 1960, época das duas grandes guerras mundiais.

A partir dessa data, em especial com as revoltas de 1968 na França – que coincidentemente completaram 50 anos neste mesmo maio –, o final da guerra fria e a queda do muro de Berlim, as redes voltaram a predominar. Obviamente, com o crescimento exponencial das redes sociais, as redes humanas foram também exponencialmente empoderadas.

Ferguson argumenta que, até recentemente, a influência da internet foi maior nos negócios (vide o famoso efeito rede no crescimento das gigantes de tecnologia) do que na política. Mas, que, a partir de agora, as redes vão invadir a política, como demonstraram o Brexit e a eleição de Trump nos Estados Unidos.

No mundo contemporâneo as relações sociais são fortemente horizontais e as estruturas hierárquicas, como é o caso de governos, não sabem o que fazer com “aqueles que não têm governo”. No nosso caso, chegou-se a um acordo ruim e insustentável para acabar com a greve. Os dias que se seguiram mostraram que não é viável mexer impunemente na economia, de maneira heterodoxa, como foi feito para contentar os caminhoneiros.

A mais recente edição da revista EXAME (capa com a manchete “A Tentação Populista”) resume, já no título de seu artigo principal, o que aconteceu: “O Caos. E ainda pode piorar”. Em outra reportagem intitulada “A lição mais cara de Temer” é narrada a ineficiência e as dificuldades do governo na negociação com os caminhoneiros.

O trecho a seguir é especialmente revelador da complexidade da situação: “Ocorre, porém, que o setor de inteligência não estava treinado para esse novo mundo, em que as lideranças não podem ser identificadas porque espocam localmente, alimentadas por mensagens em redes sociais, e são menos guias que interpretes – quer dizer, podem ser desautorizadas no instante em que deixarem de refletir a satisfação geral”

Será que é mesmo possível criar diálogo e condições de negociação entre entidades tão dispares? Será que praça e torre conseguem se comunicar? Quem a torre deve ouvir, na praça, se não há líderes? Será que não é hora de pensar que os mecanismos atuais da democracia representativa estão defasados frente às mudanças culturais e tecnológicas. Só encontrando uma maneira de representar politicamente a rede e a praça é que os monólogos desencontrados atuais encontrarão uma articulação.

A repercussão da paralisação na população é sintomática da falência dos modelos de representação e articulação existentes. Uma muito repercutida pesquisa, feita ainda durante a greve pela DataFolha, mostrou que 87% dos entrevistados apoiavam paralização. Uma mais recente do Instituto MindMiners, feita a pedido da EXAME para a edição citada acima, revela que 91% consideram a greve justa e necessária.

Números perto de 90%, dificilmente vistos em pesquisas similares, mostram que a rede virtual é muito maior que a classe de 1 milhão de caminhoneiros autônomos, que protestava. Mais ainda, no DataFolha, 56% disseram que o movimento deveria continuar mesmo considerando que a vida de todos estava profundamente afetada.

O que deixou aturdida a minoria discordante foi que os mesmos 87% disseram que não concordam em ser penalizados com aumento de impostos e corte de gastos federais. Quem reclamou – e foram muitos – da óbvia contradição esquece que o sentimento dos nossos cidadãos não se rege pela lógica fria dos economistas e analistas. O que eles estão expressando é que querem outro país. Uma nação, em que os combustíveis não sejam tão caros e que, para que isso aconteça, não seja necessário aumento de impostos nem corte de gastos essenciais. É a expressão de um desejo, não uma lógica racional.

Existe uma clara desconexão entre as formas verticais de poder e o mundo real das relações sociais horizontais organizadas em rede. Até que a praça vire torre e a torre vire praça, viveremos com os conflitos e desassossegos que passamos nas últimas semanas e a praça continuará sendo terreno fértil para os populistas de plantão.

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  1. Julio Rodrigues Neto

    O protesto, foi contra a carestia generalizada no País. Por isto, o apoio da população. Não é tão difícil interpretar, e entender isto. A classe dominante, ao contrário das demais, não foi afetada pela greve. Continuam recebendo os seus altos salários, e os seus benefícios, trabalhando ou não, fazendo sol ou chovendo.