Trump e os eleitores irracionais de nosso tempo

Decisão sobre aço e alumínio reafirmam mal governo do presidente americano

Se havia alguma dúvida de que Trump entraria para a história como o pior presidente americano, não resta mais. Sua decisão unilateral de aumentar as tarifas de importação de aço e alumínio vai contra todo o consenso óbvio que se criou na economia ao longo dos dois últimos séculos, e não falamos aqui nem de décadas.

As razões negativas são evidentes por todo o impacto negativo na cadeia de produtos que usam aço e alumínio em sua composição. O resultado final será o aumento do preço para o consumidor final com efeito rebote negativo nos produtos americanos exportados que usam esses insumos.

Mas bem mais do que isso, o conflito maior virá das retaliações que os EUA sofrerão por essa decisão. O resultado final não cairá apenas nas cadeias de aço e alumínio, mas é fácil ver a reação em cadeia para toda a economia americana em termos de menos exportações, menor crescimento e preços mais elevados. No final, será uma queda de bem-estar para o consumidor americano em que preços mais elevados significarão aumento da desigualdade de renda por afetar a população mais pobre, menos protegida dos impactos negativos do aumento de preços.

Vê-se alguns comentaristas apoiarem tal decisão alegando que os próprios americanos e ingleses cresceram no século XIX abusando do protecionismo. O problema dessa comparação é que estamos falando de um período em que isso era a prática normal mundo afora. A percepção de que o livre comércio era positivo para a população foi consolidada apenas no século XX. Até então, não era tão consensual a ideia de que aumentar o comércio ajudaria na estabilidade dos preços e no bem-estar da população, até porque essa não era vocal como hoje. O avanço da democracia permitiu que políticas que favorecessem o bem-estar da sociedade fossem sendo aprofundadas. O livre comércio, assim, é uma conquista positiva do aumento da democracia no mundo, pois permitiu à população angariar preços mais baixos pelos produtos consumidos.

A aristocracia mais vocal impunha protecionismo e outras medidas que eram claramente contra o bem-estar da população geral. Exemplo disso foi o padrão-ouro ao longo da história. Durante os anos de 1870 a 1914 foi bem mais fácil de sustentar tal política porque a maior parte da população não votava e não tinha ingerência política sobre as consequências econômicas do padrão-ouro. Em países deficitários de ouro durante aquele período a consequência era a deflação, que foi o que aconteceu na Inglaterra durante mais de 20 anos, período esse que viu uma queda de preços de mais de 30%. Sem força política, a consequência era o corte de salários para a população em geral, o que ao menos evitava pressões no desemprego. Na tentativa de volta do padrão-ouro nos anos 20 na Inglaterra, com salários mais rígidos, a consequência foi recessiva. Poderia se dizer que a democracia não permitiria mais sistemas rígidos como o padrão-ouro que causassem algum prejuízo à sociedade. Recessões teriam cada vez mais consequências políticas.

E, de fato, as populações das democracias ocidentais estão cada vez mais vocais, a ponto de elegerem candidatos como Trump e optar pelo Brexit. São resultados contrários ao próprio bem-estar dessas sociedades, mas cujos efeitos apontam com mais clareza como o livre comércio é muito melhor que o protecionismo, em geral. A discussão toda tem sido em como reverter o Brexit, ou suavizá-lo ao máximo, e deter as investidas protecionistas de Trump. Neste caso, seus eleitores votaram por justamente acreditar que fechar a economia seja algo positivo, cada um pensando em seu próprio entorno.

O grande problema é que as consequências negativas dessa decisão devem demorar mais para chegar. Estão ainda circunscritas a dois produtos e um país só. Diferentemente da onda protecionista dos anos 30 quanto as principais economias do mundo optaram por tal política, aprofundando a depressão.

Mas como o exemplo da Grande Depressão não serviu para demonstrar o erro de apoiar o protecionismo? O problema é que além de uma população cada vez mais vocal e um mundo também cada vez mais globalizado, a educação entra como elemento importante. Bryan Caplan, em “O Mito do eleitor racional”, apresenta resultados que mostram que quanto menos educada a população, mais a opção pelo protecionismo, xenofobismo e que tais nacionalistas ganham força. É esse eleitor com piora na qualidade da educação nas últimas décadas que optou por políticas irracionais do ponto de vista econômico. O resultado é interessante em mostrar que pessoas com grau de educação mais elevado tem preferências por políticas econômicas em geral próximas do que a teoria econômica tradicional aponta.

A possibilidade de se voltar a práticas comerciais arcaicas, assim, é coerente com o eleitor médio americano. Dado que não há solução de curto prazo para isso e que dessa vez o protecionismo parece vir mais lentamente, podemos estar entrando em um período mais complicado da economia mundial, em que as duas principais potencias mundiais, EUA e China, apresentam tendências nacionalistas. Não há saída fácil desse enrosco, mas uma coisa é certa. Tais opções são claramente um tiro no pé da classe média mundial, que vão apenas empobrecê-la mais ainda, cada país a seu tempo.

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