Os americanos à porta de outra recessão

A decisão salomônica do Fed ao não optar pelos extremos faz parte da sua cartilha ortodoxa de evitar cavalos de pau nos juros

A sinalização do Fed, o banco central americano, de que subirá menos juros em 2019 do que se esperava anteriormente trouxe surpresa para parte do mercado. Havia a expectativa de que o banco pudesse até parar de subir os juros depois desta última decisão, por conta dos riscos que se acumulam na economia americana. Mas por outro lado, há os que pensam que os riscos são no sentido contrário, ou seja, que os juros reveriam subir mais, pois o forte aquecimento da economia poderia pressionar mais a inflação em 2019.

Entre subir nada ou quatro vezes de 0,25 ponto percentual ano que vem, o Fed sinalizou, por ora, duas altas em 2019. Ficou no meio do caminho, que nesse momento pode ser a melhor solução.

Parar de subir os juros agora é precipitado. A economia americana segue em forte aquecimento com o PIB médio de 3,2% de expansão nos últimos seis trimestres, muito forte para uma economia madura como os EUA. Mas pior que isso é que o ciclo de recuperação se estende desde 2009 e em junho do ano que vem completará o maior ciclo de recuperação da história americana.

Ao mesmo tempo, a taxa de desemprego está em níveis recordes de baixa, com 3,7% em novembro e sinalizações, dependendo da fonte, de queda adicional para 3% a 3,5%. Essa forte pressão no mercado de trabalho tem acelerado o crescimento do número de pessoas de fora da força de trabalho de volta para a mesma. Em muitos casos, são pessoas mais velhas ou que estavam há muito tempo fora do mercado.

A pressão de custos no mercado de trabalho tem aparecido, com os salários crescendo acima de 3% no interanual pelo segundo mês consecutivo, e ritmo semelhante ao que se via em 2006 e 2007, no último ciclo de alta de juros. Para piorar o cenário, a guerra comercial é elemento adicional de pressão de custos para a economia americana, com relatos de diversas empresas de pressões de preço de insumos, ainda não repassados totalmente para o consumidor.

Com pressão de custos e demanda ainda elevada, a inflação tem grande chance de continuar pressionando em 2019. A recente queda do preço do petróleo ajudou a conter em parte essas pressões, mas, por ora, a sinalização da OPEP é de querer manter o preço do barril em torno de US$ 60, sem novas quedas adicionais muito fortes nos próximos meses.

Esse cenário de inflação em construção sanciona a preocupação de parte do mercado com uma elevação mais agressiva de juros ano que vem, mas há a visão oposta.

Nesse caso, a forte desaceleração que se percebe em alguns mercados, especialmente aqueles mais sensíveis a viradas de ciclo, como bolsa e mercado imobiliário, sinalizariam uma recessão quase iminente que demandaria uma parada imediata da subida de juros.

De fato, um sinalizador importante nesse caso é a dívida corporativa americana, que hoje se encontra em níveis similares aos momentos que antecederam as crises de 2001 e 2008, com o agravante de que 60% dessa dívida se encontra apenas um grau acima do investment grade. Ou seja, mudanças adicionais de juros que pressionem a dívida dessas empresas podem arrastá-las para grau especulativo fortalecendo um círculo vicioso que aceleraria a recessão.

Ao mesmo tempo, o mercado imobiliário americano dá sinais de desconfiança por parte do consumidor. Aumentou sobremaneira nos últimos meses o estoque de imóveis não vendidos e o indicador de sentimento da construção, NAHB, teve queda abrupta em novembro, em que pese ainda estar positivo. Mas a virada desse indicador na última recessão se deu cerca de dois anos antes da confirmação da recessão por lá. Sem possibilidade de reversão do aumento dos juros, os empréstimos imobiliários continuarão desacelerando nos próximos meses. Reforçando a sinalização de deterioração, a S&P já caiu 11% desde o pico em 20 de setembro, com sinais de que novas quedas ocorrerão.

Pode-se usar o argumento também de que a queda do preço de petróleo ajuda a diminuir o ritmo de atividade depois de os EUA terem se tornado os maiores produtores de petróleo do mundo novamente, algo que não se via desde o início dos anos 70. Essa queda de atividade poderia compensar em parte o aumento de renda disponível para a população da queda do preço da gasolina, que tenderia a pressionar ainda mais a demanda.

A decisão salomônica do Fed ao não optar pelos extremos faz parte da sua cartilha ortodoxa de evitar cavalos de pau nos juros. Mas talvez a razão mais preocupante para o Fed ter subido no muro foi o presidente Trump, que tem sido vocal além da conta nos pedidos para que os juros não subam mais. Não é lícito dizer que o Fed tenha se contaminado pela fala do presidente, mas as decisões do banco agora serão feitas também sob esse escrutínio, o que não é bom para a credibilidade do banco. Há risco de que ele possa eventualmente ter que ser mais agressivo para firmar posição de credibilidade por conta das falas intempestivas do presidente.

Assim, talvez o mais evidente de todo esse imbróglio é que os EUA têm um dos piores presidentes de sua história, que de várias formas tem sido causador de muitos dos apuros em que os americanos se encontram nesse momento. Além de tudo, Trump entrará para a história como presidente que forjou cortes profundos na pesquisa científica básica americana e aprofundou o desequilíbrio fiscal, dois elementos que serão geradores de baixo crescimento no futuro.

A melhor solução será esperar que os democratas tenham a luz de encontrar um candidato que fuja desse perfil radical que muitos países desenvolvidos parecem ter tomado gosto nos últimos anos. Está nas mãos dos democratas saber se os EUA seguirão no caminho de decisões extremadas ou não.