O Fed se apequena diante de Trump

O banco central dos EUA até pouquíssimo tempo cogitava de três a quatro altas de juros esse ano e agora arrisca até cortar as taxas

Se havia alguma dúvida da tropicalização na condução da política econômica americana, já não há mais. A decisão provável do Fed de parar de subir os juros esse ano lembra em muito a decisão do nosso Banco Central em meados de 2011, quando o então presidente decidiu dar um cavalo de pau na política monetária depois de considerar que a Europa estava entrando em crise e isso sugeriria uma queda de juros aqui dentro. O resultado anos depois foi um processo inflacionário e uma crise recessiva profunda que está na memória de todos.

O próprio Fed já teve seu momento tropical nos anos 70 quando um longo período de estagflação se deu em decorrência de políticas monetária e fiscal lenientes. Os argumentos de então eram que a inflação era um problema de custos que o Fed nada tinha a fazer. O resultado conhecido foi a necessidade anos depois de um forte choque monetária para contenção da inflação de dois dígitos que os americanos tiveram. Há aqui um disclaimer de que o conhecimento de política monetária era muito menor do que hoje, o que torna a decisão do nosso Banco Central em 2011 e do Fed de agora mais surpreendentes.

Novamente, como no Brasil, o Fed usou a Europa como bode expiatório para parar de subir juros, argumento relativamente novo para a decisão do banco sobre a política monetária americana. O efeito de desaceleração do shutdown também ajuda na descompressão da inflação para este ano.

Mas o problema agora não é apenas de dados, ou seja, a variável a acompanhar não é mais apenas a inflação americana, que segue comportada. Há um elemento adicional que se chama Donald Trump. A politização do Fed se dá quando o presidente americano cogita tirar Jeremy Powell do banco por não colaborar para o crescimento americano, provocando até um dos famigerados twitters presidenciais.

A questão toda que se coloca é qual o grau de interferência sobre um presidente de Fed que até há pouquíssimo tempo cogitava de três a quatro altas de juros esse ano e agora mudou radicalmente o discurso, com risco até de corte da taxa. Não basta ser crível, precisa parecer crível igualmente e tudo o que o banco sinaliza hoje é de que a decisão tomada foi infeliz por ter sido tão abrupta e no meio dos petardos de Trump.

Trump parece de fato querer enfraquecer o banco central americano com sua ideia equivocada de manter o crescimento a qualquer custo. Vale lembrar aqui que ele está cercado de membros que pensam da mesma forma. Larry Kudlow, chefe dos conselheiros econômicos do presidente, disse que o Fed precisa de membros que acreditam que é possível ter um crescimento forte com baixa inflação. Comparação melhor com o banco central dilmista impossível. E nesse cenário a inflação americana vai acumulando riscos de alta mais significativos com um mercado de trabalho que segue muito apertado.

O grande dilema para os americanos é que há hoje uma política fiscal e uma política monetária francamente expansionistas em que ambos os condutores perderam credibilidade. No caso fiscal, o Congresso permitiu os excessos com a aprovação da reforma tributária sem nenhuma compensação tributária ou corte de gastos.

Essa contenção da alta de juros é enganosa e não evitará uma recessão no futuro, mesmo que postergada. Ela pode é piorar um cenário recessivo ao diminuir as chances de condições críveis de saída da recessão com juros agora muito baixos, quantitative easing ainda presente e fiscal com déficit elevado.

Em artigo escrito por mim aqui neste espaço no final do ano passado considerava os EUA às portas de uma recessão para o começo de 2020. Mais do que nunca o cenário americano que se cria para a frente é pior do que se poderia imaginar com a postergação dos ajustes necessários, à lá Dilma em seu primeiro mandato. Guardadas as devidas proporções, Trump parece seguir tanto o caminho petista no Brasil que, caso ganhe a eleição ano que vem, por descaso democrata na escolha de um concorrente, tenhamos um segundo mandato de crise permanente em que o impeachment será mais do que considerado, poderá ser um fato.