As lições de Temer para o próximo presidente

No final, um governo que parecia promissor, vai terminando o mandato com ares de envelhecimento rápido e incontornável

A recente farra fiscal protagonizada pelo Congresso trouxe mais um ar de déjà vu na política brasileira que nos fez lembrar nossos piores momentos. Certamente o Executivo barrará a maior parte delas por estarem relacionadas ao calendário eleitoral. Mas sinaliza o que pode vir pela frente.

No final, um governo que parecia promissor, vai terminando o mandato com ares de envelhecimento rápido e incontornável. Lições não faltam para o próximo presidente e há pelo menos três ligadas a momentos diferentes do período Temer que valem a atenção do próximo presidente.

Em 2016, o governo foi beneficiado pelo forte momento de crise. Em situações assim, consegue-se aprovar quase tudo, montando-se as equipes econômica e política adequadas para isso. Em um ano, o governo conseguiu desfazer parte do estrago anterior e inovar em outras áreas, como a regra do teto. Mas sempre nos vem à cabeça que muito do que foi aprovado já era de conhecimento prévio, ou seja, era apenas retomar as políticas anteriores já conhecidas, como foi o caso, por exemplo, do novo arranjo no setor de petróleo.

O governo que entrar não terá nem uma crise profunda para colocar a culpa nem medidas mais fáceis de aprovar. A falsa ideia de que retomar a gestão do primeiro ano de Temer será fácil de replicar pode aumentar o risco de não se aprovar o que precisa. Basicamente, porque as medidas necessárias agora são as mais difíceis, passando pela reforma da previdência, até evitar que o centrão desmonte a regra do teto. Claramente, este “novo PMDB” se coloca como nova força de poder e que terá dificuldade de entender a necessidade de restrições fiscais em um momento em que o país não está em crise. O efeito demonstração de uma recessão não estará presente para ajudar a forçar as mudanças necessárias. Corre-se o risco, assim, de entregarmos menos do que poderíamos se essa percepção não estiver clara.

Em 2017, o “fato novo” voltou a atacar. A política, e parece que especialmente a brasileira, tem sido pródiga em fabricar fatos inusitados e inesperados a todo momento. Ano passado, obviamente, o efeito Joesley foi devastador para as expectativas de continuidade das reformas.

A Justiça está muito mais atenta e cada vez mais a malversação do dinheiro público será escrutinado pelo judiciário. Invertendo a máxima conhecida, não basta parecer honesto, mas sim ser, de fato, honesto. Terá que haver uma preocupação do próximo presidente em montar uma equipe que não tenha rebarbas escondidas que possam cair nas malhas da promotoria pública.

Já em 2018, a fraqueza acumulada do governo desatou na greve dos caminhoneiros, para a qual um ajuntado de insatisfação geral com demandas esdrúxulas levou o governo ao corner. Como barata tonta, cedeu-se o impossível e estamos ainda às voltas com uma tabela de fretes impraticável, com o Legislativo ainda aprovando legislação favorável a uma tabela de frete mínimo. Crise de liderança em estado puro.

A greve foi fruto também de um imponderável, que foi o forte aumento de câmbio em conjunto com o aumento do preço do petróleo, mas serviu ao mesmo tempo para lembrar que o Estado tem um papel relevante nessas horas. No caso, ajustes de preços que sejam menos voláteis sem prejudicar a performance da Petrobrás.

Temer deixa lições que o próximo presidente precisa estar atento, por mais óbvias que pareçam, mas que causaram transtornos ao longo dos últimos anos, inclusive com a presidente anterior.

Primeiro, há que ser preciso e eficaz nas reformas necessárias. Não há tempo para tergiversação, pois as reformas são mais difíceis do que no passado. Segundo, pateticamente óbvio, honestidade dos componentes do governo deveria ser um mínimo a se observar com a Justiça cada vez mais ativa. Aqui, um forte escrutínio por parte da sociedade no passado de Ministros, assessores e do próprio candidato deveria ser a regra. Terceiro, há que ser firme e mostrar liderança. A elevada divergência de posições em que o país se encontra demanda liderança para que a conciliação necessária ocorra sem descambar para exigências descabidas. Isso vale não apenas para situações como a greve dos caminhoneiros, mas especialmente para a negociação do Executivo com um Legislativo que permanecerá muito fragmentado.

Eficácia, honestidade e liderança parecem fórmula de autoajuda, mas surgem mais do que nunca como elementos necessários para quem chegar ao Planalto em um país no limite do caos. Nas condições do Brasil atual é quase pedir a um super-homem para virar presidente, o que só mostra que os desafios não serão nada triviais em 2019.

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