O investimento já está em recuperação

Às vezes parece que a narrativa política brasileira tem sido escrita por um roteirista de segunda linha, daqueles alinhavados de clichês um atrás do outro e, pior, se aproximando das pornochanchadas da década de 70. Agora é o fetiche pelo bigode de um ou as conversas pouco republicanas do dono da JBS. O caos ficou rotineiro, não espanta mais nem as situações mais absurdas. R$ 51 milhões escondidos em um apartamento em Salvador vira apenas peça de folclore em um mar irresoluto de falcatruas.

Nesse ambiente político nuclear, a economia segue impávida. Mesmo o terremoto de maio não afetou a trajetória esperada e voltamos à expectativa de crescimento que se tinha antes desse imbróglio. Digo voltar no nosso caso, pois ainda no começo do ano e hoje também há muitos que veem a recuperação apenas como um soluço, um morto-vivo prestes a desabar.

Cada vez mais parece claro que o cenário é de recuperação relevante. E quando dizemos relevante pode vir a dúvida do leitor sobre os números em si. Crescer 0,7% este ano e 3% em 2018 parece ainda muito pouco. Mas vejam, só parece. A retomada da economia não deixa a desejar em nada a outras recuperações. Pelo contrário, reverter quase 4,5 pontos percentuais em um ano (-3,6% ano passado contra 0,7% este ano) é semelhante à virada que tivemos no governo Collor, quando em 1992 a economia encolheu 0,5% e cresceu 5% no ano seguinte.

Dito isto, os números que temos visto estão longe de serem anormais. Pelo contrário, não se pode esquecer que a saída da crise se deu sem os instrumentos clássicos de política monetária e fiscal. Apenas este ano os juros começaram a cair para valer, com impacto mais relevante no segundo semestre, e a política fiscal, dado os estragos do governo Dilma, compareceu apenas com a liberação do FGTS. Ou seja, mais do que nunca o resultado que se vê tem sido dentro do esperado, especialmente pelo choque imensamente positivo da saída de uma presidente incapaz de coordenar a política com a economia. O impacto disso não é trivial e tem sido desconsiderado por diversos analistas.

Um exemplo dessa descrença pode ser visto nos investimentos. Pedir que este retome forte crescimento já este ano é esquecer de informar que o país passou pela pior recessão de sua história. Com isso, a capacidade ociosa subiu a níveis históricos. Qual o sentido de esperar grande retomada de investimento agora quando há tanta capacidade ociosa para ser usada? Lembremos do caso da indústria automobilística, que se preparou para vender 5 milhões de carros e amarga 2 milhões hoje. Sua capacidade ociosa chega a bater 50%. Por que investir nessas condições? Obviamente, novas plantas não fariam sentido agora. No máximo, há distribuição de ativos, com as fusões e aquisições acelerando. Mas e as máquinas e equipamentos? Depois de tantos anos de crise seria de se esperar um mínimo de retomada nesse setor. Afinal, a empresa não vai aumentar a planta agora, mas suas máquinas já estão depreciadas depois de quatro anos de paralisia da economia. Em geral, espera-se que em retomadas como essa o primeiro elemento a se recuperar é este segmento. E o que os dados dizem?

De fato, a absorção de máquinas e equipamentos ao final do segundo trimestre cresceu 2,9% na margem, ou seja, contra o primeiro trimestre. Em compensação, a construção civil caiu 2% no mesmo período, um resultado natural dado que não se espera neste momento forte retomada desse tipo de investimento. A normalidade da economia mais à frente vai naturalmente fazer a construção voltar a crescer.

No caso dos consumidores, a queda do desemprego e o aumento de renda, junto com a confiança de que não perderá seu emprego, o faz retomar os planos de nova moradia. No caso da construção pesada, a expectativa virá dos planos de concessão, em um primeiro momento, e da própria expansão do setor privado. Um país com demanda potencial de 200 milhões de pessoas, endividamento dos consumidores muito baixo (42% de dívida em relação à renda anual) e forte expectativa de queda estrutural de juros para os próximos anos abre o caminho para que o investimento privado naturalmente volte a acontecer em 2018.

Talvez já possa estar acontecendo. No trimestre encerrado em julho, a construção civil cresceu 0,1% contra o trimestre imediatamente anterior e a absorção de máquinas e equipamentos, 4,7%. O investimento como um todo sinaliza alta de 1,4% neste período (não considerando aqui a variação de estoques nem os dados de propriedade intelectual, que juntos correspondem a apenas 14% dos investimentos totais).

Há também elementos atípicos que jogaram contra os números do segundo trimestre, dando a impressão de um resultado generalizado muito pior do que de fato o foi. Em junho do ano passado, houve uma compra atípica de equipamentos de siderurgia da Coréia do Sul que aumentou em 100% os números de importação de bens de capital naquele momento. Em junho deste ano, como de se esperar, a queda foi significativa, impactando os dados de investimento (gráfico 1). Naturalmente, altas tão fortes como em junho do ano passado (gráfico 2) são muito atípicas e não podem ser consideradas como sinalizadoras de tendência. Em um exercício contrafactual, se junho do ano passado tivesse sido a média simples de abril e maio, a queda de investimento no segundo trimestre teria sido três pontos percentuais menor do que foi, ou seja, igual ao resultado do primeiro trimestre.

Entretanto, segue sendo verdade que os números ainda são baixos, mas o que se quer colocar nesta provocação é que o ritmo de retomada parece estar dentro do esperado dadas as condições presentes na economia. Ou seja, a saída de uma forte recessão sem os instrumentos clássico de uso na recuperação.

Assegurar a continuidade dessa recuperação dependerá da política. A vitória de qualquer candidato presidencial em 2018 minimamente afeito a reformas destruirá a parca retomada que se vê.

Gráfico 1. Absorção de máquinas e equipamentos (produção + importação – exportação) – crescimento mês contra mês do ano anterior em %

Gráfico 2. Quantum de importação de máquinas e equipamento (média 2006=100)

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