A necessidade imperiosa de abrir a economia

Depois de abordar a recuperação do consumo e do investimento nas últimas duas colunas, passamos agora ao setor que estruturalmente é o mais desafiador para os próximos anos. Se estão sendo feitas medidas macro e microeconômicas para destravar a parte doméstica da demanda, o mesmo não pode ser dito sobre o setor externo.

Fruto de décadas de políticas erráticas e tendencialmente protecionistas, a balança comercial brasileira bastante superavitária passa uma falsa imagem de que está tudo bem no setor. Muito pelo contrário, é o que provavelmente trará mais problemas no futuro.

Primeiro, o forte superávit, que deve chegar a 70 bilhões de dólares este ano, surge de uma recessão devastadora para as importações e um processo longo de depreciação cambial advindo dos desastres do governo anterior. Por isso, quando se vê a taxa real de câmbio em comparação com os demais parceiros comerciais as notícias seguem positivas para a balança comercial.

Ao se fazer uma comparação da nossa taxa de câmbio efetiva, ou seja, ponderada pelos principais parceiros comerciais, com a média das taxas de câmbio efetivas dos principais parceiros comerciais o que se vê é que o real depreciou bem mais do que outras moedas nos últimos anos (gráfico 1).

Não chega aos picos alcançados na crise da eleição do Lula em 2002, mas ajudada pela forte recessão, ajuda a explicar a forte balança que agora temos.

Gráfico 1. Balança comercial e diferença de taxa de câmbio real (Brasil e principais parceiros comerciais)

É interessante aqui notar o velho discurso da heterodoxia que, por construção de pensamento mágico, a taxa de câmbio está sempre 30% defasada. Esse parece ser longe de ser o caso agora, sem falar que câmbio é um preço que não deveria ser manipulado para gerar resultados comerciais. Como todo preço, tem enorme volatilidade e dificuldade de ser controlado.

O caminho mais difícil é aumentar a produtividade do bem feito no país. Por mais difícil de fazer, sempre é mais cômodo pedir um pouco mais de câmbio. Nem Dani Rodrik, usual campeão do câmbio em políticas de desenvolvimento, compra muito mais essa ideia como relevante. Em livro recente, seu foco para gerar mais crescimento é pelo papel de melhora das instituições e reformas econômicas. Políticas industriais sabidamente foram colocadas de fora pela dificuldade que se vê de coordenar qualquer coisa relevante nesse sentido. Não adianta aqui políticas que privilegiem um ou outro setor como foi feito intensamente nos governos anteriores.

O que fazer então? Não há muita saída a não ser ampliar a abertura comercial. Os exemplos de como isso pode ser positivo para a economia são extensos, bastando aqui citar o exemplo da China, que aumentou empregos e eficiência depois da inclusão da OMC em 2001, e da Alemanha Oriental, que, segundo a OCDE, gerou 400.000 empregos no país entre 1988 e 2008. A própria OCDE, em estimativa recente, aponta que o aumento da abertura comercial em 1 ponto percentual gera 0,6% de crescimento da produtividade no longo prazo.

Por falar em OCDE, vale aqui citar estudo recente de seu departamento econômico que busca identificar o comércio internacional como algo benéfico para as sociedades. Ajuda também a desmistificar a visão de que a queda dos empregos industriais foi causada notoriamente pelo aumento do comércio. Na verdade, as mudanças de gosto, que passam por sociedades mais ricas que consomem mais serviços do que bens, e tecnológicas, aumentando a produtividade, são os elementos centrais para explicar a queda de emprego ao longo das últimas décadas. Contra esse movimento não há muito o que fazer, mas sim adequar políticas para compensar as perdas dos segmentos industriais que serão perdedores.

No caso brasileiro, isso poderia ser verdade se já fossemos integrados. Como a economia brasileira ainda é muito fechada, os ganhos potenciais de abrir a economia em um primeiro momento seriam muito maiores do que eventuais pioras na desigualdade. Mesmo assim, como hoje já existem muito mais experiências e estudos sobre como dirimir a desigualdade nesses casos, o Brasil poderia fazer políticas em conjunto, ou seja, de abertura e eventuais compensações por aumento de desigualdade. O que não vale é permanecer fechado, impedindo crescimento de produtividade, com o argumento de que aumentaria a desigualdade.

Aqui coloca-se um adendo negativo na atual estratégia do governo ao focar na demanda doméstica e desconsiderar os ganhos de eficiência de uma política comercial mais agressiva. As tratativas sobre a remodelação do Inovar Auto em algo chamado Rota 2030 não ajuda nesse sentido, pois segue se tentando colocar incentivos em um setor que deveria se abrir mais ao invés de pedir mais incentivos.

A demora em abrir a economia fica ainda mais clara quando se lembra que isso ajudaria no aumento da inovação. O maior desafio aqui é que talvez a inovação vá demandar necessidade de maior esforço por parte dos pesquisadores nos próximos anos, ou seja, terão que ser muito mais produtivos. Charles Jones e outros consideram que o crescimento exponencial do crescimento das últimas décadas se deu pelo forte aumento da produtividade das pesquisas, mas que gradativamente “novas ideias” estão se tornando difíceis de achar, demandando assim um crescimento ainda maior dessa produtividade. Sendo isto verdade, países que seguem fechados terão capacidade cada vez menor de gerar pesquisas relevantes que gerem aumento de produtividade em seus próprios países. A leitura natural disso é que estamos mais do que atrasados na insistência de não optar por um choque de abertura.

Não devemos ter medo dessa tendência. O mundo desenvolvido se fecha por razões que não devemos usar internamente para justificar o nosso próprio fechamento. Abrir seria o choque mais positivo que o próximo governo poderia legar ao país.

SERGIO VALE

 

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